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Mutação do novo coronavírus entre humanos é baixa, afirmam cientistas

Claudio Yuge

Um dos grandes desafios em encontrar remédios e vacinas para os vírus é a evolução destes patógenos ao longo do tempo, que vão sofrendo mutações à medida que se replicam nas transmissões entre os milhares, talvez milhões de hospedeiros. As “imperfeições” de cada cópia vão gerando outras versões com discretas diferenças, então, isso dificulta o estabelecimento de um padrão e uma solução ideal para todos os casos. Contudo, os cientistas que vêm analisando de perto o código genético do novo coronavírus (SARS-CoV-2) concordam em um aspecto que pode nos ajudar a encontrar respostas para conter o avanço da COVID-19: o patógeno não vem apresentando mutações discrepantes, justamente porque circula apenas pela população humana.

Nos primeiros meses do surto, pesquisadores encontraram duas distintas cepas e, desde então, foram identificadas outras sequências divergentes em pacientes de diferentes países. Contudo, os mecanismos de revisão que envolvem o novo coronavírus reduzem a “taxa de erro” sobre essas mudanças e, segundo os cientistas, sua estrutura é basicamente a mesma em todos os lugares. Eles ainda destacam que não há evidências de que uma versão seja mais mortal que outra — como alguns estudos preliminares chegaram a cogitar.

Novo coronavírus (em amarelo) em uma célula de um paciente (Imagem: Reprodução/NIAID-RML)

Segundo Peter Thielen, geneticista molecular no Laboratório de Física Aplicada da Universidade Johns Hopkins, há um trabalho sendo realizado neste momento para compreender as mutações, a partir de análises de mais de 1 mil amostras diferentes do vírus. Ele afirma que até agora foram confirmadas apenas entre quatro e dez diferenças genéticas. Essa conclusão veio a partir de uma comparação entre as cepas que infectaram pessoas nos Estados Unidos e o vírus original disseminado em Wuhan.

"Esse é um número relativamente pequeno de mutações, principalmente devido ao fato [do novo coronavírus] ter passado por um grande número de pessoas. Nesse ponto, a taxa de mutação do vírus sugere que a vacina desenvolvida para a SARS-CoV-2 seria uma vacina única, em vez de uma nova a cada ano, como a da gripe”, destaca.

Mutação tupiniquim

Uma força-tarefa de cientistas brasileiros conseguiu sequenciar o genoma do novo coronavírus no tempo recorde de 48 horas, sem interrupção, em 19 pacientes internados em hospitais de Minas Gerais, Rio de Janeiro, Goiás, Rio Grande do Sul e São Paulo. Só duas dessas amostras apresentaram origem asiática, e as demais vieram da Europa. A conclusão foi que o patógeno já sofreu mutações por aqui e apresenta características distintas das cepas iniciais.

Uma das autoras do trabalho, Ana Tereza Vasconcelos, explica que a anáise encontrou marcas no genoma que indicam alterações após a chegada do vírus em território nacional. Isso só acontece quando o patógeno está há tempo e em quantidade suficientes para que essas mudanças ocorram sem ser notadas. “Ele está realmente entre nós”, afirma a coordenadora do Laboratório de Bioinformática do Laboratório Nacional de Computação Científica (LNCC), em Petrópolis.

Imagem: Reprodução/Labiotech

O sequenciamento genético foi realizado em um supercomputador, que usa a inteligência artificial para identificar padrões ligados à dispersão e mudança de comportamento da doença no Brasil. “Nosso trabalho reforça a importância do isolamento social e da testagem para conter a transmissão da COVID-19 no Brasil. São as armas que temos agora. Não teremos vacina ou remédios prontos a tempo de salvar as vítimas dessa pandemia”, destaca um dos coordenadores do estudo, Renato Santana, do Departamento de Genética, Ecologia e Evolução da UFMG.

Além do LNCC, a equipe conta com cientistas da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), apoiados pelas fundações de amparo a pesquisa dos seus estados (Faperj e Fapemig) e pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Comunicações (MCTIC). A iniciativa contou com a parceria de pesquisadores do grupo de Ester Sabino, diretora do Instituto de Medicina Tropical da Universidade de São Paulo (CADDE/USP), e da Universidade de Oxford, na Inglaterra. Esse levantamento também contou com o trabalho voluntário de alunos de pós-graduação.

Fonte: Canaltech

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