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Altas cifras e muitas rodadas: investidores querem startups do Brasil

Foto: Getty Images

Por Matheus Mans

Durante o mês de outubro, o mercado empreendedor brasileiro presenciou um aquecimento nos investimentos. Foram feitos 32 aportes em startups durante o período, movimentando cerca de US$ 180 milhões no país — só o fundo japonês SoftBank investiu US$ 115 milhões em startups como Olist e Buser. É um movimento que indica a força do empreendedorismo no Brasil, cria novas dinâmicas e indica quais são as perspectivas desse setor no país.

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Hoje, as possibilidades são imensas. O país já conta com nove startups com valor acima do US$ 1 bilhão — ou seja, os chamados unicórnios. Todas elas reveladas entre 2018 e 2019, quando os investimentos ganharam mais força e potência no mercado. Além disso, o Brasil já atingiu a marca de 363 incubadoras e 57 aceleradoras focadas em startups, segundo recente Mapeamento dos Mecanismos de Geração de Empreendimentos Inovadores.

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“Sempre tivemos boas ideias e bons empreendedores, mas faltava uma presença mais ampla do investidor. Isso mudou do ano passado pra cá”, contextualiza o analista de venture capital, Ricardo Foren.

Movimentações de mercado

Para especialistas, o principal motivo do fortalecimento dos investimentos em startups tem uma origem: a queda do juros. Com a renda fixa deixando de ser tão atrativa, investidores passaram a olhar para as startups com mais atenção. Assim, colocar dinheiro em empreendimentos e boas ideias deixou de ser algo arriscado para uma oportunidade.

“Com melhoria econômica, mesmo tímida, somado a uma taxa de juros mais baixa, investidores tradicionais arriscam mais”, afirma Arthur Garutti, sócio da ACE, um dos maiores hubs de investimentos em startups e inovação corporativa da América Latina.

A partir de tamanho dinamismo nos investimentos e casos de sucesso, percebe-se a criação de uma dinâmica natural: as startups que buscam, cada vez mais, investimentos maiores e decisivos; enquanto investidores, fundos e aceleradoras diversificam a carteira de investimentos. É um cenário rico e que, de várias maneiras, ajuda a movimentar a economia e fazer com que o mercado empreendedor como um todo saia ganhando e mais fortalecido.

“É um ciclo virtuoso. Com mais investimentos, cria-se mais unicórnios e casos de sucesso de startups. Até mesmo os negócios na base se beneficiam com investidores-anjo mais animados. E tudo isso atrai ainda mais investidores”, sintetiza Amure Pinho, presidente da Associação Brasileira de Startups (ABStartups). “No final, o ecossistema todo se torna pulsante e atraindo mais e mais investidores, sejam de fora da área ou do exterior”.

Daniel Ibri, que é cofundador da Mindset Ventures, gestora internacional de venture capital que conecta investidores brasileiros a empresas de tecnologia em estágio inicial, há uma melhor percepção do Brasil por agentes externos. Não é à toa que o SoftBank criou um fundo de investimento de US$ 5 bilhões para a América Latina e empresas chinesas, como Didi e Full Track Alliance, estão investindo localmente para acelerar a expansão.

Daniel Ibri, cofundador da Mindset Ventures, gestora internacional de venture capital (Foto: Divulgação)

“O mercado internacional está mais animado. Começaram a olhar para o Brasil como um País interessante e os holofotes de voltaram para cá”, afirma Ibri, que também é professor de finanças e empreendedorismo no Insper. “Nós temos startups de fora vindo pra cá e fundos querendo investir em startups daqui. É uma troca inte, que não existia há dois anos. Felizmente, o Brasil amadureceu como um bom mercado de investimentos em startups”.

Cuidados na caminhada

Apesar do bom cenário e da boa perspectiva, ainda é preciso ter cuidado na hora de realizar investimentos e, também, de receber aportes. Afinal, não adianta caminhar com a empolgação do mercado e aceitar ou fazer investimentos apenas pelo bom momento que se vê no setor. É preciso pensar e analisar cada passo com cautela para evitar que tudo vá por água abaixo. Investimentos ruins, para os dois lados, podem fazer um negócio ruir.

“É preciso ter um olhar mais pragmático, voltado aos resultados e com sustentação financeira”, afirma Beny Fard, CEO e fundador da Spin, aceleradora que integra startups e indústria. “Startups, num curto prazo, possuem déficit. Mas, em algum momento, precisam começar a apresentar bons resultados. E agora os investidores se preocupam mais com isso. Afinal, o mercado de startups precisa ser menos romântico e mais pragmático”.

Além disso, as startups precisam perceber que os investimentos nem sempre são a receita ideal pra quem está buscando crescer e ganhar força no mercado empreendedor brasileiro.

“Investimento nem sempre será a melhor forma para uma empresa se financiar, [já que]  possui características que podem ser tidas como desfavoráveis”, afirma Giovanni Bevilaqua, analista de Unidade de Capitalização e Serviços Financeiros do Sebrae Nacional. “As mais comuns são diluição dos sócios originais; perda do controle da empresa; (necessidade de prestar contas ao fundo e tempo e esforço necessários para concretização do investimento”.