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Mercado ignora 7 de Setembro e prioriza inflação e juros

*ARQUIVO* SÃO PAULO, SP, BRASIL - 09-05-2015: Gráfico das recentes flutuações dos índices de mercado no pregão da BM & F Bovespa Bolsa de Valores de Sao Paulo apos o anuncio da anulacao do impeachment. -  (Foto: Diego Padgurschi /Folhapress)
*ARQUIVO* SÃO PAULO, SP, BRASIL - 09-05-2015: Gráfico das recentes flutuações dos índices de mercado no pregão da BM & F Bovespa Bolsa de Valores de Sao Paulo apos o anuncio da anulacao do impeachment. - (Foto: Diego Padgurschi /Folhapress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Bolsa subindo, dólar caindo e o euro oscilando após o Banco Central Europeu ter anunciado uma forte alta nos juros nesta quinta-feira (8). O cenário no mercado financeiro na manhã deste pós-feriado de 7 de Setembro era bem diferente em relação ao ano anterior, quando atos promovidos pelo presidente Jair Bolsonaro (PL) e seus apoiadores derrubaram ações e a moeda brasileira.

Empresários relataram à Folha de S.Paulo que não ficaram surpresos com as manifestações bolsonaristas, que foram semelhantes às de 2021. Os indicadores pareciam confirmar isso nesta manhã.

Às 11h03, o dólar comercial caía 0,55%, cotado a R$ 5,21 na venda. Na Bolsa de Valores, o índice Ibovespa ganhava 0,49%, avançando aos 110.303 pontos.

O mercado doméstico também realizava ajustes em relação ao pregão de terça-feira (6), quando o dólar subiu 1,72% e o Ibovespa recuou 2,17% na esteira de sinalizações do BC (Banco Central) de que a taxa de juros pode permanecer em patamar mais elevado por um período acima do previsto pelos investidores.

Apesar da abertura no azul no Brasil, o dia é de volatilidade no exterior. Investidores reagem à elevação sem precedentes de 0,75 ponto percentual nos juros do BCE (Banco Central Europeu). A medida é uma resposta da autoridade monetária europeia à escalada da inflação.

Assim como ocorre em outras partes do mundo, o BCE tira dinheiro de circulação ao tornar o crédito mais caro e, com isso, espera diminuir demanda e preços.

Nos mercados de ações, o efeito dessa decisão é a redução de liquidez. Investidores ficam com menos recursos para aplicar em ativos arriscados, como ações de empresas. As Bolsas de Valores caem.

A Bolsa de Frankfurt caía 1,17%, enquanto a de Paris cedia 0,57%. Londres perdia 0,36%. O índice que acompanha 50 das principais empresas da Europa recuava 0,64%.

Quando os juros de referência dos países sobem, os seus títulos soberanos tendem a ganhar valor. Investidores procuram lucrar no Tesouro, aplicação considerada segura. Mas isso não é necessariamente uma regra.

Juros altos também podem sinalizar que a inflação está colocando uma economia em risco. No caso da Europa, o mercado precisa avaliar o efeito da política monetária em um cenário de ameaça de crise energética provocada pela Guerra da Ucrânia.

"Os preços da energia estão, em última análise, ao sabor do vento soprado pelo governo do presidente russo Vladimir Putin. Em um pior cenário, com um corte total de gás russo e racionamento obrigatório na União Europeia, a Alemanha entraria em recessão e o crescimento da zona do euro enfraqueceria em 1,4 ponto porcentual", disse Simone Pasianotto, economista-chefe da Reag Investimentos.

Enquanto a decisão do BCE era digerida, a moeda comum europeia apresentava volatilidade. Após uma abertura em alta, o euro voltava a recuar contra o dólar e mantinha patamar inferior ao da moeda americana. No Brasil, o euro comercial cedia 0,05%, cotado a R$ 5,1850.

Piorando ainda mais o humor de investidores internacionais, o presidente do Fed (Federal Reserve, o banco central americano), Jerome Powell, disse que os Estados Unidos devem continuar a agir energicamente para reduzir a demanda e conter a pressão sobre os preços para evitar um pico de inflação como o observado nas décadas de 1970 e 1980.

O índice de referência da Bolsa de Nova York, o S&P 500, subia 0,20%, em uma sessão bastante volátil.

No mercado internacional de petróleo, o preço do barril do Brent subia 1,47%, cotado a US$ 89,29. O valor da matéria-prima se recuperava após um tombo de 5,20% na véspera.

Dados da balança comercial da China vieram significativamente abaixo das previsões, com o impacto negativo do aumento da inflação para a demanda no exterior, ao mesmo tempo em que o país voltou a conviver com novas restrições por causa da Covid-19 e com ondas de calor que interromperam a produção.

