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Perdemos muito, inclusive o medo

Pesquisadora do Fórum Brasileiro de Segurança Pública escreveu artigo sobre a resistência das pessoas negras no país (Foto: Pedro Borges)

Texto / Carolina Soares Nunes Pereira

A qualquer olhar atento, é impossível circular pelas ruas dessa cidade e não perceber que se encontra em um território negro, da Zona Sul ao Centro, variados são os tons de insurgência. O relato não é sobre Salvador, mas sobre a grande São Paulo, a cidade que em números absolutos tem a maior população negra em um dos países mais negros do mundo. Berço de um samba único, terra com sua própria história de violências e resistências. Contemporaneamente o estado de São Paulo recebe imigrantes e refugiados negros de diversos países, gente falando em línguas com sonoridades diversas. A maioria dessas pessoas encontram-se em diáspora forçada, como as primeiras pessoas negras que foram violentamente deslocadas até esta terra. Quando chegam, conhecem as especificidades do que é ser negro no Brasil.

​Pode-se rememorar que ao menos desde os anos oitenta, o estado de São Paulo e, em especial, a capital paulista, ficaram conhecidos como um dos lugares mais violentos para pessoas negras e empobrecidas no Brasil. Da violência policial, à violência do sistema prisional, passando pelo nascimento do Primeiro Comando da Capital (PCC) e seus embates com o Estado, muitos dos nossos caíram. Nas palavras de Gabriel Feltran, as favelas deixam de serem reconhecidas como lugar de gente trabalhadora e passam a ser marcadas como “lugar de bandido” nos anos noventa. Pelo menos desde a chacina dos Crimes de Maio em 2006, o cenário paulista das violências vive novas mudanças e a história delas pode ser contada de muitas formas. Nessa conversa, vamos começar de baixo para cima.

​Em maio de 2006, centenas de jovens negros e/ou pobres foram enterrados. Majoritariamente homens de preto, vestidos de preto, que mataram outros homens pretos, sem disso extrair qualquer transformação positiva para suas vidas. Mulheres de preto os enterraram. As mães de alguns desses homens investigaram, contaram os corpos, e convocaram seus familiares, amigos e vizinhos às acompanharem. Do luto à luta, nasceu o movimento Mães de Maio na Baixada Santista. Assim como em outras tragédias provocadas pela violência estatal, quando os jovens caíram por força da violência estatal, as mulheres sustentaram as lutas. Nasceram as Mães da Leste, as Mães de Osasco e de Barueri. Cotidianamente, sobrevivendo às violências do sistema prisional e reivindicando as vidas e dignidades de seus filhos e de todos os presos, renasce a Associação de Amigos e Familiares de Pessoas Presas (AMPARAR) de São Paulo.

​As mulheres, amigos, familiares, vizinhos e militantes que se levantam quando um jovem negro tem sua vida roubada exigem justiça. Já perderam tanto, que levaram até o medo. Através de pesquisa, podemos organizar um tipo de prestação de contas. Tentando balancear o resultado, alguém poderia começar dizendo que São Paulo é um dos estados e também é uma das capitais que tem reduzido os números de homicídios e outros registros policiais. Mas, a bem da verdade, também através dos números sabemos que em relação as vítimas fatais da violência policial no estado de São Paulo, no ano de 2018, 70% das mortes decorrentes de intervenção policial foram de pessoas negras, contra 29% de brancos. Em 2017, as proporções foram similares, 66% de negros contra 30% de brancos e 4% não informados.

No movimento negro temos uma frase que diz que os nossos passos vêm de longe. Por isso, quando falamos sobre as mortes decorrentes de intervenção policial nos territórios mais vulnerabilizados do país, não podemos simplesmente contar os corpos. Precisamos olhar para as mães que marcham em exigência por justiça. Nos meninos de catorze, quinze anos que perdem um jogador lá no time de futebol de várzea do Campo Limpo, quando um amigo é vítima de bala que encontra seu corpo. Precisamos falar sobre a mãe de Lucas, dona Maria, que mora em Santo André e que quer saber onde está o seu filho desaparecido há uma semana. Ela acaba de ser presa, na noite antes do 20 de novembro de 2019, ao prestar depoimento sobre o sumiço do menino.

Quando contamos corpos, devemos o respeito e a atenção aos que sobreviveram. Devemos aos nossos buscar os caminhos para que não mais meninos negros caiam no chão. Em respeito a todas as mulheres negras, às mulheres das quebradas, que mantêm essa cidade-mundo de pé, devemos o nosso tempo. Quem é negro nesse país dificilmente não conhece alguém que morreu jovem demais, alguém que adoeceu pelo empobrecimento ou pelo estresse da precarização da vida. É raro encontrar um de nós que não saiba falar sobre violência, uma vez que o Estado garante que ela se faça tão presente em nossas trajetórias. Só que nós a encaramos tantas vezes de frente, e ela nos tirou tantos e tantas, ela nos tomou tanta coisa, que levou embora até os nossos medos.

É assim que, depois de tanta exploração, de tanto açoite, tanta viatura, tanta cela, tanta fila de cadeia, o povo negro continua a reinventar suas estratégias de luta e a sobreviver. É precisamente no estado que abrigou Luiz Gama que precisamos lembrar, que os jovens negros têm mãe. E quem tem mãe aprende, como Luísa nos ensinou, que de um jeito ou de outro, a gente levanta e anda.

*Carolina Soares Nunes Pereira é pesquisadora do Fórum Brasileiro de Segurança Pública