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MP encerra escutas no caso Adriano da Nóbrega após menções a Bolsonaro

Redação Notícias
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Brazil's President Jair Bolsonaro arrives to the Ministry of Justice to attend the inauguration of the new public defender, in Brasilia, Brazil, Tuesday, Jan. 19, 2021. (AP Photo/Eraldo Peres)
Para iniciar um novo período de grampos, é necessária uma nova autorização da justiça, o que os promotores desencorajaram (Foto: AP Photo/Eraldo Peres)

O Ministério Público (MP) encerrou as escutas no caso do ex-capitão do Bope, Adriano Magalhães da Nóbrega, chefe da milícia especializada em assassinatos “Escritório do Crime”, após menções ao presidente da República Jair Bolsonaro (sem partido) no processo. As informações obtidas constam no relatório técnico da Subsecretaria de Inteligência da Secretaria de Polícia Civil do Rio de Janeiro.

De acordo com o jornal The Intercept Brasil, que divulgou as informações, uma das irmãs do miliciano, Tatiana Magalhães da Nóbrega, afirmou em uma ligação feita em fevereiro de 2020 que queriam ligar Adriano a "Bolsonaro", referindo-se ao presidente. Adriano foi morto, na Bahia, alguns dias antes desta ligação.

Os investigadores passaram a monitorar no dia 6 de fevereiro de 2019, dias após a prisão do ex-PM ser decretada, os suspeitos de integrar a organização criminosa que seguia os negócios de Adriano da Nóbrega.

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O Ministério Público do Rio de Janeiro (MP-RJ) chegou a abriu uma denúncia contra policiais e ex-policiais militares ligados à milícia de Rio das Pedras e da Muzema, ambos localizados na zona oeste do Rio de Janeiro, onde o escritório do crime operava.

No dia 14 de fevereiro de 2020, a irmã de Adriano falou ao telefone com uma mulher não identificada e, durante a ligação, Tatiana lamentou a dificuldade em liberar o enterro do irmão. Foi nessa ligação que ela alegou que o o irmão "tinha muita coisa e mexia com muita gente", citando o presidente da República, Jair Bolsonaro.

"Falam sobre uma pessoa que está lá, Tatiana diz que ele está lá tomando conta do gabo para ela e diz que tem muita coisa para tirar. Tatiana fala sobre Adriano e diz que ainda não conseguiram enterrar. Tatiana diz que a família quer cremar e não foi autorizado. Tatiana diz que trouxeram um perito particular para alegar que ele foi assassinado e o perito não pode mexer no corpo", diz um trecho da ligação.

A irmã de Adriano da Nóbrega ainda diz que está "a maior confusão" e que o irmão dela não era miliciano. Ele era "bicheiro". "Tatiana diz que querem ligar ele a Bolsonaro", explicita outro trecho do documento.

MP encerra escuta

Uma semana após a conversa em que o nome de Bolsonaro foi citado, um relatório mostra a opção do MP por não renovar as escutas telefônicas de Tatiana. De acordo com o jornal, o fechamento das interceptações é feito por um relatório a cada 15 dias, seguindo o prazo legal.

Até então, a renovação das quebras de sigilo era atualizada de forma sistemática até o dia 21 de fevereiro, cerca de duas semanas após o ex-PM ter sido localizado em uma propriedade rural na Bahia.

Para iniciar um novo período de grampos, é necessária uma nova autorização da justiça, o que os promotores desencorajaram.

"Pelos motivos acima expostos, encaminhamos o presente para apreciação de Vossa Excelência, sugerindo, salvo melhor juízo, a não renovação da medida de interceptação telefônica do terminal utilizado por Tatiana Magalhães da Nóbrega, bem como do respectivo IMEI 355909106083490, vinculado ao telefone", diz um trecho do documento.

O MP-RJ não tem atribuição para investigar o presidente da República. Porém, cabe à instituição encaminhar as informações à Procuradoria-Geral da República (PGR) que tem a liberdade de apurar suspeitas relacionadas ao chefe do Executivo.

Segundo o The Intercept Brasil, o processo jamais foi encaminhado à instância superior. Instado a responder se remeteu o caso à PGR, o Grupo de Atuação Especial no Combate ao Crime Organizado do MP do Rio, o Gaeco, informou ao jornal apenas que as investigações estão sob sigilo, “razão pela qual não é possível fornecer as informações solicitadas”.

Além da irmã do ex-capitão do Bope, outros suspeitos de integrar a rede de proteção de Adriano, integrantes do 'Escritório do Crime', também tiveram as escutas interrompidas, como a do vereador de Esplanada, Gilsinho da Dedé (PSL), proprietário do sítio em que Adriano se escondia.