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Mercado volta a prever PIB abaixo de 2% neste ano

ISABELA BOLZANI

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O mercado voltou a prever que o PIB (Produto Interno Bruto) crescerá menos de 2% em 2020. A estimativa dos especialistas é de uma alta entre 1,7% e 1,9% neste ano, mas alguns economistas já apontaram 1,5% de alta.

A nova rodada de revisões vem após o crescimento fraco da atividade econômica em 2019 e da maior incerteza que ronda os possíveis efeitos do coronavírus na economia global.

Segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) divulgou nesta quarta-feira (4), o PIB cresceu 1,1% em 2019, no terceiro ano seguido de um fraco crescimento da economia brasileira. Mesmo antes da divulgação, bancos estrangeiros vinham cortando suas projeções para o PIB. 

Em 2017 e 2018, a primeira divulgação do indicador também havia mostrado expansão de 1,1%. Posteriormente, os dados foram revisados para 1,3%. Em 2015 e 2016, houve queda na atividade econômica.

Segundo o economista do Santander Lucas Nobrega, o menor estímulo em setores mais sensíveis à renda soma-se aos impactos da epidemia do coronavírus, declarada como uma emergência da saúde pública de importância internacional em 30 de janeiro de 2020 e que já conta com quase 100 mil casos confirmados ao redor do mundo.

"Entre os impactos do coronavírus, já temos notícias de falta de matéria-prima e de um volume menor de comércio com a China. São dados que podem fazer com que o primeiro trimestre deste ano seja frustrante", afirma.

Para Nobrega, um dos fatores que podem ajudar positivamente o Brasil nos três primeiros meses deste ano é o agronegócio, que representa 35% do PIB e cujas projeções são de safras recordes de grãos.

"A agropecuária deve ter um desempenho muito bom e deve puxar parte da economia desse primeiro trimestre. O Brasil segue em sua trajetória cíclica e seguramente em 2020 crescerá mais do que o observado em 2019, a menos que o coronavírus venha em uma magnitude ainda maior do que temos em nosso cenário base", diz o economista do Santander.

O banco, porém, deve revisar sua projeção de crescimento para a atividade econômica em 2019, de 2% para 1,7% em 2020. Especificamente nos três primeiros meses do ano, a previsão é de uma alta de 0,2% no PIB.

De acordo com a diretora da área de macroeconomia e análise setorial da Tendências Consultoria, Alessandra Ribeiro, a maior frustração veio dos números fracos dos investimentos no quarto trimestre (a chamada Formação Bruta de Capital Fixo), que caiu 3,3% na comparação trimestral.

Segundo Ribeiro, o componente, que é formado principalmente por construção civil e máquinas e equipamentos, sentiu os impactos de uma demanda externa mais fraca (tanto no ambiente doméstico quanto no cenário internacional) e de um nível de incerteza ainda alto com aprovação das reformas e recuperação do emprego e do consumo no país. No quatro trimestre, o coronavírus ainda não era uma doença conhecida.

"Os resultados do primeiro trimestre já vinham sendo frustrados desde antes da divulgação do PIB [nesta quarta]. O que pesa [na nossa análise] é a suspeita de que existem outros fatores que podem contribuir negativamente, como a dinâmica do mercado de trabalho, os rendimentos fracos e a volta do crescimento da classe D. São fatores que precisam de atenção", afirma.

A Tendências Consultoria também deve revisar suas projeções de crescimento para o PIB de 2020, dos 2,1% anteriores para algo em torno de 1,7%.

Já para Rodolfo Cabral, economista da 4E Consultoria -que também deve revisar suas projeções de crescimento do PIB para algo abaixo de 2%-, pesam mais as incertezas quanto ao ambiente internacional do que os próprios dados da atividade econômica em 2019.

"O viés de baixa na projeção para 2020 já começava a acontecer desde antes, com o desenrolar do coronavírus, principalmente porque os dados vieram apenas um pouco abaixo do esperado. A surpresa negativa foram os investimentos, e o fato, agora, é que o cenário internacional pode trazer ainda mais dificuldades para o setor", afirma Cabral.

Um exemplo disso é que o dólar chegou a renovar máximas históricas na sessão desta quarta-feira e alcançou R$ 4,5390.

Para Álvaro Bandeira, economista-chefe da Modalmais, os efeitos negativos do coronavírus ainda devem ser sentidos no Brasil até junho.

"Mas para que o segundo semestre seja de recuperação é fundamental que o governo consiga aprovar as reformas necessárias. A agenda de privatizações parece boa, mas para que ela se concretize precisamos de uma dinâmica melhor com o Congresso", diz.