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Millennial e LGBTQ, Leite luta para ser opção a Lula e Bolsonaro

·7 minuto de leitura

(Bloomberg) -- O postulante à Presidência da República que tem hoje a simpatia dos investidores para quebrar a polarização eleitoral diante de cenário de confronto entre Jair Bolsonaro e Luiz Inácio Lula da Silva é um governador de 36 anos de um dos estados mais conservadores do país, que recentemente se declarou publicamente LGBTQ.

Eduardo Leite surfou a onda de direita que elegeu presidente Jair Bolsonaro em 2018, conquistando o mercado financeiro com um programa de austeridade fiscal, de reformas estruturais e de privatizações no Rio Grande do Sul. Seu desafio agora é tentar ganhar o apoio da população fora do Sul do país, a começar pelos brasileiros que rejeitam tanto a ideia de reeleger Bolsonaro, como a de voltar à era petista com Lula.

Leite caminha em uma linha tênue: critica Bolsonaro, apesar de ter votado nele; e diz que embora defenda a tolerância e igualdade de gênero não é e não será um ativista pelos direitos LGBTQ, desde que assumiu publicamente sua orientação sexual.

“Na eleição do ano que vem a gente precisa viabilizar um caminho livre da disputa entre Lula e Bolsonaro”, disse ele em uma noite fria de agosto, durante entrevista na ala residencial do Palácio Piratini, sede do governo gaúcho, onde mora com seu dois cachorros. “Lula não vai cicatrizar as feridas deixadas por Bolsonaro, porque está na origem delas; enquanto eu consegui construir convergências e mudanças profundas num ambiente político muito polarizado que é o Rio Grande do Sul.”

A perspectiva de uma mudança drástica no Brasil em 2022 é grande. A popularidade de Bolsonaro nunca foi tão baixa, enquanto Lula sobe constantemente nas pesquisas, com percentuais muito acima do atual presidente. No entanto, 42% dos eleitores dizem que ainda não decidiram seu voto, segundo sondagem do Datafolha publicada em julho.

“Acho Leite um nome muito plausível e um dos mais viáveis na terceira via”, diz Deysi Cioccari, doutora em ciências sociais pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. “Ele é elegante nas respostas políticas, é ponderado e sereno, e isso é de certa forma o que o Brasil precisa para se ver com alguma normalidade.”

O primeiro obstáculo de Leite é passar pelas prévias do PSDB, em novembro, contra o governador de São Paulo, João Doria. Doria tem sido um dos mais fortes críticos à resposta errática de Bolsonaro à pandemia do coronavírus e está na vanguarda do isolamento social e dos esforços de vacinação. No entanto, tucanos avaliam internamente que é um desafio vender a imagem de mauricinho de Doria nas regiões mais pobres do Brasil.

Os investidores parecem gostar de Leite: ele foi apontado como o pré-candidato com mais chance de derrotar Lula e Bolsonaro por 45% dos entrevistados em uma pesquisa realizada em agosto pela XP com 75 investidores do mercado financeiro. O que é mais difícil de medir é se os brasileiros estão prontos para um presidente LGTBQ.

Saindo do armário

“Acho que o Brasil deve estar preparado para isso”, afirmou Leite, citando uma pesquisa em que 75,9% dos entrevistados disseram que a sexualidade de um candidato não interfere em seu voto. Desde o início de sua carreira política aos 24 anos, Leite diz que sabia que, em algum momento, teria que falar publicamente sobre sua orientação sexual. Ele garante não ter feito sondagens ou pesquisas de opinião antes do anúncio, mas afirma que sua estratégia era adiantar-se à criação de narrativas pelos adversários. “As prévias do PSDB de certa forma anteciparam o tema, porque, ao darmos início ao processo eleitoral interno, entendi que era importante tratar disso antes de ser acusado de fazer um cálculo eleitoral”, afirmou.

Sair do armário significou também pedir ao seu parceiro, um médico, que o assumisse também para a sua família. Ele diz que sentiu que era importante ser aberto sobre o assunto para que as pessoas saibam quem estão apoiando na integralidade, sem surpreendê-las com nada ao longo do processo eleitoral. “Você pode gostar ou não gostar, mas seguramente você vai saber quem eu sou na integralidade.”

