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Na euforia das carnes, avicultura tem com que se preocupar, diz Itaú BBA

Por Roberto Samora
Criação de aves em Lapa (PR)

Por Roberto Samora

SÃO PAULO (Reuters) - A indústria de carnes do Brasil tem colhido preços mais altos na exportação e no mercado interno e maiores embarques ao exterior, com impulso da demanda da China, mas a euforia é menor para o setor de frango, já que há alguns fatores que podem preocupar o setor avícola, avaliaram nesta quinta-feira especialistas do Itaú BBA.

Segundo o analista de Alimentos e Bebidas da Itaú BBA Corretora, Antônio Barreto, os preços das proteínas animais estão firmes na China, que tem lidado com uma oferta menor de carne de porco após sofrer uma redução drástica no seu plantel pela peste suína africana.

"Quanto mais falta de proteína (na China), maior a rentabilidade para as empresas (brasileiras) listadas em bolsa", disse Barreto, referindo-se à JBS, Marfrig, Minerva e BRF.

"É festa no mercado da pecuária do Brasil... patrocinada pelos chineses", acrescentou outro analista do Itaú BBA, César de Castro Alves, em evento do banco realizado com jornalistas.

Isso tem se refletido também em preços historicamente elevados para o mercado de carnes do Brasil, com o setor produtor de bovinos recebendo valores nunca vistos, acima de 200 reais a arroba, na medida que os chineses estão buscando fortemente o produto brasileiro, o que também tem inflacionado preços aos consumidores do país, segundo especialistas ouvidos pela Reuters.

Contudo, Barreto sinalizou que o cenário não é tão brilhante para a BRF, maior exportadora global de carne de frango, já que a China tem aumentado a produção das aves, como uma das alternativas mais rápidas para diminuir o impacto da queda de oferta de carne suína no maior consumidor global desse produto --uma ave fica pronta para o abate bem antes de porcos e bois.

Além da BRF, outra grande exportadora de aves do Brasil é a Seara, uma das divisões da JBS no Brasil.

Barreto citou números do Departamento de Agricultura dos EUA (USDA), que projetou aumento de 14% na produção de carne de frango chinesa em 2020, para 15,8 milhões de toneladas, como sinal do investimento chinês.

"Se a China de fato conseguir produzir todo este frango, pode ser que exista um cenário em que a China não precise importar tanto frango assim", afirmou.

Enquanto isso, contudo, o Brasil aumentou em 22% duas exportações de carne de frango para a China de janeiro a outubro, para 444,7 mil toneladas, obtendo resultado cambial de 931,7 milhões de dólares (+38%) no mesmo período.  


MILHO E EUA

Em outro ponto preocupante para a indústria de aves, analistas do Itaú BBA citaram que a China derrubou uma barreira sanitária após quase cinco anos para o frango dos Estados Unidos, que agora deverão competir com o produto do Brasil, o maior exportador global desse tipo de carne.

Embora a indústria brasileira veja espaço para todos os fornecedores, tamanha a fome da China por proteínas, os especialistas do Itaú BBA avaliam que há ainda outros riscos para o setor de carnes relacionados à poderosa indústria norte-americana, não somente para o setor de frango.

"Uma resolução da guerra comercial (EUA-China) favorecia empresas que têm ativos nos EUA, e o noticiário é mais favorável à resolução, e é negativo para algumas empresas. Pensando na BRF, por exemplo, os Estados Unidos são um competidor que não tínhamos nos últimos quatro anos."

Os analistas comentaram ainda o cenário de preço do milho, que é altista, tendo em vista o maior consumo e exportações do cereal em 2019, além da possibilidade de uma safra menor, após um recorde neste ano de mais de 100 milhões de toneladas.

O milho é a principal matéria-prima para a produção de ração para aves e suínos, dois dos principais produtos da BRF, e uma alta do cereal poderia apertar margens da indústria de carnes.

Para Guilherme Bellotti, também do Itaú BBA, a exportação de milho do Brasil deverá cair para 34 milhões de toneladas em 2020, após cerca de 39 milhões de toneladas previstas pelo governo para 2019, mas a produção deverá ser menor.

Ele disse esperar uma safra de milho de cerca de 98 milhões de toneladas no Brasil em 2020, uma queda na produção apesar da expectativa de um aumento de 3% na colheita de inverno, a maior do país.

Isso porque o atraso na safra de soja reduz a janela climática ideal para o milho, semeado logo em seguida, o que impacta na tecnologia da lavoura --produtores ficam mais cautelosos para investir em uma safra mais arriscada.

Bellotti não descarta nem mesmo que o país importe milho no primeiro semestre de 2020, quando a oferta será menor, antes da colheita da segunda safra, em um momento em que os preços do grão no exterior também podem ser mais interessantes para indústrias de carnes do Brasil.

Além da demanda maior do setor de carnes, impulsionada pela China, o milho do Brasil ganhou um novo mercado, a indústria nacional de etanol, em ascensão, o que também colabora para a alta do preços do cereal, disseram os analistas.

"Nos próximos oito meses, o milho e a proteína animal vão dar mais notícia", resumiu Pedro Fernandes, diretor de agronegócio do Itaú BBA.