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Montanha-russa do clima afeta agricultor gaúcho na pandemia

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RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS) - Ao longo da pandemia, a agricultura gaúcha viveu uma espécie de montanha-russa causada pelo clima.

Após amargar estiagem no início de 2020, o setor retomou a produtividade das lavouras no ano seguinte, mas voltou a enfrentar uma seca intensificada na largada de 2022. As fortes variações preocupam produtores locais, que lamentam as incertezas sobre as plantações nos últimos anos.

É o caso de Elton Widthauper, 55, morador do município de Miraguaí (445 km de Porto Alegre), no Noroeste do Rio Grande do Sul. No começo deste ano, ele perdeu pastagens e quase todo o milho plantado em três hectares de terra, o que dificultou a alimentação do gado leiteiro.

Widthauper costuma vender de 4.000 a 5.000 litros de leite por mês, mas o volume chegou a cair pela metade no primeiro semestre em razão da estiagem. O cultivo da cana-de-açúcar, base para a produção de melado, tampouco escapou dos impactos da falta de chuva, diz ele.

"A seca deste ano foi a maior de que me lembro. Foi terrível", afirma. "Agora que voltou a chover a gente começa a botar os negócios em dia." Na visão dele, os efeitos adversos do clima sobre o campo parecem ter ficado "mais fortes" nos últimos anos.

Percepção semelhante é relatada pela produtora rural Fernanda Luisa Sell, 31, do município de Derrubadas (480 km de Porto Alegre), também no Noroeste do estado. "Nos últimos anos, parece que a gente está sentindo mais [os efeitos do clima] do que antes."

Com a seca que atingiu a região Sul, Fernanda e o marido perderam em 2022 parte considerável das plantações de soja e milho em uma área de dez hectares.

O cultivo de hortaliças e a produção de leite também foram atingidos em cheio pela falta de chuva no verão, segundo ela. A estiagem que ganhou força no começo de 2022 foi a mais intensa que a agricultora diz já ter vivido.

"Recuperar o prejuízo é difícil. A produção de grãos é uma reserva para o ano todo. Com a frustração da safra no verão, a gente passa o restante dos meses com o orçamento mais apertado", relata.

A seca que castigou o estado entre o final de 2021 e o início de 2022 é associada por especialistas ao fenômeno La Niña. O evento climático é responsável por afetar a distribuição de chuvas, impactando a circulação de ventos e a umidade.

No país, o fenômeno costuma provocar estiagem no Sul. O La Niña é caracterizado pelo resfriamento das águas do oceano Pacífico.

O agrometeorologista Marco Antônio dos Santos, sócio-fundador da consultoria Rural Clima, evita atrelar eventos como esse a mudanças climáticas vividas pelo planeta. Porém, diz que fatos como o aquecimento global e o desmatamento são ameaças já existentes e que trazem um cenário de mais dificuldades para os próximos anos.

"O aquecimento global não interfere tanto em um fenômeno como o La Niña, mas pode fazer com que eventos como secas e estiagem sejam potencializados", afirma. "Falar que o desmatamento pode influenciar as chuvas é fato", acrescenta.

A professora de agrometeorologia Denise Cybis Fontana, da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul), faz avaliação semelhante. Para ela, as alterações climáticas apontam para uma mudança na variabilidade das oscilações periódicas no clima.

"A questão é que não estamos conseguindo lidar bem com a variabilidade atual do clima. O problema tende a crescer. A gente precisa prestar mais atenção nas condições do planeta", afirma.

O biólogo Francisco Milanez, ex-presidente e atual diretor da Agapan (Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural), diz que, embora fenômenos como o La Niña sejam parte do ciclo natural, as mudanças climáticas e o desmatamento no país já causam mais dificuldades.

"As pessoas falam muito da maior seca em determinado período, mas o grande problema é a frequência. Isso já está aumentando", diz.

Seca gera efeito que ultrapassa porteira Períodos de falta de chuva provocam reflexos diretos e indiretos na economia gaúcha, aponta o pesquisador Rodrigo Feix, do DEE (Departamento de Economia e Estatística), vinculado à Secretaria de Planejamento, Governança e Gestão do Estado do Rio Grande do Sul.

Além do prejuízo sentido nas lavouras, a renda menor dos agricultores cria um entrave adicional para as vendas do comércio e da indústria, sobretudo em cidades menores e mais dependentes do setor primário, diz Feix.

Ele aponta que a agropecuária representa de 9% a 10% do valor adicionado bruto à economia do Rio Grande do Sul. No Brasil, a fatia fica próxima de 5%. "Há um efeito sistêmico da estiagem na economia local, direto e indireto", indica.

Resultados do PIB (Produto Interno Bruto) gaúcho, calculados pelo DEE, ilustram essa relação.

No acumulado de 2020, a agropecuária caiu 29,5% no Rio Grande do Sul, com o efeito das perdas no primeiro semestre, período que concentra a colheita de culturas como milho e soja. O PIB gaúcho como um todo teve tombo de 6,8% em 2020, influenciado pela combinação entre estiagem e pandemia.

Em 2021, houve retomada nas lavouras, e a agropecuária saltou 67% no ano. O PIB, por sua vez, avançou 10,4%, conforme o DEE.

Já no primeiro trimestre de 2022, intervalo mais recente com dados disponíveis, o cenário retornou para o vermelho. Em meio aos impactos da nova seca, a agropecuária desabou 41,1% ante igual trimestre do ano passado, enquanto o PIB recuou 4,7%.

Houve queda na produção nas culturas de soja (-53,5%), milho (-31,1%), arroz (-10,6%), fumo (-15%) e uva (-23,4%). A expectativa é que os efeitos da estiagem também sejam sentidos no segundo trimestre.

"Sem dúvida, foi uma espécie de montanha-russa no período da pandemia", diz Feix.

"Em 2022, a seca ocorreu com os custos de produção mais elevados. O faturamento do agricultor caiu, e os custos subiram", acrescenta o pesquisador, em referência à alta nos preços de insumos como fertilizantes e combustíveis.

Segundo ele, os impactos da falta de chuva sobre a economia gaúcha em 2020 e 2022 podem ser comparados aos da seca verificada no estado em 2012. Naquele ano, a agropecuária acumulou queda de 32,4%, e o PIB encolheu 2,1%.

Ao longo da década, até houve outros episódios de escassez hídrica, mas com menor força, pontua Feix.

"A intensidade da estiagem deste ano foi maior na metade Oeste, no Noroeste do estado. Em alguns municípios, tivemos produtividade próxima a zero", aponta o engenheiro agrônomo Elder Dal Prá, assessor da diretoria técnica da Emater-RS.

Ele destaca que em torno de 80% da agricultura gaúcha é formada por estabelecimentos inseridos na chamada agricultura familiar —ou seja, propriedades de menor porte e com mão de obra composta essencialmente por parentes. "O impacto do clima foi severo", diz o técnico.

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