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Modo 3G de governar na Americanas envolve gasto mínimo e fome por aquisições

BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - Austeridade nos gastos faz parte da cultura de todas as empresas controladas pelo trio de bilionários brasileiros Jorge Paulo Lemann, Marcel Telles e Carlos Alberto Sicupira, que está à frente da companhia de private equity 3G Capital. A ponto de, na sede da Americanas, no Rio, uma das empresas que estiveram sob o controle do 3G, as salas de reunião exibirem avisos na porta como: "Ao sair, apague as luzes".

O trio não controla mais a Americanas desde 2021, quando foi feita uma reestruturação societária na companhia, e eles passaram de controladores, com 53,3% de participação, a acionistas de referência, com 29,2%. De acordo com as mais recentes informações da varejista, porém, o trio aumentou essa participação para 31,13% do capital hoje. O 3G continua como principal acionista da Americanas -que acaba de anunciar um escândalo contábil da ordem de R$ 20 bilhões no balanço.

Outros acionistas da varejista são gestoras de fundos de investimentos: Capital Group (9,91%), TIAA (6,05%) e BlackRock (5,05%). Os demais 47,86% estão pulverizados na B3.

O 3G Capital é um dos principais acionistas de conglomerados como AB Inbev, Kraft Heinz e Restaurant Brands International (dona do Burger King). Em todas elas, segundo executivos ouvidos pela reportagem, o controle feroz de gastos e a fome por aquisições é a norma.

Fundada em 1929 em Niterói (RJ), a Americanas passou ao controle do trio ainda em 1982, quando eles comandavam o banco Garantia. O antigo modelo de lojas de departamentos passou por transformações, a companhia enfrentou uma reestruturação no final dos anos 90, investiu no comércio eletrônico com uma empresa à parte, a Americanas.com, e acelerou o número de aquisições -só nos últimos 15 anos, somaram 28.

Austeridade nos gastos e fome de compras, no entanto, não estavam sendo suficientes para garantir bons resultados a uma das maiores redes varejistas do Brasil. Em 2021, a empresa combinou as operações da plataforma digital e física e promoveu uma simplificação da estrutura societária, dando origem à Americanas S.A -a nova empresa passou a reunir os ativos de Lojas Americanas e B2W, dona da Americanas.com, Shoptime e Submarino.

Tudo para garantir mais transparência a fim de atrair investidores estrangeiros, em um mundo corporativo que vem dando cada vez mais peso ao ESG (sigla em inglês para critérios ambientais, sociais e de governança na alocação de recursos). A empresa passou a ter uma única ação, listada no Novo Mercado da B3, o de mais alta governança.

Na época, o mercado reagiu bem aos anúncios. As ações da Americanas encerraram o pregão de 3 de novembro de 2021 em alta de 6,57%, cotadas a R$ 33,27.

Alguns analistas, no entanto, já apontavam que, embora fosse um bom começo, o fato de mudar o papel do todo poderoso 3G, de controlador para acionista de referência, não era o suficiente para atrair mais investimentos para a companhia. O mercado já reclamava de falta de transparência em alguns aspectos da governança da Americanas.

Agora, analistas e investidores assistem estarrecidos o escândalo que veio à tona nesta quarta-feira (11), de R$ 20 bilhões de "inconsistências" no balanço, relacionados ao pagamento de fornecedores.

Um escândalo desse porte não é exatamente novidade para o 3G: em 2019, a Kraft Heinz teve que fazer um grande ajuste em seu balanço, depois de ter supervalorizado os valores de seus ativos, como marcas e empresas do grupo, entre 2015 e 2018.

Segundo o ex-presidente da Americanas, Sergio Rial, que ficou apenas dez dias no cargo até anunciar o rombo contábil, seu foco a partir de agora estará na "restruturação da situação patrimonial da empresa, apoiando os acionistas de referência."

Nesta manhã, em apresentação a investidores sobre o que encontrou no balanço da Americanas, Rial afirmou que será preciso fazer uma capitalização na companhia e que os acionistas de referência estão dispostos a participar -mas que a operação precisará contar com todos os acionistas.

"A magnitude do problema é surreal. É muito pouco provável que ninguém soubesse de um erro contábil desse tipo anos a fio", afirma André Pimentel, sócio da consultoria Performa Partners. "O próprio Rial, na reunião com investidores, indicou que este assunto já deveria ser de conhecimento da gestão anterior", diz Pimentel, que trabalhou na reestruturação da Americanas no fim dos anos 90, quando estava na Galeazzi & Associados.

Até antes da chegada de Rial, por cerca de 20 anos, o presidente da Americanas foi Miguel Gutierrez, homem de confiança do trio do 3G.