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Morre aos 75 anos o monsenhor José Roberto Devellard, padre da Paróquia da Ressurreição, em Copacabana

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RIO — Apaixonado por animais e pela arte sacra, o Monsenhor José Roberto Devellard tinha um carisma ímpar. Em suas missas conseguia atrair tanto os fiéis mais velhos quanto as crianças, por quem tinha um carinho especial. Tanto na Paróquia da Ressurreição, em Copacabana, na Zona Sul do Rio, ou na Capela Nossa Senhora da Anunciação, na comunidade Pavão-Pavãozinho, Devellard era considerado como um pai por muitos. O padre morreu após sofrer um enfarte horas depois da missa que não conseguiu celebrar em comemoração a seu aniversário de ordenação.

— Nós entregamos a Deus a vida do Monsenhor José Roberto Devellard. Um homem culto, religioso, de fé e que trabalhou em nossa arquidiocese com coragem e ânimo em todos os aspectos. Era fiel à igreja e ao mesmo tempo amigo das pessoas e que soube, como ninguém cativar as pessoas. Com sua maneira própria de falar, levava a todo o Brasil o evangelho de domingo.Nós agradecemos a Deus sobre a vida de Devellard e pedimos que tendo o acolhido na eternidade ele reze por nós — disse o Cardeal Orani João Tempesta.

José Roberto dedicou 47 dos seus 75 anos de vida ao sacerdócio. Com a ajuda da comunidade paroquiana, ele ergueu a Capela da Anunciação, no Pavão Pavãozinho, onde, em todo Natal, era feita uma grande festas para 700 crianças da favela com distribuição de brinquedos. A deste ano já estava sendo planejada pelo padre, que também já começava a idealizar a festa de 50 anos da paróquia.

O Monsenhor também criou um uniforme em 2015 para as crianças da sua catequese após uma delas ser confundida com um menor infrator acusado de praticar arrastões em Ipanema. Por causa do ocorrido, ele começou a distribuir entre os jovens catequistas uma camiseta amarela com imagens de santos e o nome da Paróquia: "“Vão estar todos de amarelinho a caminho da igreja para não serem confundidos com bandidos”, disse ele na época.

— Se não fosse um diácono da igreja, que viu a cena, ele teria sido confundido com bandido porque estava sem documentos. Não defendo a ação dos ladrões, fiquei impressionado com as imagens que vi na TV. Mas não podem generalizar — comentou o padre.

O padre também tinha uma bonita voz e chegou a gravar três discos com o coral de crianças da Capela da Anunciação. Os CDs eram vendidos na própria paróquia, onde também há um pequeno espaço para alguns animais dos quais cuidava. Nos últimos anos, Devellard celebrava missa aos domingos de manhã, no santuário Nossa Senhora de Fátima, no Recreio, com transmissão pela TV Brasil.

Ordenado em 14 de setembro de 1973 pelo Cardeal Eugenio de Araujo Sales, a quem sempre foi próximo, José Roberto atuava há 34 anos na Paróquia da Ressurreição. Antes de passar três décadas de sua vida com a comunidade paroquial de Copacabana, ele liderou a construção da Paróquia de São Tiago Apóstolo, no Lins de Vasconcelos. Antes de sua nomeação como pároco por Dom Eugênio, a igreja ficava no galpão de uma fábrica de papelão, e com ajuda da comunidade construiu a paróquia, o centro comunitário e a casa paroquial.

— Ele era muito mais que um padre. Hoje eu perdi um pai também e todos vão ter essa lembrança dele. Ontem ele ainda chegou a ir ao altar e agradecer a todos pela presença e que tinha preparado com muito carinho a missa — conta paroquiano Carlos Eduardo Bittencourt, que conheçou Devellard em seu primeiro dia após assumir a paróquia.

Devellard estudou em Roma e se formou em missiologia, com tese de Arte Sacra, na Universidade Gregoriana, e um curso de teologia, com tese em catequese, na Universidade Laterana. Ele também foi professor do Departamento de Teologia da Pontifícia Universidade Católica do Rio (PUC-Rio) e de Arte Sacra e homilética, no Seminário São José, diretor do Museu de Arte Sacra e coordenador da Comissão de Arte Sacra da Arquidiocese do Rio.

“A PUC-Rio manifesta o pesar pela morte do nosso ex-professor do Departamento de Teologia da Universidade. Monsenhor José Roberto Devellard será sempre lembrado pelo seu amor ao magistério, as suas aulas criativas e inspiradoras e, sua profunda sensibilidade para com as pessoas e a natureza. Que ele descanse em paz no Reino do Céu”, lamentou Padre Josafá Carlos de Siqueira, reitor da PUC-Rio.

O padre José Roberto Devellard também celebrava anualmente a missa de aniversário do jornal O GLOBO. Neste ano, por causa da pandemia, o culto foi na Igreja São Francisco de Paula, no Centro, diante de bancos vazios, sem as presenças tradicionais. Funcionários e convidados puderam assistir à transmissão pelo canal do jornal no YouTube.

— Nós vivemos um momento único na história da humanidade. Em um determinado momento, o mundo se tornou uma espécie de profecia de décadas atrás, quando alguém da comunicação dizia que nós nos tornaríamos uma aldeia global. Nem usou a palavra cidade global, mas aldeia, um lugar pequeno. E foi pela doença, pela tristeza que aconteceu esta união na dor. Muitas famílias, inclusive, não podem acompanhar seus parentes a hospitais, ir a enterros e outras tantas situações. Mas, ao mesmo tempo, há esperança em um momento da história único — afirmou o padre, durante o culto.

O Arcebispo Metropolitano do Rio, Cardeal Orani João Tempesta, celebrará uma missa em memória do monsenhor José Roberto Devellard, que será transmitida da Paróquia da Ressurreição nesta terça-feira, às 18h10 e outra nesta quarta-feira às 10h pelos canais oficiais de comunicação da Arquidiocese do Rio.