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Na construção civil, 88% das obras se mantêm em andamento

FERNANDA BRIGATTI
·6 minuto de leitura

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Todos os dias, por volta das 6h, quando chega ao canteiro da obra em que é auxiliar, Marcilio Paulino da Silva, 49, lava as mãos em uma pia instalada antes da catraca. Se mais colegas de trabalho estiverem chegando no mesmo horário, ele terá de esperar --somente duas pessoas podem entrar ao mesmo tempo. Na portaria, recebe um jato de álcool nas mãos e tem a temperatura checada por um tipo de termômetro que não exige contato físico. Se a ferramenta acusar mais do que 37ºC, a recomendação da empresa é encaminhar o funcionário para o serviço médico. Se tudo estiver normal, ele segue para o vestiário, onde trocará a máscara do transporte por outra máscara que usará no período da manhã. Essa troca ainda acontecerá pelo menos outras duas vezes no dia. São quatro máscaras por jornada de trabalho. A rotina de segurança na obra, que já incluía o capacete obrigatório, roupas e sapatos especiais, foi incrementada desde o agravamento da crise do coronavírus no Brasil. Marcilio, operário há seis anos, diz que o importante é tomar todos os cuidados e esperar, pois a crise vai passar. A pandemia que abalou o mundo inspirou até um poema. Os horários de entrada e saída e as pausas para o almoço também mudaram e passaram a ser escalonadas. As subidas nos elevadores, que levavam até dez pessoas de uma vez, passaram a transportar somente quatro, de modo a manter o distanciamento entre os operários. A rotina mais cuidadosa é seguida na obra da Conx no Jardim Prudência, já em fase de acabamento, e se repete por outras tantas onde o trabalho continua. Mesmo com o decreto de quarentena vigente em São Paulo --e em diversos outros estados e capitais--, a construção civil não para --88% das obras seguem em andamento em todo o país. Em São Paulo, a construção civil está entre os setores autorizados pelo governador João Doria a seguir em atividade, excluída do confinamento social em vigor desde 24 de março. A maioria dos outros estados também inclui o segmento na lista dos essenciais. O setor, que é responsável por 2 milhões de empregos diretos com carteira assinada no país, esperava um ano de resultados moderados, mas positivos, depois de cinco anos difíceis e um 2019 surpreendente. Os dois primeiros meses do ano foram promissores. O balanço do Secovi-SP (sindicato da habitação em São Paulo) mostra um aumento de 56% nas vendas e de 102% nos lançamentos em janeiro e fevereiro na capital. No país, levantamento da Abrainc (Associação Brasileira de Incorporadoras Imobiliárias) realizado com as 20 maiores incorporadoras aponta alta de 34% nos lançamentos e de 25,86% nas vendas nos dois primeiros meses do ano. Os dados de março e abril ainda não estão consolidados, mas os empresários do setor estimam que devem ir na direção contrária. Basílio Jafet, presidente do Secovi, diz que a partir da segunda quinzena de março as vendas estão 60% abaixo do projetado para o período. "O brasileiro dá uma importância muito grande para essa compra. Fica mais complicado negociar quando há dificuldade de contato entre as pessoas. Você não consegue visitar o apartamento decorado, só consegue falar com o corretor por vídeo ou outros meio virtuais. Tem uma série de pontos que levam muita gente a aguardar o final do confinamento para prosseguir com a transação", afirma. A importância da decisão de comprar um imóvel faz com que o futuro mutuário, em geral, não tenha pressa. "Um mês a mais, um a menos, é um tempo que dá para esperar." Para Emílio Kallas, dono do grupo de incorporação que leva o seu sobrenome, a queda nas vendas no período deve ser maior, principalmente no segmento de médio e alto padrão. "Estamos com menos de 30% de vendas. O que está se mantendo são aquelas reservas, e todos ligados à faixa mais econômica. Quem tem um poder aquisitivo maior está adiando." O presidente da Cbic (Câmara Brasileira da Indústria da Construção), José Carlos Martins, calcula que a queda nas vendas, em março, tenha sido de 60% e que o mês de abril termine com uma redução de 70%. "Não parar [as obras] é um termo relativo. Um projeto de mercado imobiliário tem uma maturação longa. Os serviços estão contratados, não há por que parar agora", afirma. O adiamento nos lançamentos desestabiliza toda a cadeia imobiliária. O momento em que a crise se agravou também coincidiu com o período em que o mercado começaria a aumentar as apostas, passada o ínterim entre as festas de fim de ano e o Carnaval. Sem poder abrir estandes de vendas, as incorporadoras decidiram segurar a apresentação de novos projetos. A SKR, que produz imóveis de alto padrão, tem quatro obras em andamentos e faria um lançamento na semana seguinte ao início da quarentena. "Estamos mantendo os contatos com nossas equipes de vendas e corretores, com clientes que já estavam interessados, mas foi um abalo bastante forte", diz seu presidente, Silvio Kozuchowicz. "A gente vinha com um ritmo de mais lançamentos, e com quatro a cinco já para o ano que vem", afirma. Agora, a empresa está aplicando uma janela de 60 a 90 dias. Com isso, o lançamento previsto para março, deve ficar para maio ou junho. Uma outra obra que começaria em abril foi colocada em pausa. "Achamos que o início seria muito difícil agora e achamos melhor recomeçar em duas semanas." Na Kallas, os seis lançamentos previstos para a segunda quinzena de março e para o mês de abril estão adiados. Yorki Stefani, da Conx, diz que paralisar obra neste momento seria inviável e perigoso. "Você tem água parada, formas que podem cair, gruas e guindastes que ficam soltos", diz. A construtora segurou dois lançamentos previstos para julho --agora, deverão ser apresentados ao mercado em setembro. "Não sabemos o mercado que vamos encontrar, mas ainda acreditamos que a casa própria é um sonho." A Vitacon ainda optou por manter um lançamento que estava marcado para a primeira semana da quarentena, no dia 20 de março. O investimento nas negociações a distância não chegaram a decepcionar, ainda que muito distantes do que a empresa projetava. Ao fim de um mês, o prédio com 700 unidades estava com 350 vendidas --em um momento pré-quarentena, a aposta da empresa era já estar com 100% dos imóveis vendido. Alexandre Lafer Frankel, fundador da Vitacon, diz que a empresa já é muito adaptado ao mundo digital e vê nisso uma vantagem para o período de isolamento social. Em 2019, metade dos negócios fechados pela empresa foi com pessoas ou empresas de fora de São Paulo.