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"Não há possibilidade de um Deus em nosso universo", acreditava Stephen Hawking

Patrícia Gnipper

O assunto é polêmico, é verdade. Existem, sim, cientistas que creem em Deus ou em algum tipo de força superior que comandou a criação do universo, também é verdade. Mas este não era o caso de Stephen Hawking, físico teórico falecido no início do ano mas que, além de nos deixar um artigo final sobre buracos negros, acaba de ganhar um último e póstumo livro chamado Brief Answers to Big Questions (que, em tradução livre, se chama "Breves Respostas para Grandes Perguntas").

Hawking enxergava o fenômeno da criação por meio do viés científico apenas e, portanto, sempre que questionado sobre coisas como "de onde viemos?" "por que estamos aqui?" ou "estamos sozinhos no universo?" suas respostas, naturalmente, eram o mais céticas possíveis e, por isso, conviveu em toda a sua vida enquanto cientista com críticas neste sentido por parte de religiosos.

Seu livro, lançado internacionalmente na última terça-feira (16) e disponível (em inglês) na Amazon por US$ 16,51, traz uma série de dez ensaios que abordam a mais antiga de todas as questões: Deus existe?

As respostas de Hawking que constam no livro, na verdade, foram compiladas usando décadas de entrevistas que o cientista concedeu sobre o tema, além de ensaios e discursos que foram selecionados com a ajuda de seus parentes e colegas de ciência. No livro, há declarações como: "Eu acho que o universo foi criado espontaneamente a partir do nada, de acordo com as leis da ciência", "Se você aceita, como eu, que as leis da natureza são fixas, então não demorará muito para perguntar: que papel existe para Deus?" e "Se você gostar, pode dizer que as leis são a obra de Deus, mas isso é mais uma definição de Deus do que uma prova de sua existência".

Hawking foi um defensor ferrenho da teoria do Big Bang — ideia de que nosso universo e tudo o que existe nele começou a partir de uma singularidade extremamente densa, menor do que um átomo, que explodiu e, então, o que hoje chamamos de universo começou a se formar e se expandir. Da partícula, emergiu toda a matéria, energia e espaço vazio, com essa matéria-prima evoluindo para o cosmos que conhecemos hoje (e tudo isso seguindo um conjunto estrito de leis científicas, como as da gravidade, relatividade, física quântica, etc.).

Sendo assim, de acordo com os argumentos de Hawking que constam no livro, com o universo evoluindo numa espécie de piloto automático cientificamente guiado, o único papel de uma divindade seria apenas estabelecer as condições iniciais do universo para que as leis pudessem existir. Seria mais ou menos algo como uma pessoa programar uma série de linhas de códigos e, depois, somente observar os resultados de sua criação.

"Deus criou as leis quânticas que permitiram que o Big Bang acontecesse?", questiona o físico, cuja resposta à própria pergunta foi: "Não tenho vontade de ofender alguém de fé, mas acho que a ciência tem uma explicação mais convincente do que um criador divino". Ele explica que, nos estudos quânticos, é comum ver partículas subatômicas, como prótons e elétrons, aparentemente surgirem "do nada", ficando ali por um tempo e depois desaparecendo ou reaparecendo em um lugar totalmente diferente. E como o universo um dia já foi do tamanho de uma partícula subatômica (a singularidade inicial), faz sentido pensar que ele tenha se comportado de maneira semelhante nos eventos que causaram o Big Bang — tudo isso na visão de Hawking, claro.

Aí vem outra questão: e quem criou a singularidade inicial? É aí que os religiosos apontam que só poderia existir um Deus para que isso tenha sido possível. Mas Hawking diz que a ciência também tem uma explicação, que pode estar na física dos buracos negros — estrelas colapsadas que são tão densas que absolutamente nada (nem mesmo a luz) é capaz de escapar de sua força gravitacional.

Colocando em outras palavras, os buracos negros (assim como o universo antes do Big Bang) se condensam em uma singularidade e, neste ponto, a gravidade é tão intensa que acaba distorcendo o tempo, a luz e o espaço. Ou seja: nas profundezas de um buraco negro, o tempo não existe. Sendo assim, como o universo justamente começou como uma singularidade (isto é, de acordo com a teoria do Big Bang), o tempo não poderia ter existido antes da explosão que deu início a tudo o que existe.

"Para mim, isso significa que não há possibilidade de um criador, porque não há tempo para um criador existir", conclui o cientista. Claro, esses argumentos podem não ser suficientes para convencer crentes teístas de que Deus não existe, e há argumentos válidos dos dois lados (científico e religioso). Mas, enquanto cientista que dedicou toda uma vida à compreensão do cosmos, Hawking, de certa forma, procurou entender a "mente de Deus" — e, ainda que sua visão não contemple a existência de um criador divino como nas crenças religiosas, o cientista deixou para a humanidade ideias que remetem a conceitos como esperança, admiração e gratidão. "Temos essa única vida para apreciar o grande projeto do universo; e por isso sou extremamente grato" são as palavras que encerram o primeiro capítulo do livro em questão.

Fonte: Canaltech