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Morre Carlos Langoni, economista e ex-presidente do Banco Central, vítima de Covid-19

·7 minuto de leitura

RIO - O economista e ex-presidente do Banco Central Carlos Langoni morreu neste domingo, vítima de Covid-19. Ele estava internado desde dezembro na UTI do hospital CopaStar.

Egresso da Universidade de Chicago, assim como o ministro da Economia, Paulo Guedes, nos últimos anos Langoni passou a atuar como consultor do ministro nas áreas de gás e de abertura comercial. Antes de contrair a doença, tinha o hábito de passar as tardes de sexta-feira no gabinete de Guedes no prédio histórico do Ministério da Fazenda, no Centro do Rio.

Langoni via a oportunidade de instalar a agenda liberal prometida pelo novo governo, em 2019.

“A crise é tão profunda, com a falência do Estado tanto do ponto de vista financeiro quanto gerencial, tendo a corrupção sistêmica como efeito colateral, que um choque liberal é a única alternativa para o Brasil sair da armadilha de relativa estagnação econômica e reencontrar o crescimento sustentado”, dissera ao jornal O Estado de S.Paulo, em janeiro de 2019.

O mais novo presidente do Banco Central

Aos 35 anos, Langoni assumiu a presidência do Banco Central do Brasil em janeiro de 1980 no governo do presidente João Figueiredo, o último da ditadura militar.

Era o mais novo a presidir a instituição — e continua sendo até hoje — de um país que tinha inflação de mais de 100% ao ano, com dívida externa e dependência dos empréstimos do Fundo Monetário Internacional (FMI) para fechar as contas com o resto do mundo, além do déficit público, mazela que permanece até hoje.

Quando chegou ao posto principal do Banco Central, já era diretor do instituição e trazia na bagagem o reconhecimento pelo trabalho inovador, concluído com pouco mais de 20 anos, de relacionar a baixa escolaridade da mão de obra ao aumento de desigualdade, principalmente em momentos de crescimento econômico.

Um dos Chicago boys

Seu estudo mostrava que a pouca instrução era entrave para a própria expansão econômica. Calculou os diferenciais de renda entre os níveis de formação em sua tese de doutorado sobre as causas de crescimento econômico, trabalhos que foram reunidos mais tarde no livro “Distribuição de Renda e Desenvolvimento Econômico do Brasil”, em 1973.

Langoni foi o primeiro brasileiro a obter doutorado em Economia na Universidade de Chicago, com bolsa da Fundação Ford, em 1970, onde as teorias monetaristas de Milton Friedman, um dos economistas mais influentes do mundo no Século XX, dominavam os debates.

Da escola de Chicago saíram os Chicago boys, economistas formados por lá que aportaram no Chile para implantar o modelo liberal, na vigência da ditadura de Augusto Pinochet. Langoni, também era chamado assim.

Referência em estudos sobre desigualdade

Os estudos de Langoni sobre desigualdade são até hoje considerados à frente de seu tempo. Ao Correio Braziliense, em maio de 2019, Marcelo Neri, diretor do Centro de Políticas Sociais da Fundação Getulio Vargas (FGV), classificou Langoni como um dos protagonistas do debate sobre distribuição de renda no Brasil:

“O trabalho de Langoni é uma fonte importante e até hoje é referência no meio acadêmico. Ele mostra que houve aumento da desigualdade em um momento em que a renda de todos melhorou. Até hoje, usamos essa metodologia para nossas análises”.

Marcos Lisboa, presidente do Insper e que foi secretário de Política Econômica do primeiro governo Lula, comenta, na mesma reportagem do Correio, a inovação trazida pelo então jovem economista:

"A obra de Langoni, em especial, é muito além do seu tempo. É impressionante o cuidado e a sofisticação técnica. Eu já descrevi para alguns especialistas de fora do Brasil o que Langoni fez há mais 45 anos no Brasil. Não acreditam”.

Em 2014, ao GLOBO, explicou o cerne da questão social nos anos do milagre econômico que fez o Brasil crescer como a China, a taxas acima de 10%. mas com piora da distribuição de renda:

“Como a economia acelerou seu crescimento, a demanda por mão de obra começou a disparar. Só que a oferta de mão de obra qualificada era pouco elástica, e a disparidade dos salários começou a aumentar. Havia enorme disparidade entre diferentes níveis de educação. Meu estudo deixou claro que a educação era fator preponderante para explicar a piora na distribuição de renda”.

