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'Homens agressores matam porque não têm recursos', diz psicóloga de casais

Psicóloga orienta que a principal ferramenta de resgate da autoestima da mulher vítima de violência é trabalhar a sua individualidade. (Foto: Getty Images)

por Maria Carolina Trevisan

A psicóloga Marina Simas trata de casais há mais de 20 anos. Fundadora do Instituto do Casal, ela diz que o principal tratamento para a mulher vítima de violência e de relacionamento abusivo é trabalhar a sua individualidade e resgatar a sua força.

Quando ela consegue sair desse lugar de insegurança, confusão e vulnerabilidade, consegue quebrar o ciclo de violência. Por vezes, é possível também tratar o homem. Para ela, quando ele toma consciência do que está fazendo com a parceira e entende que precisa lidar com a própria fragilidade, é possível retomar um relacionamento saudável.

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Nesta entrevista, Marina mergulha no cotidiano da mulher vítima de violência, seus filhos e no perfil do homem agressor. Dá os caminhos para compreender como parar a tempo.


Yahoo Notícias - Como uma mulher que passou por um relacionamento abusivo chega ao seu consultório?

Marina Simas - Ela chega frágil, vulnerável, insegura, confusa e geralmente vem por indicação de alguma mulher que conseguiu se desvencilhar da vivência de um relacionamento assim.

É comum entre os relacionamentos abusivos que exista uma escalada da violência, que pode começar com uma breve reclamação?

É comum, sim. A escalada da violência acontece nos relacionamentos abusivos principalmente quando existe uma consciência e aí aparece a necessidade, por parte da mulher, de mudança. O processo de possível mudança gera medo de perder o controle, de ser abandonado, de rejeição e para que nada disso venha a ocorrer vem a imposição para manter o sistema como está. Então, há a criação de um isolamento dos amigos e familiares, fragilizando a mulher. "Você não vai sair.”  “Não vai usar essas roupas.”  “Ninguém vai te querer.” Ele reduz a auto estima da parceira. Se tudo isso não der certo no verbal, vem ataques mais fortes. 

Como é possível perceber que um relacionamento está sendo abusivo?

Quando você percebe que não tem voz dentro da relação. Que tudo está muito diferente do que você considera um relacionamento bacana e saudável. Se tiver presente a violência psicológica ou verbal fica mais evidente que a relação é abusiva. Ameaças, controle, chantagens e manipulações também são características de um relacionamento abusivo.

Qual é o limite? Como reconhecer o momento de romper a relação?

Geralmente demora muito tempo para romper. E quando acontece é porque houve algum fato novo: uma terapia, uma amiga que está dando suporte… Algo inédito ou muito drástico, envolvendo os filhos, por exemplo, para que a mulher consiga sair dessa história. Em geral, ficam de 8 a 10 anos para sair de um relacionamento abusivo em média. É muito tempo. 

Nesse caso, a mulher tem acesso a tratamento. E quando falamos de alguém que não tem condições financeiras para pedir ajuda e arcar com o orçamento da casa?

Aí é mais difícil ainda. Existem casas de acolhida, com endereço sigiloso. Lá elas são empoderadas emocional e profissionalmente para terem suporte. Buscam tranquilidade para ter condição de autonomia mínima, aprendem a colocar limites. Chegam sem nada, então têm roupas e lugar para os filhos. Acesso a assistente social, educadora, pessoas que as acompanham no Fórum e também ajudam a preparar a volta para a vida. O jogo é muito forte para essas mulheres, especialmente para as mulheres negras, que além de tudo sofrem com o racismo. O que é complicado é que para acessar esse serviço, é preciso ir a uma Delegacia da Mulher e registrar um boletim de ocorrência. A partir daí, não é possível voltar atrás no processo penal. 

É possível que o homem tenha consciência de como está lidando com a mulher e mude o comportamento abusivo e violento?

Sim. É uma relação de poder, controle, chantagem, ameaça. Se ele toma consciência disso, de qual é a vulnerabilidade dele, a estratégia de sobrevivência que ele usa, que bate com a vulnerabilidade dela e com a estratégia de sobrevivência dela, e fica nesse ciclo, e a gente consegue alterar, é possível, sim. Eles matam porque não têm recursos emocionais, não sabem conversar, dialogar, não sabem o que sentem, não se expressam, não lidam com nada. Entram num desespero… O trabalho para mudar esse ciclo da violência é muito mais com os homens, que foram criados num ambiente muito patriarcal, machista, e não conseguem lidar com rejeição, abandono, com as próprias emoções. Começa muito lá atrás. A mulher é vítima disso tudo. Ela tem que aprender a se defender. Os homens precisam de muita ajuda. Muitos não são do mal. Mas são inseguros, frágeis. Se a mulher vai embora, não sobra nada deles. Ela é a vida, a alegria, o cuidar, um apêndice deles. Por isso, não deixam que a mulher viva a individualidade dela. 

E como ajudar a mulher a se curar dos traumas decorrentes dessa relação?

Eu começo a trabalhar o empoderamento dela. A lidar com o emocional. Quem é ela, a identidade dela. Tirar o homem um pouco da história dela. E fortalecê-la muito, enquanto pessoa, enquanto mulher, enquanto mãe, profissional. Mostrando a esperança de uma vida melhor. E aí, com muita dificuldade, ela pode conseguir romper o ciclo. Sempre com a ajuda de alguém. A relação abusiva tem muito amor e ódio. São duas versões dela mesma. Ela fica muito perdida. 

Quando um parente ou amiga percebe que a mulher está passando por um relacionamento violento, se deve interferir? Como interceder? 

Eu acho que sempre deve se tentar. No primeiro momento não vai cair a ficha, ela vai fugir, mas vai internalizar aquilo, digerir, lidando com as dores e em algum momento ela volta para continuar a conversa, quando puder escutar. Ela sabe que tem um apoio. 

É o caso de denunciar o homem agressor à polícia? Isso pode colocar a mulher em mais vulnerabilidade? 

É extremamente delicado fazer essa denúncia. Porque não se sabe exatamente quem é o agressor e como ele age. Podem acontecer coisas muito sérias e muito graves. Ela precisa estar consciente de que está participando. Aí o risco reduz. Mas quando é o caso de salvar a vida da mulher - como num flagrante de violência física -, aí é preciso interferir. Quem testemunha a violência também é afetado, fica desestabilizado. 

Quando nesse lar tem uma criança, como ela cresce testemunhando a violência?

É muito difícil. É um ambiente muito inseguro, elas percebem a gritaria, a loucura, ficam tristes, tensas, estão sempre alertas, não conseguem viver a infância, então, querem sair logo dali, com medo. Quando adultos, têm dificuldade em se relacionar, entendem que relacionamento não é uma coisa boa. Os meninos quando se tornam homens podem tanto reproduzir o comportamento que conhecem ou se opor totalmente, o que também não é legal. Porque ficam muito frágeis e submissos às mulheres, sem saber colocar limites para evitar atritos. As meninas geralmente acabam buscando um relacionamento a qualquer custo para sair daquele ambiente, então, há gravidez na adolescência, por exemplo. Ou vão trabalhar com causas feministas para transformar esses traumas. Isso depois de lidar com muitas dores e angústias.