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Na infância, Alison dos Santos era 'Teco' e teve de superar timidez para entrar no atletismo

·4 minuto de leitura

SÃO JOAQUIM DA BARRA, SP (FOLHAPRESS) - O apelido era Teco, não Piu. Ele pulava muros, não barreiras. Corria atrás de pipas e bolas, não de tempos mais rápidos. Sua mãe sonhava ver o filho se tornar judoca, não velocista.

Em São Joaquim da Barra, município no interior de São Paulo com pouco mais de 50 mil habitantes a 396 km da capital, a vida de Alison dos Santos nada tinha a ver com a de um atleta que viraria o primeiro medalhista brasileiro na prova dos 400 m com barreiras em Olimpíadas.

A mãe, Sueli, 50, ainda mora na mesma casa em que ele passou a infância, num bairro afastado do centro da cidade e de classe baixa. No quarteirão ao lado, resiste a praça onde Alison jogava futebol.

Hoje pintada e reformada por dentro, a residência tem os muros de fora inacabados, com tijolo baiano sem reboco. O cenário é marrom e cinza claro, cores que também pintam o portão de ferro que dá para a rua.

Quando a Folha visitou o local, no fim da tarde de terça (3), bexigas e uma decoração verde e amarela eram os resquícios da madrugada durante a qual toda a cidade festejou o bronze de Alison. Foi a alegria maior de uma mãe consciente de que, se não fosse o atletismo, o filho teria poucas alternativas na vida.

"A gente vive humildemente, você pode ver que a gente é humilde, não tem aquela coisa de 'ah, vamos comer o que hoje?'. Tem as comidas certas [para cada dia], porque não tem muito dinheiro. Mas sem o atletismo a gente não seria tão feliz como a gente é. O Teco dá muita felicidade, muito orgulho", diz ela.

Se hoje não há bonança, no passado já foi mais difícil. Sueli lembra que quando Alison foi contratado pelo clube Pinheiros a casa estava "caindo aos pedaços". Agora, ele a ajuda financeiramente, e os tênis de corrida, que antes tinham de ser pagos com dinheiro do próprio bolso, vêm por meio do patrocinador.

O velocista, filho de Sueli e Gerson, tem três irmãs: Drieli, 31, Andrieli, 27 e Anieli, 23. Parte da infância viveu na casa da avó Geni, na qual sofreu as queimaduras que até hoje carrega no corpo. Foi mexer na panela de óleo quente em que ela fritaria peixes. A avó, quando viu a tragédia prestes a acontecer, conseguiu intervir, desviando o recipiente com as mãos, e provavelmente salvou a vida da criança. Os dois tiveram queimaduras graves e ficaram internados juntos no hospital por dias.

Quem vê o carismático corredor hoje não imagina que, quando criança, Alison era tímido, em parte devido às cicatrizes. A amizade com Alexandre Inocêncio, 19, o ajudou a superar o acanhamento e a mergulhar no atletismo -antes, lutava judô. Embora se conhecessem desde a escola, aproximaram-se no projeto social Correndo para Vencer. Com um conhecido ao lado, perdeu a vergonha de estar num ambiente novo.

Lá, a estrutura era longe da ideal. As pistas não eram de borracha, mas de granulado, e houve momentos em que faltou água. Os sapatos de corrida eram reutilizados ao máximo. Foi o suficiente para fazer Alison, após bons resultados, ser contratado pelo tradicional clube Pinheiros, da capital, onde mora atualmente.

Logo após terminar a prova mais importante de sua vida até aqui, porém, lembrou foi de São Joaquim da Barra. Prometeu voltar à cidade para "jogar um truco e gritar um 'seis' na orelha do Gersão". Gerson, pai de Alison, diz o mesmo. Espera a volta do filho para abraçá-lo, para "morder a orelha dele e marcar um truco".

Hoje, os pais de Alison são separados. Ambos sofrem com a distância do filho, intensificada pela Covid, que diminuiu ainda mais os contatos entre eles e levou embora o pai de Gerson, em julho do ano passado.

Eles, no entanto, sabem que o esporte também permite ao filho cursar fisioterapia, sonhar com um diploma de educação física e escapar do roteiro comum de São Joaquim da Barra: o comércio ou a cana de açúcar, produto que faz girar a economia da região. Inocêncio, o amigo que ajudou Alison, por exemplo, desistiu do atletismo e hoje quer se formar em química e trabalhar nas usinas de cana.

Mesmo assim, Sueli mantém a cama de Alison arrumada com a esperança de que um dia ele volte a morar na cidade. "Tem dia que dói. Choro, o coração aperta, aperta, aperta. Aí vou no meu guarda-roupa, que tem uma foto dele, e falo 'filho, agora a mãe vai dormir, fica com Deus'. Vou dormir chorando e acordo aliviada."

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