Como acadêmico passou pela Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe), da USP, e pela Fundação Getulio Vargas (FGV). A ligação com a instituição começou cedo no Colégio Nova Friburgo, cidade onde nasceu em 1944. A escola era um projeto pioneiro da Fundação. Com bolsa, concluiu o ensino básico na escola.

Acordo após calote da dívida em 1982

Foi Edmar Bacha quem o convidou para lecionar na Escola de Pós-Graduação em Economia da FGV. Aos 29 anos, já era diretor, dando início no Brasil ao primeiro programa de doutorado em economia.

Em 1980, assume a presidência da instituição, para, dois anos depois, administrar o calote no pagamento dos juros da dívida externa, após a crise no México, em setembro de 1982. O que o levou a participar da negociação de um acordo com mais de cem banqueiros privados internacionais e com organismos multilaterais como o Fundo Monetário Internacional (FMI).

Quase faltou petróleo no Brasil por causa da crise da dívida, ele lembra. “O grande desafio colocado por Delfim (Antonio Delfim Netto, ex-ministro do Planejamento) e Galvêas (Ernane Galvêas, ex-ministro da Fazenda), a pedido de Figueiredo, era que não faltasse petróleo”, contou Langoni em entrevista ao GLOBO em 2012.

Os países não aceitavam mais cartas de crédito do Banco do Brasil. No fim de 1982, um navio carregado de óleo destinado à estatal brasileira ficou retido no porto saudita por falta de pagamento.

Langoni contou que teve de viajar ao país árabe, onde ficou por quatro dias, passando o chapéu entre salas de mármore cobertas por tapetes, enquanto o dinheiro aqui rareava. “O BC deu uma garantia meramente virtual, porque não tínhamos reservas. Nosso único compromisso era comprar o petróleo deles”.

Saída do BC

A saída do Banco Central também teve sua dramaticidade. Num dia cheio de desmentidos, Langoni deixou a instituição no dia 1º de setembro de 1983, pouco mais de três anos e meio após ter assumido.

O motivo: ser contra os termos da carta de intenções que o governo pretendia assinar com o FMI, na qual o Brasil se comprometia a zerar o déficit público, façanha que o país jamais conseguiu até hoje, e baixar a inflação pela metade, chegando a 55% ao ano. Achou impossível cumprir os termos e deixou o governo.

Voltou para a FGV, para criar o Centro de Economia Mundial. Era um dos analistas mais didáticos e com amplo e profundo conhecimento de economia internacional e política monetária.

Nos anos 1990, com a adoção do câmbio flutuante (o governo já não ditava a cotação do dólar), a âncora passou a ser a taxa de juros, a Selic, que aliás foi criada por ele quando era diretor do BC, antes de assumir a presidência da instituição.

O Sistema Especial de Liquidação e Custódia (Selic ) foi um dos primeiros sistemas no mundo a assegurar a liquidação virtual de transações com títulos públicos nos anos 1980.

Não na hora do jogo do Flamengo

A fixação da taxa, ainda nos primeiros anos dessa âncora de preços, não tinha hora para ser informada pelo BC. Langoni sempre atendia os jornalistas a qualquer hora para comentar a decisão, menos no horário do jogo do Flamengo. Esse era sagrado.

Rubro-negro fanático chegou a participar da direção do clube. Em 2013, foi vice-presidente de reestruturação da dívida do Flamengo e ajudou o presidente Eduardo Bandeira de Mello a renegociar a dívida fiscal do Flamengo.

Nascido em Friburgo, era um carioca por escolha. Trabalhava na Praia de Botafogo, de frente para o Pão de Açúcar, num escritório próximo ao prédio da Fundação. Tinha mesa cativa no restaurante D’Amici, de comida italiana, no Leme.

Langoni deixa a mulher, Cristiana Dutra, os filhos Patricia, Eduardo e Bernardo, quatro netos, e os dois enteados Pedro e Juliana.

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