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Com novas tecnologias, Brasil pode triplicar produção de carne

·6 minuto de leitura
Close up of calves on animal farm eating food. Meat industry concept.
Close up of calves on animal farm eating food. Meat industry concept.

O mineiro Francisco Guilherme Solto, de 58 anos, está no ramo da criação de gado há mais de três décadas. Começou a aprender com o avô, depois compartilhou criação de gado com o pai e, agora, vê o filho, aos poucos, assumir os negócios. Segundo ele, não teve momento mais assustador, durante toda sua jornada como pecuarista, do que a pandemia de covid-19. Afinal, toda a rotina da fazenda, em Três Lagoas, parecia que ia se transformar.

“A gente tá acostumado a bombas na pecuária o tempo todo. Já teve operação carne fraca, vaca louca, surto de doenças em toda a região aqui. Mas, com o novo coronavírus, não sabíamos como proceder”,diz Francisco, em entrevista por telefone ao Yahoo! Finanças. Só que o desastre econômico do setor não veio. “Aqui na minha fazenda, pelo menos, deu tudo certo. Precisamos adotar técnicas, tecnologias, e atender a demanda interna e externa”.

O resultado positivo não foi só na fazenda do Seu Francisco — chamada carinhosamente de Três Luizas, em homenagem às netas e fazendo referência à região. Afinal, em 2020, a agropecuária foi o único dos três grandes setores da economia que cresceu, de acordo com informações do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Com serviços e indústria acumulando perdas, o agro, em relação a 2019, teve um avanço de 2%, enquanto o Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil, no geral, registrou um tombo recorde de 4,1%.

“O Brasil venceu obstáculos”, diz o professor Ezequiel Silva, especialista em agronegócio. “A peste suína africana, que assustou antes da pandemia, não chegou aqui. Os frigoríficos e as fazendas controlaram a pandemia. E, acima de tudo, o consumo não parou. O boi ainda pasta, a vaca dá leite, o bezerro nasce. E, o que é mais importante, o brasileiro continua comprando, muito por conta do Auxílio Emergencial, enquanto mercados externos não param de exportar, já que não contornaram tão bem no quesito da produção”.

Rotina e tecnologia

Primeiramente, no setor, houve uma mudança na segurança da equipe. O próprio Seu Francisco conta que decidiu, em definitivo, mudar a rotina da Três Luizas. A partir de agora, ele busca dar todo o suporte para que colaboradores não precisem ir a todo momento para a cidade. Além disso, apesar do próprio dono do local estar vacinado, ele diz que as coisas se mantêm. Visita de pessoas de fora, como veterinários, são controladas e monitoradas.

E isso foi registrado em toda a cadeia. “Como vínhamos de um cenário de queda na produção global de proteínas, por conta da peste suína africana na Ásia, é difícil analisar qualquer impacto negativo”, diz Maurício Palma Nogueira, diretor da Athenagro e coordenador do Rally da Pecuária. “Mesmo no caso dos frigoríficos brasileiros, a estrutura é bem mais otimizada para gerenciar os riscos de contaminação dos funcionários. Outros países registraram impactos negativos que não foram observados aqui no Brasil”.

Além disso, assim como na agricultura, foi o momento da pecuária ver como a tecnologia é necessária. Afinal, por meio de sensores, drones e sistemas de gestão, o fazendeiro consegue fazer toda a administração de sua fazenda à distância. Com isso, diminuem as visitas e o contato com outras pessoas. Querendo ou não, as fazendas brasileiras entraram em um momento digital. Para especialistas, era seguir esse caminho ou ficar para trás.

“Não há a menor dúvida de que precisamos aprender mais, deixar de experimentar técnicas que não são mais viáveis economicamente. Podemos dobrar ou triplicar a produção de carne”, afirma Antonio Pitangui de Salvo, presidente da Comissão Nacional de Pecuária de Corte da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA). “Hoje, já temos tecnologias especializadas para cada necessidade e até mesmo para cada região do País”.

Uma empresa que atua forte nessa área é a @Tech, de Piracicaba. A startup se vale de uma tecnologia que mistura inteligência artificial com algoritmos e indica ao pecuarista o melhor momento de vender o gado. A ferramenta da startup, batizada de BeefTrader, cruza dados como peso dos animais, localização da fazenda e situação do mercado. E já calcula o melhor preço e o lucro obtido. Pra faturar, cobra valores diários para o monitoramento.

Hoje, a empresa já conquistou investimentos da Positivo e da Coplacana, além de ter uma carteira de clientes invejável, com AFB, Bosch, ABS, Grupo Água Tirada, dentre outros.

Para especialistas, inovação é um caminho sem volta. “No campo estão as principais tecnologias. Agora, você pode fazer gestão por metro quadrado, não mais por hectare. Você faz aplicação só onde precisa, para controlar erva daninha, por exemplo. O Brasil está liderando essa área. Será possível uma ação mais eficiente no campo”, diz Marcos Fava Neves, diretor técnico da Sociedade Nacional de Agricultura, sobre a tecnologia no campo.

Novas oportunidades

Com isso, especialistas contam que surgiram novas oportunidades — comerciais e de gestão. Primeiramente, o Brasil conseguiu conquistar ainda mais mercados ao redor do mundo, enquanto muitos países enfrentaram problemas. A peste suína matou metade do rebanho suíno da China — o equivalente a 30% dos porcos do mundo. Já na Europa, que ainda sofre com a gripe aviária, há dificuldade cada vez maior na criação de aves.

Aqui no Brasil, enquanto isso, nem mesmo a febre aftosa é uma preocupação. Hoje, com a vacinação, 100% dos estados controlaram a doença. Em algumas regiões, inclusive, já existem fazendas que não se preocupam com a febre aftosa sem qualquer preocupação em vacinar o gado. “Gado vacinado acaba sendo impedido de entrar em alguns mercados. Quando a gente deixar a febre aftosa no passado, o céu é o limite no Brasil”, diz Ezequiel.

Por fim, durante a pandemia, foi um momento do fazendeiro deixar um pouco a lida de lado para se tornar um administrador. “O produtor começou a ver que precisa tratar a fazenda de maneira diferente. A pouca possibilidade de trânsito fez com que, obrigatoriamente, no momento da pandemia, as pessoas começassem a olhar para o próprio negócio da fazenda. Começaram a ver como uma atividade muito produtiva. Começou a ver que não aproveitava o potencial. Os fazendeiros se tornaram empresários”, diz de Salvo, da CNA.

Seu Francisco é um exemplo. Com a pandemia, acabou saindo de cena. Gostou de mexer e acompanhar sua fazenda por meio da tecnologia. Desde abril do ano passado, o filho tem trabalhado mais na “linha de frente”. Mas, o fazendeiro de Três Lagoas não quer parar. “Minha esposa até falou para eu deixar tudo na mão do meu filho, voltar pra minha terra. E não é o que quero. Gostei de administrar a fazenda, de mandar. É isso que vou fazer”.

Leia a primeira reportagem da série especial sobre Pecuária