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Mortes no Jacarezinho: amigos de infância, Isaac e Richard Gabriel foram enterrados juntos

·5 minuto de leitura

Isaac Pinheiro de Oliveira, conhecido como Pé, e Richard Gabriel da Silva Ferreira, o Kako, se conheceram ainda criança na comunidade do Jacarezinho. Vizinhos, cresceram juntos, estudaram juntos e, juntos, entraram para a facção que comanda o tráfico de drogas na região. Neste domingo, foram sepultados juntos no cemitério de Inhaúma, sob o pranto de suas mães, após serem mortos na operação policial que terminou com 28 vítimas, na última quinta-feira.

Após perder a mãe ainda pequeno, Isaac foi criado como filho pela avó, Célia Regina Homem de Mello. Mais novo de três irmãos, foi o que mais sentiu o falecimento da mãe, se tornando uma criança tímida e retraída. Anos mais tarde, ao ver o neto começar a andar com companhias suspeitas, dona Célia tomou a decisão de deixar a comunidade e se mudou para Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, pensando na segurança do garoto que criou como um filho. Mas a distância não adiantou e Isaac ia frequentemente ao Jacarezinho, onde acabou se envolvendo com o crime.

— Eu peguei esse menino no colo, dei banho, dei mamadeira. Hoje, no dia que deveria ser de festa, eu estou enterrando. Era para estarmos em casa, almoçando. Eu me mudei do Jacaré há anos. Não era o mesmo local de antes, morava lá desde 1957. Mas ele gostava, saía de casa todos os dias para ir ver os amigos e acabou se envolvendo com coisa errada. Eu sei que ele estava envolvido, mas não era esse chefão que estão dizendo, era desses garotos que eles pegam para vender coisa, ele e o amigo – disse.

Isaac, inclusive havia descoberto no início da semana passada que seria pai pela primeira vez. No domingo passado, ele ligou para o pai, Carlos Roberto da Conceição, para dar a notícia, e combinou de almoçarem juntos para comemorar, o que acabou não acontecendo.

— Domingo passado ele me ligou todo feliz dizendo “o senhor vai ser avô”. Falei da alegria que eu tive quando ele nasceu e combinamos de nos encontrarmos para comemorar. Ele me disse que ia sair dessa vida para poder criar o filho, mas não teve tempo. O que a polícia fez foi absurdo, essa operação não era para prender ninguém, era para matar – afirmou.

Morto junto do amigo, Richard Gabriel, o Kako, tinha um mandado de prisão contra ele em aberto. A mãe da vítima, Denise da Silva chorava sob o caixão do filho a respeito de ter de sepultá-lo no dia das mães. Emocionada, ela teve de ser retirada por parentes enquanto chamava o nome da vítima:

— Que é isso gente? Que mundo é esse? Que dor é essa que eu estou? Será que vai passar algum dia? Essa polícia assassina dizendo que era operação de combate, era uma chacina. Não tinha objetivo nenhum que não fosse matar e com crueldade. Meu filho e os meninos foram pegos vivos, eles se entregaram, mas não bastava, eles queriam sangue, morte.

Um primo de Richard Gabriel, que não quis se identificar, disse que presenciou o momento em que o policial entrou na casa onde as vítimas estavam e escutou os disparos. De acordo com ele, o responsável foi um policial militar que foi criado na comunidade e conhece os envolvidos com o tráfico:

— Tem um policial militar que chamam de "neguinho do aparelho". Ele é cria do Jacarezinho e participa das operações da civil porque conhece todo mundo aqui. A maioria dos que morreram tinha realmente envolvimento, porque ele apontava quem era, chamava pelos nomes. Eu soube que meu primo estava encurralado numa casa com o Isaac e fui para ajudar eles a se entregarem. Os policiais não deixaram a gente chegar perto e o "neguinho" já veio dizendo que queria o Pé e o Kako. Depois só escutei os tiros. O Isaac ainda tiraram vivo, ele levantava o braço pedindo ajuda, mas terminaram de matar dentro do caveirão.

Também sepultado neste domingo em Inhaúma, Bruno Brasil, de 37 anos, teve um funeral diferente das demais vítimas sepultadas no local. Enquanto os outros funerais contavam com uma quantidade considerável de pessoas, na sua maioria jovens com idades entre 18 e 25 anos, que vieram em ônibus das comunidades e quase todos com camisas com as fotos dos jovens e mensagens bíblicas, a cerimônia de Bruno destoava pelas pouco mais de 10 pessoas, que vieram em sua maioria a pé, não usavam camisas feitas especialmente para o sepultamento, e velavam um caixão simples, que inclusive tinha uma das alças visivelmente solta.

Viúva de Bruno, a autônoma Paula Gonzaga, chorava a perda do companheiro e também o fato de estarem identificando Bruno como criminosos. Junto com a mãe da vítima, Célia Regina Lemos, elas querem limpar a imagem do parente, apontado como trabalhador inclusive pelos presentes aos velórios dos rapazes que tinham envolvimento com o tráfico.

— Meu marido não era bandido, ele era trabalhador, tinha carteira e registro, mas estava desempregado. Ele saía todo dia de madrugada para ir comprar no mercado água e doces e vendia na rua. Era assim que ele sustentava a casa. Ela estava saindo quando os policiais o pegaram no Beco da Zélia, levaram para uma casa e deram um tiro na cabeça. Agora é isso, dia das mães e uma mãe enterrando seu filho e ainda por cima com caixão fechado porque os policiais acabaram com ele.

Irmã de Bruno, a cuidadora Rafaela Lemos prometeu se dedicar à missão de limpar o nome do irmão. Quanto à morte dele, ela espera um dia poder aceitar o fato, pois não acredita que seja feita alguma justiça a respeito do caso.

— Eu não vou descansar até limpar o nome do meu irmão, será uma missão. Bruno não era bandido, era pai de família, bom filho e bom irmão. Ele terminou os estudos, tinha curso de eletricista, de operador de rede de telefonia, mas com a pandemia perdeu emprego e estava como camelô para sustentar a família. Em justiça eu não acredito mesmo, justiça para quem se ele foi morto justamente por quem deveria ajudar a fazer justiça? Eu quero o nome do meu irmão limpo, por que é a única coisa que restou para a família.