Bolsonaro foi eleito com base em uma plataforma socialmente conservadora e se manifesta constantemente contra a pauta e a comunidade LGBTQ, já tendo declarado que “seria incapaz de amar um filho homossexual.”

Leite reconhece o papel de Bolsonaro na normalização e amplificação da homofobia no país. “No Brasil de hoje, infelizmente, [homossexualidade] é um assunto, especialmente pela forma com que Bolsonaro trata o tema. Não tenho dúvida que tentariam dizer que eu tenho algo a esconder”, disse.

“O Brasil é um país conservador, mas vem passando por alguma abertura. Elegeu uma presidente mulher, São Paulo elegeu uma deputada transexual, mas não sei se vai dar essa guinada nacionalmente”, avalia Cioccari, da PUC de São Paulo.

Na comunidade LGTBQ, alguns sugerem que Leite está recebendo agora uma espécie de retribuição cármica pela forma como votou na última eleição. “Assim como outros conservadores LGBTQ que embarcaram no bolsonarismo como estratégia eleitoral em 2018, ele agora é vítima de ataques homofóbicos do presidente que apoiou”, pontua o grupo brasileiro #VoteLGBT por e-mail.

Outros são mais favoráveis à decisão do governador gaúcho. “É um gesto de coragem, sem dúvida nenhuma”, diz Toni Reis, diretor-presidente da Aliança Nacional LGBTI+. “Independente das questões ideológicas e de todos os ataques que ele vier a sofrer, nós estaremos na mesma trincheira para defendê-lo.”

Embora Leite diga que “a direção correta para o país é em direção ao respeito, tolerância e a busca pela igualdade”, ele não agitará a bandeira arco-íris tão cedo. “Eu não deixei de trabalhar por essas causas, de respeitar, me envolver e dar meu apoio. Mas não é a causa que eu me debrucei. Nem toda mulher é uma ativista feminista, nem todo negro é um ativista da causa racial e nem todo gay precisa ser um ativista que imponha essa bandeira como a sua causa”, diz Leite.

Bolsonarista arrependido

Mais de meio milhão de brasileiros morreram em decorrência da Covid-19, cujos familiares enlutados certamente se lembrarão disso quando chegar o dia das eleições. Muitos brasileiros consideram Bolsonaro diretamente responsável pelas mortes. O presidente incentivou tratamento equivocado e ineficaz com a hidrocloroquina e ignorou dezenas de ofertas para compra de vacinas, mesmo vendo o Brasil se transformar em um ponto de disseminação global da doença. A CPI da Covid no Senado encontrou evidências de um esquema de propina na compra de vacinas e insumos. Em meio a isso, o presidente viu seu índice de aprovação despencar, enquanto centenas de grupos se organizaram nas redes sociais como “eleitores de Bolsonaro arrependidos”.

Leite é um deles. “Sou uma das pessoas que votaram no Bolsonaro sem estar de acordo com as barbaridades que ele fala”, diz, acrescentando que lamenta a decisão porque esperava “que no governo ele seria diferente.”

Ao contrário de Lula e Bolsonaro, Leite não é muito conhecido Brasil afora. Ele conquistou o governo gaúcho por pequena margem de votos e não é dos tucanos mais famosos, apesar de ter dentro do partido reconhecimento e apoio da base, o que pode lhe favorecer nas prévias.

Por outro lado, Leite tem um portfólio a seu favor. O Rio Grande do Sul é o quarto maior PIB do país, mas estava à beira da falência, com salários dos servidores e pagamento de fornecedores em atraso. O tucano conseguiu aprovar duas reformas, a previdenciária e a administrativa, e privatizou estatais deficitárias que sobrecarregavam as finanças do estado. Sua campanha de vacinação tem se mostrado uma das mais eficientes do Brasil e para algumas faixas etárias chegou a ser mais rápida do que a de seu rival Doria em São Paulo. A boa aparência de Leite certamente não atrapalha.

Ele não é apenas um dos poucos governadores brasileiros da geração millennial, mas o primeiro político abertamente LGBTQ a tentar se candidatar à presidência do país. “Posso cometer novos erros”, diz ele, “mas não cometerei os mesmos erros ou erros do passado”.

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