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Morre o artista plástico Carlito Carvalhosa, aos 59 anos

·4 minuto de leitura

Carlito Carvalhosa despediu-se de nós, deixando um imenso e significativo corpo de obra, formando uma matriz de infinitos lugares que nos levam a estar onde nunca antes estivemos. O artista plástico, que sofria de câncer no intestino, morreu nesta quinta, aos 59 anos, em São Paulo.

Escrevo estas linhas movido pela dor da perda de um amigo que me levou a tantas alturas e a tantas emoções. Escrevo estas linhas para o amigo que me ensinou, nas dificuldades, a força da alegria e da esperança. Só um gênio – só aquele que já tem o poder das soluções – encara o mundo com otimismo absoluto.

Da adversidade vivemos, uma frase apropriada por Oiticica que faz ressoar, por sua vez, um ensaio de Merleau-Ponty, vem à mente diante da partida do amigo e artista.

Carlito Carvalhosa soube transformar – diria mesmo: transfigurar – todas as adversidades do mundo e do campo estético em uma fonte de inteligência, de prazer e de alegria. A história – antiga e bela – dos véus que revestem o amplo campo da arte ocidental, das vitórias helénicas às ninfas em seu exílio, encontra, na obra de Carlito Carvalhosa, seu mais sublime resultado. Foi este artista que nos ensinou, depois de dois milênios de panos expostos, como finalmente habitá-los, como nos encontrar onde tantos se perderam e como retornar para o lugar onde nem sabíamos que estávamos.

Tive a honra de trazer esse sopro de vida ao mausoléu do museu, onde a Soma dos dias de Carlito Carvalhosa pôde inflar o abismo do MoMA com sua vontade de sobrevivência, fazendo-o se transformar – mais uma vez: transfigurar – em abismo-pleno, seguindo o caminho de Lygia Clark, cujas últimas palavras – as de Meu doce rio – Carlito havia levado ao seu jardim de esculturas em uma performance que não poderá se repetir.

Não tenho dúvidas de que a obra de Carlito Carvalhosa é um desses legados de “longue durée” da humanidade, uma obra bela e exigente que ainda aguarda os seus intérpretes. Ouso dizer que Carlito, como os grandes operadores de transformação, sempre de uma margem mais ou menos oculta, soube dar forma a uma ambição incomensurável: a de desfazer a tensão binária entre o informe e o formal, a de des-solidificar a escultura para desconstruir sua alteridade sólida, tornando-a grávida de sons e corpos reais, ao mesmo tempo que enfatiza, a cada vez e para todo o sempre, a grande matriz líquida da pintura, solidificando-a: cristalizando a água cromática dos seus espelhos originais.

Enorme e transcendente: a obra de Carlito Carvalhosa reflete – e também quebra – os antigos grandes mitos da arte ocidental: Olympos, Boutes, Odisseu, Narciso, Eco e Salmacis.

Carlito Carvalhosa nasceu em 1961, em São Paulo. No começo dos anos 1980, Carvalhosa assumiu, junto aos seus colegas do Grupo Casa 7, a tarefa heróica e infinita de dar prosseguimento a mais uma sobrevivência da pintura. Coube a esta geração – e de forma brilhante a Carvalhosa – reinventar a possibilidade da arte depois do sublime esgotamento ao qual a geração anterior a conduziu.

Sua obra é indício, tal como sua vida, de que ele soube encarnar o grande legado da modernidade carioca, aquele de Oiticica, Clark, Pape e Pedrosa, trazendo-o para o século XXI. Em sua obra, o mistério da afetividade das formas adquire uma dimensão monumental, um território sem precedentes, um inesgotável campo ampliado. Em outras palavras, coube a ele – e esta é uma das chaves de seu legado – convergir a lição da não-arte à vida infinita da arte, de modo a re-inaugurá-la.

Sempre que me deparei com uma obra de Carlito Carvalhosa senti o impulso da força inaugural: a cada vez tornei-me Narciso descobrindo as imagens; e de novo Eco vendo-as morrer em meio ao seu esplendor; e também as velas cheias com as grandes viagens; assim como Odisseu voltando a Ítaca.

“Por que a música na solidão? Por que as velas sem mastros içados? Para passar por elas, nichos do nosso corpo antes dele ter estado lá. Para estar onde nunca estivemos” – são as palavras que escrevi há alguns anos sobre o trabalho de meu amigo.

Hoje, quando ele se despediu de nós, e nosso mundo se tornou mais doloroso com sua ausência – mas maior e mais belo, porque nele permanece sua obra – tentei, sem sucesso, buscar aquelas palavras de Merleau-Ponty sobre a adversidade um dia roubadas por Oiticica. Encontrei outras, e nelas também encontro abrigo junto a memória do meu amigo Carlito Carvalhosa: “O corpo é enigmático: parte do mundo, por certo, mas estranhamente oferecido, como o seu habitat, a um desejo absoluto de aproximar-se do outro e de unir-se a ele também em seu corpo, animado e animante, figura natural do espírito.”

Figura natural do espírito: a cera perdida da alma, os espelhos, seus pigmentos aglutinados, os troncos, os seus ramos aéreos, os véus, a música silenciosa da vida que nos carrega e que Carlito Carvalhosa soube nos deixar como herança, para sempre.

* Luis Pérez-Oramas, ex-curador do MoMA e responsável pelo projeto artístico das galerias Nara Roesler

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