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Na Coreia do Sul, os 'streamers' fazem fortuna

Daniel DE CARTERET, LIM Seong-uk
·3 minuto de leitura

Trancado em um depósito acima do apartamento de sua mãe em Seul, Kim Min-kyo joga online por até 15 horas por dia e faz fortuna graças aos milhares de fãs que acompanham suas façanhas ao vivo.

Aos 24 anos, suas proezas, que ele comenta com humor, permitem que ganhe cerca de US$ 50.000 por mês, mas seu estilo de vida permanece o mesmo.

"Não gosto muito de carros ou de gastar muito dinheiro", explica Kim, que come, dorme, toma banho e trabalha em seu cubículo. "É minha mãe quem administra meu dinheiro", acrescenta.

Os "streamers", ou seja, pessoas que transmitem conteúdo ao vivo, são chamados de "Broadcast Jockeys" ou BJs na Coreia do Sul. Eles compartilham por horas suas discussões, seus jogos, sua música e até mesmo suas refeições e seu tempo de sono.

Particularmente populares entre adolescentes e jovens na casa dos vinte anos, que os preferem a estrelas do mainstream, um pequeno número ganha até 100.000 dólares por mês transmitindo ao vivo na plataforma sul-coreana AfreecaTV e postando conteúdos no Youtube.

- Atrair fãs -

Kim, que transmite suas partidas de "League of Legends" enquanto comenta, reconhece que "às vezes tem que fazer algo absurdo para conseguir fãs".

É graças a eles que ele ganha a vida com doações, colocação de produtos - às vezes ele bebe energéticos sul-coreanos - e anúncios no YouTube, onde tem mais de 400.000 assinantes.

O "livestreaming", que não é regulamentado, geralmente provoca polêmicas. É particularmente criticado por seus conteúdos às vezes ousados em uma sociedade sul-coreana que permanece profundamente conservadora, e alguns "streamers" foram criticados por comentários misóginos ou tendências à violência.

A qualquer hora do dia é fácil encontrar, por exemplo, na plataforma da AfreecaTV mulheres seminuas prontas para "fazer uma dança sexy" ou enviar um vídeo vestindo roupas ousadas por dinheiro.

A epidemia de coronavírus só favoreceu o fenômeno.

Enquanto os moradores foram instados a ficar em casa na primavera passada para conter a primeira onda da covid-19, o tempo gasto assistindo a vídeos em smartphones disparou, e o YouTube diz que registrou picos enormes de audiência no ano passado em todo o planeta e especialmente na Coreia do Sul.

O modelo de negócios da AfreecaTV é vender aos espectadores "starballoons", o equivalente a pontos que podem ser comprados por 110 won (US$ 0,7) cada.

Eles podem então oferecê-los aos seus "streamers" favoritos, que os convertem em dinheiro, com a plataforma recebendo uma porcentagem no processo.

As doações feitas nesta plataforma aumentaram mais de 20%, atingindo 41,5 bilhões de won (30 milhões de euros) no terceiro trimestre de 2020.

"Mesmo que a pandemia de covid seja lamentável, seria uma mentira dizer que ela não ajudou o desenvolvimento de BJs", admitiu Joshua Ahn, chefe da produtora Starfish Entertainment.

O empresário de 44 anos dirige dezenas de transmissões ao vivo famosas e produz programas de variedades para algumas das maiores estações de televisão do país.

Embora apenas uma pequena fração ganhe uma fortuna, para Ahn, as estrelas que já ganhavam dezenas de milhares de dólares por mês viram suas receitas "dobrar ou até triplicar" durante a pandemia.

Frequentemente na vanguarda da tecnologia, a Coreia do Sul viu a receita de publicidade em telefones móveis triplicar entre 2015 e 2019, para 4,56 trilhões de wons, de acordo com os reguladores.

Agora, alguns streamers aparecem na televisão, enquanto personalidades, analistas financeiros e até políticos se voltam para esse novo modo de transmissão para melhorar sua imagem.

Mas, este fenômeno parece conhecer cada vez mais derivas, com conteúdos sexuais e violentos.

Para Hojin Song, pesquisador da California State University Monterey Bay, isso ocorre porque "esses BJs estão tentando chamar mais atenção".

"Quanto mais público puderam atrair, mais chances têm de ganhar dinheiro", lembra.

ddc/slb/gle/juf/ia/mr