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Na ponta da tesoura, brilha a autoestima da negritude

Jô sempre esteve atento às novidades que vinham dos EUA, principalmente aquelas ligadas à cultura negra. (Foto: Reprodução/Yahoo Notícias)

Na cobertura do mês da Consciência Negra, o Yahoo Notícias realiza o “Escurecendo a História”, que visa dar o merecido destaque e reconhecimentos aos negros e negras que escreveram a história.

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Texto | Juca Guimarães

O sorriso de satisfação do cliente visto pelo espelho após terminar o corte é o termômetro que o cabeleireiro Jô Ribeiro usa para saber se fez um bom trabalho no seu salão Jô Black Power, em Santo Amaro, na zona Sul da capital paulista.

Com um espelho nas mãos ele mostra por vários ângulos os detalhes do corte. Essa é uma rotina que se repete várias vezes por dia há quase 40 anos, mas toda vez é uma história diferente. 

Confira a websérie “Melanina”, do Yahoo Notícias em parceria com Alma Preta:

Nascido em Centenário do Sul, no Paraná, Jô foi para São Paulo em 1977 com o objetivo de conseguir um emprego e vencer na vida. Ele trocou a cidadezinha com menos de 10 mil habitantes para viver na maior metrópole do país. O primeiro emprego foi numa fábrica de sucos. Lá ele trabalhou como ajudante de serviços gerais por 11 meses, até ser demitido porque passou por uma escada onde não era permitido a trânsito dos peões da fábrica. 

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“Fui mandado embora sem dinheiro e sem direitos. Na época, eu morava numa pensão e uma amiga que trabalhava em um salão de cabeleireiro me indicou o novo serviço”, disse.

Jô já gostava de cortar cabelos e estava atento às novidades que vinham dos EUA, principalmente da efervescente cultura negra. 

“O dono do salão não tinha como me pagar. Então ele propôs que eu ficasse lá fazendo os cortes e dividisse metade do lucro com ele. Para quem estava sem emprego e sem perspectiva como eu, foi um bom negócio”, disse.

O salão se chamava Les Paul, mas Jô achava que precisava de um nome mais afirmativo e que representasse o orgulho negro.  “Eu queria ter uma marca minha. O nome não atrai negros. Então criei o Jô Black Power e deu certo”. 

Nos anos 80, o salão vivia lotado e tinha um público 100% negro. “A negrada não ia em salão de branco cortar o cabelo. Foi uma época muito forte da identidade de negritude. Os negros sabiam que não tinham o apoio dos brancos”, disse.

A música black embalava a rotina de trabalho no salão. Enquanto aguardava a vez ou esperava terminar o corte, os clientes ouviam uma playlist com o melhor do funk, soul e samba.

Mas nem tudo era alegria. A polícia perseguia as pessoas que usavam cabelo power. “A polícia não sabia nada sobre a cultura. Eles despenteavam os nossos cabelos para ver se tinha drogas  e tomavam os pentes de ajeitar o cabelo. Isso para humilhar as pessoas”, disse.

Salão Jô Black Power, em Santo Amaro, na zona Sul da capital paulista, é referência nos cortes afro há pelo menos 40 anos. (Foto: Reprodução/Yahoo Notícias)

Nos anos 90, o estouro do pagode também teve influência na moda e nos cortes de cabelo afro para homens e mulheres. 

O salão do Jô também é um ponto importante de diálogo e de luta contra o racismo. “As pessoas são sensíveis em relação ao cabelo e eles são alvo de ataques. Eu já vi vários casos de clientes que chegam tristes porque aconteceu uma  situação de racismo. Eu sempre falo para todos que a nossa beleza é a nossa história. Temos que cuidar do nosso cabelo e gostar dele. Não pode deixar o racismo derrubar a gente”, disse. 

Jô afirma que o cabelo é fundamental para fortalecer a autoestima, ter atitude e gostar de si mesmo. “Não pode dar ouvidos para os outras. Eu sou assim e assim é que eu vou ser. Com muito orgulho”, disse.

Hoje por conta da fama do salão e da tradição o público é de 80% de negros e 20% de brancos. “Mas vejo que está voltando a ser como era nos anos 80. A luta dos negros ficou fortalecida e o espírito de comunidade solidária voltou”, disse. 

Na festa de 30 anos do salão, há dez anos, Jô quis fazer uma festa para resgatar os tempos em que o espaço era um ponto de encontro das pessoas que iam curtir os bailes black. A festa, que reuniu cerca de 4 mil pessoas no clube Banespa, até hoje é comentada como o melhor baile da cidade.