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Mourão afirma que atos contra o governo são “caso de polícia”

Cristiane Agostine

Vice ainda criticou o ministro Celso de Mello por comparar o Brasil com a Alemanha de Hitler O vice-presidente Hamilton Mourão afirmou que é um “abuso” apresentar os protestos contra o governo Jair Bolsonaro como “democráticos” e estimulou a repressão contra os manifestantes, que chamou de “delinquentes” ligados “ao extremismo internacional”.

Em artigo publicado nesta quarta-feira no jornal “O Estado de S. Paulo”, Mourão escreveu, em referência aos manifestantes, que “baderneiros são caso de polícia, não de política”, e que “devem ser conduzidos debaixo de vara às barras da lei”.

Para Mourão, os atos do fim de semana, organizados por grupos da sociedade civil e torcidas de diferentes clubes de futebol em cidades como São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte, contra o autoritarismo, não são, na verdade, para defender a democracia.

Sergio Lima/Bloomberg

“A apresentação das últimas manifestações contrárias ao governo como democráticas constitui um abuso, por ferirem, literalmente, pessoas e o patrimônio público e privado, todos protegidos pela democracia”, afirmou o vice-presidente.

“Imagens mostram o que delinquentes fizeram em São Paulo, Rio de Janeiro e Curitiba. Registros da internet deixam claro que [os manifestantes] estão umbilicalmente ligados ao extremismo internacional”, completou, sem indicar provas dessa suposta ligação.

No artigo, ele ainda afirma que é um “abuso” esquecer quem são os manifestantes, assim como apresentá-los como um contraponto aos bolsonaristas “na tentativa de transformá-los em manifestantes legítimos”.

“Baderneiros são caso de polícia, não de política”, segue o texto. “Portanto, não me dirijo a eles, [...] que em verdade devem ser conduzidos debaixo de vara às barras da lei. Dirijo-me aos que os usam, querendo fazê-los de arma política; aos que, por suas posições na sociedade, detêm responsabilidades institucionais”.

Em seguida, Mourão questiona o motivo dos protestos, que não foram chamados por partidos políticos: “Aonde querem chegar? A incendiar as ruas do país, como em 2013? A ensanguentá-las como aconteceu em outros países? Isso pode servir para muita coisa, jamais para defender a democracia.”

O vice-presidente negou que haja a intenção de um golpe militar e disse que as Forças Armadas estão desvinculadas da política partidária e cumprem “rigorosamente seu papel constitucional”.

Sem mencionar o protesto feito por apoiadores de Bolsonaro no domingo em frente ao Supremo Tribunal Federal (STF), portando armas e segurando tochas, ele disse que a “legítima defesa da democracia” deve passar pela tolerância e diálogo.

Mourão também criticou o ministro Celso de Mello, do STF, que comparou a situação política do país à da ascensão de Adolf Hitler na Alemanha e afirmou que apoiadores do presidente Bolsonaro querem a volta da ditadura militar no Brasil.

“Tal tipo de associação, praticada até por um ministro do STF no exercício do cargo, além de irresponsável, é intelectualmente desonesta”, escreveu.

Racismo

Mourão também criticou o apoio de brasileiros aos protestos contra o racismo nos Estados Unidos, depois da morte violenta do americano George Floyd, negro, sufocado por um policial branco que se ajoelhou sobre seu pescoço por mais de oito minutos.

O vice-presidente questionou o “sentido” de trazer para o Brasil “problemas e conflitos de outros povos e culturas” e minimizou o racismo no Brasil. “É forçar demais a mão associar mais um episódio de violência e racismo nos Estados Unidos à realidade brasileira.”

“A formação da nossa sociedade, embora eivada de problemas contra os quais lutamos até hoje, marcadamente a desigualdade social e regional, não nos legou o ódio racial nem o gosto pela autocracia”, escreveu.