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Cerca de dez mil migrantes, muitos do Haiti, acampam sob ponte na fronteira sul dos EUA

·3 minuto de leitura
Migrantes haitianos e centro-americanos em Tapachula, Chiapas, México (AFP/CLAUDIO CRUZ)

Mais de 10.000 migrantes, muitos do Haiti, acampavam nesta sexta-feira (17) debaixo de uma ponte na fronteira sul dos Estados Unidos, uma crise humanitária que põe em apuros o governo de Joe Biden.

Estes migrantes chegaram à pequena cidade de Del Río, Texas, cruzando o Río Grande, entre o México e os Estados Unidos. Os 2.000 no início da semana se tornaram 10.500 na noite de quinta-feira, disse Bruno Lozano, prefeito desta cidade fronteiriça com a mexicana Ciudad Acuña.

"São principalmente do Haiti e entram ilegalmente (...) Só estão esperando serem detidos pelos guardas fronteiriços" para iniciarem os trâmites de autorização de estadia, explicou em um vídeo publicado no Twitter.

"Precisamos de uma ação rápida do governo", pediu o prefeito democrata, destacando os riscos para a saúde e a segurança que representa este acampamento improvisado.

Sobrecarregado, o Escritório de Alfândega e Proteção das Fronteiras dos Estados Unidos (CBP em inglês) afirmou em nota que aumentou sua equipe para enfrentar a situação de forma "segura, humana e ordenada".

A área sombreada debaixo da ponte serve como local de parada temporária "para prevenir doenças relacionadas ao calor", explicou, afirmando que distribuiu água potável, toalhas e banheiros portáteis.

Assim que são atendidos, "a grande maioria dos adultos que chegam sozinhos e muitas famílias vão continuar sendo expulsos sob o Título 42", uma norma de saúde adotada no início da pandemia para frear a propagação do vírus, segundo a nota.

"Quem não puder ser expulso sob o Título 42 e não tiver uma base legal para permanecer será colocado em processo de deportação acelerado", afirmou o CBP.

No entanto, um juiz federal ordenou na quinta-feira ao governo de Biden que não expulse as famílias neste contexto, o que poderia complicar a tarefa das autoridades, que enfrentam há meses os fluxos migratórios recordes na fronteira com o México.

Mais de 208.000 migrantes foram detidos lá em agosto, segundo os últimos dados oficiais. Isso eleva o número de migrantes detidos na fronteira desde que Biden chegou à Casa Branca a mais de 1,3 milhão, um nível que não era visto em 20 anos.

Destes, cerca de 596 mil vinham de El Salvador, Guatemala e Honduras, e mais de 464 mil do México.

- "Desastre" -

A oposição republicana acusa há meses Biden de ter provocado uma "crise migratória" ao flexibilizar as medidas de seu antecessor Donald Trump, que fez do combate à imigração ilegal um dos pilares de seu governo.

A situação em Del Rio, Texas, lhe deu novos argumentos. Após visitar a região, o senador republicano Ted Cruz denunciou "um desastre" causado por Biden.

Segundo Cruz, os migrantes acabam debaixo da ponte "porque o presidente Joe Biden tomou a decisão política de cancelar os voos de deportação para o Haiti", após o assassinato, em julho, do presidente haitiano Jovenel Moïse, que acentuou o caos na ilha caribenha.

O número de cidadãos do Haiti, país mais pobre das Américas, que chegam sem documentos aos Estados Unidos, aumenta há vários meses.

Quase 6.800 haitianos foram detidos em agosto na fronteira sul ou apenas 4% do total de migrantes detidos, porém mais do que em julho (5.000) ou maio (2.700).

Muitos haitianos deixaram seu país depois do terremoto de 2010 (que matou mais de 200.000 pessoas) e se estabeleceram na América Latina, especialmente em Brasil e Chile. Mas encontrar trabalho e renovar uma permissão de residência se tornou complicado para milhares que decidiram ir para o norte.

"Quero continuar minha viagem porque tenho uma irmã em Miami e outra na Holanda", disse Domingue Paul, um haitiano de 40 anos que morou cinco anos no Chile, em declarações à AFP em Tapachula, sul do México.

Sensíveis a suas dificuldades, várias vozes democratas se ergueram para pedir ao governo Biden que resolva rapidamente a situação em Del Rio.

"Estes migrantes haitianos já sofreram muito durante a perigosa viagem à nossa fronteira", tuitou a congressista Ilhan Omar, figura de destaque da ala à esquerda do partido.

"A falta de urgência para ir em sua ajuda é alarmante", denunciou a legisladora, que chegou aos Estados Unidos em 1995 como refugiada somaliana.

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