As importações de petróleo pela China caíram 9,4% em agosto em relação ao ano anterior, com a extensão das restrições de mobilidade por causa da pandemia reduzindo a demanda por combustível. O gigante asiático é o maior consumidor global de petróleo.

Investidores veem manifestações de 7 de setembro dentro das expectativas Na contramão dos preços do petróleo na quarta, os ADRs (American Depositary Receipts) da Petrobras, que chegaram a cair mais de 2% no início da sessão passada, inverteram de tendência e fecharam leve alta de 0,2%.

Os ADRs são recibos de ações negociados nas Bolsas americanas vinculados aos papéis das empresas cotados na B3, que ficam sujeitos ao humor dos investidores em relação aos ativos em dia de feriado no Brasil.

Já o índice de mercado EWZ, que acompanha as ações brasileiras e é cotado no exterior com base na carteira teórica do MSCI Brasil registrou alta de 0,9%.

A percepção de agentes do mercado ouvidos pela Folha foi a de que as declarações do presidente Jair Bolsonaro (PL) e as manifestações não trouxeram um fato novo com peso suficiente para causar algum impacto mais negativo para os preços dos ativos no mercado brasileiro.

"Me parece que foi ok, sem nenhum rompante de nenhum lado, sem nada muito sério. Acho que a novidade é que não teve nenhum problema, já que muita gente tinha a expectativa de que aconteceria algum problema neste 7 de Setembro, e acabou não acontecendo, pelo menos até agora", diz Luiz Fernando Figueiredo, CEO da gestora Mauá Capital.

"Do ponto de vista do mercado, todas as vezes que as coisas ruins não acontecem, acaba sendo bom, então acho que é um motivo para o mercado ficar um pouco mais tranquilo na abertura de amanhã [quinta, 8]", acrescenta o ex-diretor do BC.

Sócio da gestora Adam Capital, André Salgado afirma que o mercado está tratando as eleições de maneira equilibrada, ponderando aspectos positivos e negativos de cada um dos dois principais candidatos, que "na, soma; são equivalentes".

"Acho que as manifestações podem diminuir a diferença em favor de Bolsonaro, mas ainda com margem maior para Lula, pelo menos por enquanto", afirma Salgado.

"Pelo que estou acompanhando, não teve nada de diferente. Mais do mesmo. O mercado já chegou a discutir como risco algum tipo de ruptura institucional. Mas a percepção é que essa probabilidade tem diminuído", endossa Rafael Ihara, sócio e economista-chefe da Meraki Capital.

Leandro Saliba, sócio da gestora mineira AF Invest, interpreta as manifestações de maneira mais positiva. Ele diz que o tamanho das manifestações deve ser bem recebido pelo mercado, pela perspectiva de uma condução econômica de caráter mais liberal em um cenário de reeleição.

"Em Belo Horizonte, o desfile e a Praça da Liberdade estavam completamente lotados pelas famílias de verde e amarelo. Acredito que a repercussão será positiva para o mercado", diz Saliba.

Economista-chefe da corretora Necton, André Perfeito também não vê nas manifestações observadas até agora algo que possa alterar de maneira relevante o sentimento dos investidores em relação ao desempenho do mercado.

"Acho que não teremos nenhum grande ruído, nem para cima nem para baixo, a não ser que a gente tenha algo muito exótico, no sentido de o Bolsonaro sugerir algum tipo de ruptura democrática", afirma Perfeito.

"Se o presidente esticar demais a corda, podemos ter um evento político novo, mas não acho que isso vai acontecer", diz o economista.

Ele acrescenta que os movimentos do mercado local devem seguir sob maior influência dos fatores macroeconômicos globais.

A própria alta das ações brasileiras no exterior vem na esteira da valorização das principais Bolsas americanas nesta quarta --o S&P 500 avançou 1,83%, o Dow Jones teve ganhos de 1,1,40%, e o Nasdaq subiu 2,14%.

A perspectiva de desaceleração da economia global contribui para uma menor necessidade de aumento dos juros, com um horizonte que passa a se desenhar mais favorável para as ações de empresas negociadas nas Bolsas, diz o economista da Necton.

Relatório publicado nesta quarta pelo Federal Reserve (banco central dos EUA) conhecido como Livro Bege reforçou esse cenário, ao mostrar que as empresas relataram algum alívio na escassez de mão de obra e nas pressões sobre os preços.

"As condições gerais do mercado de trabalho permaneceram apertadas, embora quase todos os distritos tenham destacado alguma melhora na disponibilidade de mão de obra", disse o Fed no relatório em que analisa as condições macroeconômicas americanas.