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Mudanças climáticas aumentam risco de desertificação no Brasil

·5 minuto de leitura

SÃO PAULO — Cravado no sertão alagoano, o município de Santana do Ipanema leva o nome de um rio. Ypanema, palavra da língua tupi, quer dizer água ruim, salobra, imprestável. Se a água já faltava, agora falta chão. Professora da Universidade Estadual de Alagoas, a engenheira agronômica Cláudia de Carvalho, especialista em solos, conta que, nos últimos tempos, também a terra tem ficado salinizada e muitos produtores já perderam suas lavouras, e não conseguem mais cultivar.

— Aqui é uma área de avanço da desertificação. A maioria das áreas na região está em processo grande de degradação — diz Cláudia, que leciona na unidade de Santana de Ipanema há 17 anos.

Além de alterar regimes de chuva no Sudeste, gerando ocorrências como a tempestade de poeira no interior de São Paulo, as mudanças climáticas também levam à desertificação no semi-árido brasileiro. As projeções do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) indicam aumento de temperatura e redução no volume de chuvas já na próxima década. A última seca na região durou seis anos, de 2012 a 2017, e foi período mais longo desde 1845.

Mapeamento feito pelo Laboratório de Análise e Processamento de Imagens de Satélites (Lapis), da Universidade Federal de Alagoas, mostra que Alagoas é o estado brasileiro com maior proporção de solo degradado em relação a seu território na categoria de maior risco para desertificação: 10% estão na categoria "muito forte". O Rio Grande do Norte aparece com 9,2%; Paraíba, com 7,1% e Pernambuco, com 5,3%.

A classificação da degradação tem três grupos: Muito forte, forte e moderado. Se somar "muito forte" e "forte" a situação de Alagoas é ainda pior: o percentual de terras afetadas chega a 17%. No Rio Grande do Norte, a 14,4%.

Oficialmente são reconhecidos apenas quatro núcleos de desertificação no semiárido brasileiro — Irauçuba (CE), Gilbués (PI), Seridó (RN e PB) e Cabrobó (PE) — que somam 18.177 km2. Os cientistas afirmam que, além da ampliação dos núcleos, nos últimos anos novas áreas apresentam fortes indícios de processo de desertificação em Alagoas, Norte de Sergipe e Norte de Minas Gerais.

— Sem contenção e restauração, essas áreas são como feridas que se expandem. O risco é perder o controle e passar o tempo que permite restauração — diz o professor Humberto Barbosa, geoprocessador e fundador do Lapis.

Barbosa explica que a caatinga, em seu estado natural, é resiliente a longos períodos de seca. Quando volta a chover, a vegetação nativa se recupera. Com desmatamento e exploração excessiva do solo, seja com agricultura ou pasto, o ciclo de recuperação deixa de ocorrer.

Solo raso

Cláudia de Carvalho afirma que o solo na região de Santana do Ipanema não tem mais do que 40 a 60 centímetros de profundidade. Abaixo disso, é pedra. Segundo ela, sem assistência técnica, o uso de tecnologias simples, como um trator, com o passar dos anos acaba removendo justamente a camada fértil do solo.

— As pessoas não enxergam o solo como recurso não renovável. O tempo necessário para formar um centímetro de solo é muito longo e o processo de perda é muito rápido — diz ela.

Na avaliação de Washington Franca Rocha, professor da Universidade de Feira de Santana (BA), parte da degradação do solo em Alagoas tende a ser uma extensão do núcleo de desertificação de Cabrobó, em Pernambuco, que fica perto do Rio São Francisco e, no passado, chegou a ter programas governamentais para agricultura intensiva irrigada.

Quando o programa minguou, a área foi abandonada e ficou com terra exposta, o que resultou em forte erosão. As áreas, segundo ele, não permitiam agricultura sustentável, mesmo com forte financiamento.

Irrigação desordenada

O geógrafo Joaquim Freitas, coordenador do Centro de Pesquisas Ambientais do Nordeste (CEPAN), afirma que a irrigação desordenada acelera a salinização do solo, uma das características da desertificação. Segundo ele, a 50 km de Cabrobó, o município de Belém do São Francisco, às margens do Velho Chico, abriga terras nas quais a vegetação natural jamais vai se recuperar.

— As terras têm cristal de sal, tem sal mesmo. A floresta não consegue mais se recuperar ali — diz ele.

O rebaixamento do lençol freático é uma das causas da salinização, pois o sal não dilui na água e fica depositado no solo.

Na Paraíba, onde o núcleo de desertificação é atribuído ao desmatamento para produção de carvão para abastecer um polo cerâmico na região, Barbosa afirma que áreas já degradadas têm sofrido agressão ainda maior. A composição da camada mais alta do solo mudou e virou Massami — uma mistura de areia e argila — e, agora, tem sido simplesmente vendida para obras de construção civil.

Barbosa conta que a venda de solo massami, de fazendas que deixaram de ser produtivas para agricultura, aumentou na região de Campina Grande há cerca de cinco anos. A exploração, segundo ele, chega a abrir cavas de até 2 metros de profundidade. Um caminhão de Massami é comprado por R$ 6 e vendido para as construtoras por R$ 150.

— É uma agressão física que vai pressionar as áreas próximas e diminuir ainda mais o lençol freático, que está abaixando, e vai dificultar o abastecimento por poços artesianos — diz Barbosa.

Rocha, que coordena os estudos da caatinga para o MapBiomas, afirma que o solo frágil da caatinga, submetido à intensa exploração, pode sofrer perdas irreversíveis. Ou seja, a degradação do solo não ocorre apenas pela falta de água.

Estudo do MapBiomas mostra que as perdas de águas superficiais nos estados do Nordeste foram altas entre 1985 e 2020. O Ceará foi o mais atingido. Perdeu 31,8% de superfícies cobertas por água no período, seguido pela Paraíba, com 27,25%, e pelo Rio Grande do Norte 11,42%. Em Alagoas, a perda foi de 6,32%.

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