Mercado fechado

Mudança de tarifação não está relacionada a acordo com ATS, diz presidente da B3

Fernanda Guimarães

A mudança de tarifação da B3, anunciada nesta quinta-feira, 2, vem sendo trabalhada dentro da companhia desde meados do ano passado e não tem relação com o acordo firmado na semana passada com a ATS, após processo de mediação, sobre o preço e demais condições para a prestação, pela B3, de serviços de transferência de ativos, comentou o presidente da B3, Gilson Finkelsztain, em teleconferência com jornalistas nesta quinta-feira. A ATS tinha planos de montar uma nova bolsa de valores no Brasil.

O executivo disse que por conta da proximidade das datas entre o acordo com a ATS e o anúncio da nova política de tarifação foi feito um vínculo no mercado entre os dois eventos, o que ele diz não ser correto. "O acordo com a ATS é muito inferior ao que estamos fazendo aqui, que é algo muito amplo. No acordo com a ATS a amplitude era apenas na tarifa de transferência de ativos e aqui é um movimento muito maior e de muito mais impacto e foco no clientes", comentou.

Na nova política de tarifação anunciada nesta quinta, a companhia informou que haverá uma redução e custos aos clientes - e queda de receitas para a companhia - da ordem de R$ 250 milhões, isso se considerado os efeitos caso as mudanças já estivessem em vigor nos últimos 12 meses. Essa perda de receita, contudo, será mitigada com o maior volume de negociação que deve vir a reboque das medidas, com um maior volume de investidores pessoas físicas, maiores volumes de fundos locais, que seguem captando em cenário de juros baixos no País, e com a vinda de mais investidores estrangeiros, diante dos incentivos de menores tarifas para maiores volumes negociados.

Dentre as mudanças anunciadas estão as tarifas menores para investidores com maiores volumes, criação de programa de incentivo para grandes day traders, isenção da tarifa mensal de manutenção de conta de custódia e redução automática de tarifas (compartilhamento da alavancagem operacional).

O presidente da B3 disse que as mudanças na tarifação não ocorrem tendo em vista concorrência, mas sim o foco no cliente. "Nosso compromisso é de estar perto do cliente", afirmou. Ele comentou, por exemplo, que a decisão de zerar a taxa mensal de manutenção de conta, atualmente de cerca de R$ 110 ao ano, veio após debates com as corretoras. "Foi identificado que esse poderia ser um gargalo para a atração de clientes por parte das corretoras", disse.

Muitos intermediários, por conta disso, não estavam repassando esse custo aos clientes e sendo, assim, onerados. A expectativa, agora, é que ganhem mais fôlego para o crescimento de suas bases de investidores.

O executivo afirmou, ainda, que a B3 já tem concorrência global, o que pode ser facilmente observado, por exemplo, no mercado de derivativos e de ações, com empresas brasileiras - caso da XP no fim do ano passado - escolhendo a Nasdaq na hora de abrir seu capital.

Para 2020, a B3 trabalhará, junto aos reguladores, outra medida com potencial de atrair mais investidores ao mercado de renda variável: a simplificação de cobrança de Imposto de Renda. "Com o desenvolvimento do mercado de capitais a gente gostaria de trabalhar um modelo de tributação mais simplificado, que poderia ser menos impeditivo para atração de investidores", afirmou.

Mitigação

A redução das receitas com a nova política de tarifação da B3 para renda variável e mercado de balcão será mitigada com a expectativa de aumento do volume de negociação da bolsa e com a entrada de novos investidores, disse Gilson Finkelsztain.

A B3 anunciou novo modelo de tarifas para determinados serviços no mercado de renda variável, na central depositária e empréstimo de ativos. A companhia informou que se as mudanças estivessem em vigor nos últimos doze meses a perda de receita seria da ordem de R$ 250 milhões.

"Nosso objetivo não é maximizar a receita de curto prazo e sim o fortalecimento do mercado no médio e longo prazo, dando mais abertura para um número maior de investidores nesses mercados", afirmou o executivo.

Finkelsztain explicou que a mudança da tarifação será feita ao longo do ano e esse prazo será necessário porque os intermediários terão que se adaptar às mudanças. "O cronograma será antecipado assim que tivermos o 'ok' dos participantes do mercado", afirmou.

O presidente da B3 afirmou que a vantagem de uma empresa líder é poder levar aos seus clientes esse tipo de benefício e ponderou que a tarifação "não pode ser um empecilho para a realização de negócios". Segundo ele, a companhia busca com as mudanças proporcionar ambiente para o pleno potencial de crescimento do mercado. "Vamos trabalhar para o desenvolvimento do mercado de capitais", disse.

O executivo frisou que a B3 opera com elevada alavancagem operacional e que, dessa forma, suas receitas aumentam com o maior volume de negócios. Ele lembrou que desde que a B3 nasceu, após a união de BM&FBovespa com a Cetip, um dos compromissos assumidos com o mercado foi o de dividir os ganhos de sinergias com os clientes e que a nova tarifação anunciada hoje ocorre tendo em vista essa estratégia. "Não é uma novidade essa nossa estratégia e não é algo que pode ser feito da noite para o dia", comentou.

Foco

Finkelsztain disse que o foco das novas tarifas é a ampliação dos volumes de negociação e maior liquidez nos mercados. As mudanças ocorreram depois da companhia tentar entender, junto aos seus clientes, quais mudanças teriam mais efeitos nessa direção. "A mudança não foi para todos os produtos, mas para aqueles que efetivamente podem incentivar o crescimento do mercado de capitais", concluiu.