Mercado fechará em 29 mins

Não vemos sinais de bolhas de ativos neste momento, diz diretor do FMI

Sérgio Tauhata

Na avaliação do Fundo, mercado financeiro vive um momento de desconexão com a economia real embalado pela liquidez injetada por bancos centrais O diretor do departamento monetário e de mercado de capitais do Fundo Monetário Internacional (FMI), Tobias Adrian, afirmou não ver sinais de bolhas de ativos neste momento, durante coletiva sobre a atualização do relatório de Estabilidade Financeira Global. "Mas vemos os 'valuations' esticados", acrescentou o economista.

De acordo com o diretor do FMI, "as valorizações em muitos mercados de risco parecem esticadas". Conforme o especialista, há, no momento, uma desconexão entre o otimismo dos mercados financeiros e a economia real.

A volta da inclinação de investidores ao risco tem sido sustentada pelas rápidas e sem precedentes ações dos Bancos Centrais globais para conter os impactos da pandemia.

"O afrouxamento das condições financeiras é resultado das ações rápidas dos BCs", apontou Adrian.

O economista ponderou que as principais autoridades monetárias globais, ao longo de seis meses, aumentaram em mais de US$ 6 trilhões os balanços, com as medidas de resposta aos impactos econômicos da crise do coronavírus. A injeção de liquidez tem levado a uma retomada da tomada de risco nos mercados do mundo todo, incluindo os emergentes.

Jose Luis Magana/AP

O problema é que a precificação do risco parece estar "além dos fundamentos, simplesmente pela expectativa de ação dos BCs". Adrian citou os spreads no mercado de dívida, que "estão no momento muito estreitos", apesar do choque econômico.

Futuros desdobramentos da pandemia, porém, podem ampliar a volatilidade nos mercados, como uma recessão mais profunda e duradoura ou uma segunda onda de infecções. Segundo Adrian, o maior risco no momento é uma eventual retomada dos "lockdowns".

"Se se tornar necessário estender ou reinstalar o isolamento, isso pode levar a uma reavalição dos 'valuations'". Uma reversão do atual otimismo nos mercados pode levar a uma correção de preços de ativos, que traria um aperto nas condições financeiras e poderia retrair o fluxo de crédito para as economias, avaliou o diretor do FMI.

Apesar dos riscos, Adrian ponderou que, em uma situação de piora da crise, "os BCs têm muito poder de fogo e podemos esperar que vão reagir".

O economista afirmou ainda esperar que BCs de outros países além do Japão adotem o chamado controle de curva de yield. "Com essa ferramenta, os BCs podem ter mais controle sobre os juros longos e os custos de empréstimos mais diretamente do que com as ferramentas normais de política monetária, que miram as taxas de curto prazo."

Segundo Adrian, a questão de se usar o controle de curva é o aumento do balanço. "Os balanços podem se tornar muito grandes e a questão é manter um equilíbrio desse crescimento", disse o diretor do FMI.

Conforme o economista, os países precisam usar ferramentas macroprudenciais para contrapor um aumento de vulnerabilidade com o forte crescimento do endividamento soberano e corporativo. O afrouxamento das condições financeiras "tem levado a uma reabertura dos mercados e uma retomada da habilidade de corporações soberanos de tomar dívida".

Proteção

De acordo com o dirigente, "o FMI tem argumentado há algum tempo que a política monetária deve ser usada para atingir objetivos macroeconômicos, mas ferramentas macroprudenciais tem de ser usadas para assegurar que proteções suficientes para os soberanos, as corporações e as famílias". Adrian reforçou a necessidade de os "formuladores de políticas adotarem medidas marcroprudenciais para evitar o aumento da vulnerabilidade com a acumulação de dívida".

Para o diretor do FMI, diferentemente da crise de 2008, os bancos em muitos países atualmente têm proteções suficientes para absorver o impacto das medidas de contenção da pandemia. Isso mesmo diante de "uma queda sem precedentes na atividade econômica" global.

"Somos muito afortunados de os bancos terem muito mais capital e níveis de liquidez como resultado de dez anos de reformas regulatórias."

Conforme Adrian, como as incertezas sobre a pandemia ainda são muito grandes, é preciso ter uma abordagem cautelosa sobre as políticas de distribuição de dividendos das instituições financeiras neste momento, como forma de reforçar as proteções.