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Ministro da Agricultura fala em 'pacificar o agro' e abrir portas para a produção sustentável

***ARQUIVO*** BRASÍLIA, DF, BRASIL, 29-12-2022: Entrevista com o senador e futuro ministro da agricultura, Carlos Favaro, na sua casa, em Brasília. (Foto: Eduardo Anizelli/ Folhapress)
***ARQUIVO*** BRASÍLIA, DF, BRASIL, 29-12-2022: Entrevista com o senador e futuro ministro da agricultura, Carlos Favaro, na sua casa, em Brasília. (Foto: Eduardo Anizelli/ Folhapress)

BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - O senador Carlos Fávaro (PSD-MT) tomou posse nesta segunda-feira (2) como ministro da Agricultura e Pecuária do governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT), com a missão de "pacificar o agronegócio", combater a fome e "abrir as portas" para o crescimento da produção sustentável.

"Imaginem quantos brasileiros não estão tendo uma boa tarde. Quantos brasileiros não puderam almoçar hoje. E esse é o grande desafio que nós temos que enfrentar neste governo. É o primeiro desafio. Para a agricultura, a produção de alimentos tem papel fundamental", disse.

"Muitos têm dito: 'como será o conflito do ministro Carlos Fávaro com a ministra Marina Silva [do Meio Ambiente]? Com Paulo Teixeira, ministro do Desenvolvimento Agrário?' E eu posso adiantar a vocês: todos se surpreenderão, porque estamos todos do mesmo lado. Queremos e vamos ter a produção agrícola mais sustentável do mundo."

A cerimônia de posse de Fávaro foi acompanhada pelo ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Gilmar Mendes, pelo novo ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira (PSD-MG), e pelos senadores Jayme Campos (União-MT) e Wellington Fagundes (PL-MT) —do mesmo partido do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).

Fávaro assume o ministério que foi ocupado pelo amigo e colega de partido Marcos Montes (PSD-MG), que foi número dois da ex-ministra Tereza Cristina (PP-MS). Apesar da proximidade, Marcos Montes não participou da cerimônia nesta segunda-feira, assim como todos os ministros de Bolsonaro até aqui.

O ex-ministro foi representado pelo ex-secretário-executivo da pasta, Márcio Eli Almeida. Em um gesto simbólico de transmissão do cargo, Eli colocou no terno de Fávaro o pin do Ministério da Agricultura e Pecuária. Ele pediu união do setor e afirmou que Fávaro "é a pessoa certa, no lugar certo".

"Cada tempo tem o seu desafio e não cabe aqui falar dos desafios da gestão que se encerrou. Cabe aqui falar que é o tempo de todos somarmos esforços pelos propósitos do ministro Carlos Fávaro, para o sucesso da sua gestão. O seu sucesso é o sucesso da agropecuária brasileira", disse Eli Almeida.

"O agro brasileiro tem desafios gigantescos. Temos que olhar para frente. O agro tem que estar unido em torno do ministro Carlos Fávaro, da sua gestão. Por tudo o que ouvimos, é a pessoa certa, no lugar certo, no momento certo, para conduzir os destinos do agro brasileiro."

Em meio à radicalização de parte do setor —que inclusive está sendo investigada pelo financiamento de atos antidemocráticos e bloqueio de estradas—, o novo ministro disse que uma de suas maiores missões será "pacificar o agronegócio".

"A eleição acabou, e nós temos um novo presidente. Eu convoco a Frente Parlamentar da Agropecuária, o Ipa (Instituto Pensar Agro) para que tragam lideranças não para apoiar o governo, mas que estejam alinhadas, que queiram construir pontes", disse.

"Uma das minhas maiores missões é pacificar isso. Pacificar o agronegócio com lideranças que queiram o bem da nossa agropecuária, que queiram o bem do nosso produtor rural. Que queiram combater a fome."

Sem citar Bolsonaro, Gilmar Mendes também destacou as ameaças à democracia e disse que o lugar daqueles que perdem é na oposição. "A eleição se encerra. Cabe a quem ganhou governar. Portanto, [quem perdeu deve] lamber as feridas, eventualmente chorar e se preparar para as próximas eleições."

O ministro do STF disse ainda que os desafios do país são "enormes" e pediu empenho ao desenvolvimento social, como o combate à fome. Gilmar Mendes lembrou das pessoas que estão em filas atrás de ossos e disse que, em um país "com tantos bois", "isso é extremamente constrangedor".

Em entrevista à Folha de S.Paulo após o resultado das eleições, Marcos Montes afirmou que o ministério sob o governo de Lula tinha "tudo para dar certo" se recebesse a mesma atenção dada por Bolsonaro, e que aplaudia os nomes que estavam colocados —entre eles o de Fávaro.

O ex-ministro da Agricultura de Dilma Rousseff (PT), Neri Geller (PP-MT), outro aliado de Lula junto ao setor agropecuário durante as eleições, pode assumir a Secretaria Executiva do ministério —o segundo cargo mais alto da pasta— ou a Secretaria de Política Agrícola. O advogado Irajá Lacerda (PSD-MT) também está cotado para a Secretaria Executiva.

O nome de Geller é apontado ainda para a Conab (Companhia Nacional de Abastecimento), que ficará ligada ao Ministério do Desenvolvimento Agrário. Já o ex-presidente da Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária) Silvio Crestana pode voltar ao comando da instituição.

"Com certeza, vossa excelência vai ficar na história por assumir em um momento de muita dificuldade, onde, acima de qualquer coisa, precisa ter capacidade de diálogo e compreensão de chamar o setor para dentro e falar 'Olha, já fizemos no passado'", afirmou Geller nesta segunda.

Com a recriação dos ministérios do Desenvolvimento Agrário e da Pesca, o senador assume o Ministério da Agricultura e Pecuária com estrutura bem menor que a anterior.

Fávaro se aliou a Lula no início da campanha e foi um dos principais interlocutores do petista junto ao setor. Mesmo tendo sido apresentado como cota do PSD, de Gilberto Kassab, para a sigla aderir à base do futuro governo, Lula já tinha escolhido o senador pessoalmente.

No dia em que foi anunciado pelo presidente para o comando do ministério, Fávaro afirmou à Folha de S.Paulo que o saldo dos últimos quatro anos para o setor tinha sido negativo, apesar do apoio majoritário de ruralistas à reeleição de Bolsonaro.

Com mandato até 2027, Fávaro precisou convencer seus dois suplentes no Senado a integrarem a base de Lula para assumir o ministério. Margareth Busetti (PSD-MT) e José Esteves de Lacerda Filho (PSD-MT) trocaram o PP pelo PSD e vão se revezar no cargo.

"A eleição acabou e ela tem direito de ter escolhido o candidato dela, mas, agora, eu peguei uma missão para ajudar a agropecuária brasileira. Não é justo politicamente que minha suplente vá lá e vote contra. Ela pode ter as ideologias dela, mas tem que votar com o governo. E vai votar com o governo", disse o ministro na entrevista publicada na semana passada.

Na cerimônia de posse desta segunda, também estavam o presidente da Assembleia Legislativa de Mato Grosso, deputado estadual Eduardo Botelho (DEM-MT), o prefeito de Cuiabá, Emanuel Pinheiro (MDB-MT), e o futuro procurador-geral de Justiça de Mato Grosso, Deosdete Cruz Júnior.