Mercado fechado

Morte de Maradona expõe problemas de fetichizar e julgar vício em drogas

PHILLIPPE WATANABE
·5 minuto de leitura
***ARQUIVO***SÃO PAULO: O ex-jogador e ídolo do futebol argentino Diego Maradona. (Foto: Mônica Bergamo/Folhapress)
***ARQUIVO***SÃO PAULO: O ex-jogador e ídolo do futebol argentino Diego Maradona. (Foto: Mônica Bergamo/Folhapress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Se assumir o vício em drogas e buscar ajuda já é difícil para qualquer simples mortal, multiplique essa dificuldade por algumas vezes no caso de celebridades sob escrutínio e julgamento intensos. Muitas vezes mais para quem era considerado um dos maiores mitos de seus país e até um deus.

Também entra no tortuoso caminho da recuperação uma certa fetichização do uso de substâncias ilícitas, não raramente associado a artistas considerados geniais.

Para Renata Azevedo, chefe do departamento de psiquiatria da Unicamp, uma espécie de glamurização de substâncias que poderiam produzir talento acaba servindo como incentivo ao seu uso. "Já ouvimos essa associação sobre pintores, cantores e artistas em geral, que o que fazem é devido às substâncias ou a transtornos mentais, que estimulam algum sentido."

Não dá para dizer que o caso de Diego Maradona (1960-2020) se encaixe perfeitamente aí. Ele próprio reconheceu, mais de uma vez, que teria tido uma carreira muito diferente na sobriedade. "Com a minha doença, lhes dei vantagem", disse em entrevista ao canal argentino Tyc Sports, em 2014, fazendo referência a seus adversários.

As idas e vindas no uso de drogas como cocaína e álcool encurtaram sua carreira e sua vida.

Mas a dependência química ocorre devido a diversos fatores, como tipo de personalidade, gênero e padrão socioeconômico, entre outros.

"A sociedade atrapalha demais quando julga a pessoa, especialmente associando o uso a doenças mentais. É uma das grandes barreiras para buscar ajuda", afirma Camila Silveira, médica psiquiatra e pesquisadora do núcleo de epidemiologia psiquiátrica da USP. "A pessoa não planeja ser dependente, mas, quando vê, é."

A extroversão é um traço que pode expor a pessoa ao uso abusivo de alguma substância. Quem tem menor aversão a riscos também acaba mais exposto à possibilidade de abuso de drogas.

"A pessoa agitada e acelerada é um alvo mais fácil para drogas que excitam. Ela geralmente as usa para se sentir com o humor mais elevado do que já tem e bebe álcool para baixar, para conseguir dormir", diz Silveira.

Os homens estão mais associados ao uso de substâncias como uma forma de lidar ou expressar emoções.

Segundo Silveira, às vezes o contato inicial com a substância se dá como forma de esquecer algo ou enfrentar um problema.

O craque conheceu a cocaína em 1983, quando jogava no Barcelona. Após fraturar o tornozelo esquerdo em um jogo contra o Athletic Bilbao, foi operado e precisou de três meses de repouso. Tinha 23 anos e estava no ápice de seu vigor físico.

Quando jogava no Napoli, em 1991, Maradona foi flagrado em exame antidoping. O caso levou a uma suspensão de 15 meses.

Seu último jogo pela seleção argentina ocorreu no Mundial dos EUA, após vitória da sua seleção contra a Nigéria. Ao fim da partida, foi sorteado para um exame antidoping, que deu positivo para efedrina e resultou em nova suspensão.

No Boca Juniors, voltou a ser pego com traços de cocaína em um novo exame antidoping, em jogo contra o Argentinos Juniors. O fato ocorreu em 1997, ano que marcou a despedida de Maradona dos gramados.

O período posterior ao fim de sua carreira teve inúmeras internações em clínicas de reabilitação. Ficaram ainda mais claros os problemas de saúde, como hipertensão e arritmia.

Segundo Azevedo, pesquisadora da Unicamp, a combinação de uso de cocaína (substância excitante, ligada a sensações de euforia e agitação) e álcool resulta em cocaetileno, que é conhecida por sua toxicidade para o coração.

A especialista da USP ressalta ainda que não são incomuns situações de abuso de substâncias em pessoas com profissões curtas, como as dos atletas, que voltam um grande esforço para as suas carreiras para manter um alto desempenho ao mesmo tempo em que abrem mão de muita coisa numa fase jovem da vida.

"A pessoa vê aquilo que era prazer e propósito e depois se questiona 'e agora?'. É do humano buscar prazer no que está ao alcance das mãos. Se a pessoa não se preparou para outras coisas, ela fica vulnerável ao uso de substâncias como forma de amenizar a dor, o vazio", diz Silveira.

Além de tudo isso, também pesa o meio em que a pessoa vive. O ex-jogador e comentarista Walter Casagrande, que também enfrenta a dependência química e costuma falar abertamente sobre o tema, comentou sobre isso ao saber da morte de Maradona.

"Sempre fiquei revoltado com quem estava ao redor dele. Quem está ao redor está vendo que ele está indo para o fundo do poço, destruindo a vida dele. E ninguém faz alguma coisa para evitar isso?", afirmou. Segundo Casagrande, o apoio de sua família foi fundamental para que ele atingisse a sobriedade.

"A morte de Maradona ocorreu hoje, mas começou já faz muitos anos, porque é isso o que a droga faz: ela nos mata aos poucos", escreveu Casagrande no site ge.globo. No texto ele também critica a associação equivocada e preconceituosa da adição com o caráter do dependente.

A dependência, além disso, "cola" na personalidade da pessoa, seja ela quem for, diz Azevedo. "É o viciado da família, é o drogado do bairro. Fica muito forte isso", afirma.

No caso de famosos há ainda a ridicularização pública. O caso de abuso de substância pelo ator Fábio Assunção é um exemplo brasileiro recente. Além de memes e publicações vexatórias sobre a luta dele contra o abuso de drogas, o rosto do ator virou máscara de Carnaval.

As especialistas ressaltam o quão prejudicial esse tipo de comportamento da sociedade frente ao problema é. "Ninguém é imune, por mais famoso que seja. As pessoas têm direito de buscar ajuda", diz a especialista da Unicamp. "Temos que permitir que elas busquem ajuda sem se sentirem constrangidas."