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Mercado avalia como inevitável primeira alta dos juros em quase seis anos

EDUARDO CUCOLO
·6 minuto de leitura

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Economistas do mercado financeiro consideram inevitável uma alta da taxa básica de juros na reunião do Copom (Comitê de Política Monetária) do Banco Central na próxima quarta-feira (17) e discordam apenas da intensidade desse ajuste. Se confirmada, será a primeira alta da Selic em quase seis anos. A última foi em 29 de julho de 2015, quando o Copom subiu os juros de 13,75% para 14,25%. A queda começou em 19 de outubro do ano seguinte, quando baixou para 14%. Das 13 instituições com projeções coletadas pela agência Bloomberg até esta quinta-feira (11), 10 projetam elevação da taxa básica de 2% para 2,50% ao ano, entre elas, Bradesco, Santander e Fundação Getulio Vargas. Três esperam um aumento um pouco menor, para 2,25% ao ano. Entre os motivos para a elevação dos juros estão o risco de descontrole das expectativas de inflação, que pela primeira vez desde 2017 estão acima do centro da meta, choques de aumento de preços, ligados principalmente à alta do dólar, que estão se disseminando pela economia, e a falta de ação do governo federal e do Congresso para conter o aumento do gasto público. "O Banco Central deve subir os juros para não perder o controle sobre as expectativas de inflação e, consequentemente, sobre a própria inflação", afirma José Júlio Senna, ex-diretor do Banco Central e chefe do centro de estudos monetários do FGV Ibre (Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas). "O quadro se deteriorou muito rapidamente. A gente teve mais depreciação do câmbio, reajuste de combustíveis, uma demonstração mais clara ainda de que o apetite para o ajuste fiscal é inexistente e sinais de uma linha muito populista [em decisões governamentais], como no episódio da Petrobras." Senna afirma que a ação do BC não deve ter como objetivo segurar o câmbio e que, dado o nível de ruído político no Brasil atualmente, não se pode ter segurança de que esse efeito secundário da alta de juros irá se materializar. O economista diz ainda que a instituição não pode deixar a inflação sair do controle devido ao baixo nível de atividade e das restrições econômicas causadas pela pandemia. Ele destaca a diferença atualmente entre a taxa básica e os juros de longo prazo, que tem sido prejudicial ao funcionamento da economia. A professora Margarida Gutierrez, do Coppead/UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), afirma que um aumento de 0,50 ponto percentual na taxa Selic não representa um choque de juros e que o que interessa para o nível da atividade econômica são os juros futuros. "O que baliza o custo do crédito são os juros futuros. O juro de dez anos está a 8,5%. Nos EUA é 1,6%. O de cinco anos está em 7%. De três anos está em 6%. Um ano, em 4,5%. Se o Banco Central ficar atrás da curva de juros, significa que ele perdeu", afirma a economista. Gutierrez afirma que, por trás da alta da inflação ao consumidor, há um choque de expectativas inflacionárias e que não adianta nada o BC não subir os juros por causa da fraca atividade econômica. "A gente vai ficar em um mundo pior ainda. Vai ter mais inflação, isso vai reduzir ainda mais o eventual crescimento do PIB. Os juros futuros vão subir mais desordenadamente do que já vêm subindo. Para o PIB crescer, você precisa de uma série de condições na economia, incluindo as condições financeiras. Não subir os juros agora em detrimento de um PIB um pouco maior é uma falsa questão", afirma. "Se você tem uma inflação crescendo, ao Banco Central só cabe uma coisa. Se é uma inflação de demanda, é o remédio clássico, tem de subir juros. Não é de demanda, mas é de expectativas. Então também é o remédio clássico, tem de subir juros, não tem jeito." Um dos três analistas que projetam um aumento menor dos juros no próximo Copom, segundo a Bloomberg, é o economista-chefe da Ativa Investimentos, Étore Sachez. Para ele, acelerar o ritmo de aumento dos juros, que atualmente estão abaixo da inflação corrente com objetivo de estimular a economia, vai derrubar a inflação e as expectativas para 2022, que ainda estão em linha com a meta. Como a política monetária tem defasagens em relação a seus efeitos, subir muito a taxa agora não ajudaria a segurar a alta de preços neste ano. Segundo Sachez, se o câmbio não mexeu com as expectativas para 2022, o Banco Central tem de fazer a condução da política monetária de maneira serena e gradual. "Todo esse fervor que a gente está assistindo em relação à inflação deste ano não tem se refletido na do ano que vem. Pelo contrário, as expectativas em relação à atividade vêm sendo revisadas para baixo, o grau de incerteza em relação ao horizonte econômico e político subiu bastante. Tudo isso mitiga investimento, crescimento, e a gente não vê uma pressão inflacionária." Ele afirma que o processo de vacinação da população economicamente ativa só deve ganhar força no último trimestre do ano, o que dificulta a retomada das atividades, o avanço do PIB neste ano e o surgimento de eventuais pressões inflacionárias adicionais. "Subir os juros em 0,25, iniciar o ciclo, é diferente de dar 0,50 [ponto percentual] agora. Hoje o mercado está precificando 6,30% de Selic em janeiro 2022. Isso já está no patamar restritivo de política monetária. A partir desse patamar, a gente vai enterrar ainda mais a atividade, removendo completamente o estímulo que o Brasil precisa para sair desse processo pandêmico. Neste ano a gente vai crescer 2,9% de PIB se der muita sorte." O professor da Fipecafi Estevão Alexandre afirma que seria saudável aumentar a Selic para conter um pouco mais o aumento da inflação no curto prazo e que isso deve contribuir para reduzir um pouco a pressão em cima do dólar, ao reduzir a diferença de juros entre o Brasil e o exterior porque fica mais atrativo aplicar dinheiro aqui. "A gente está vivendo um ambiente de muita incerteza e volatilidade no mercado. Isso no mundo inteiro. É uma tendência mundial subir as taxas de juros. Se o Brasil não subir pode gerar uma tendência de saída de capital", diz Alexandre. A meta de inflação é de 3,50% para 2021 e 3,50% para 2022, com margem de 1,5 ponto percentual para baixo ou para cima. As expectativas do mercado são de 3,98% para este ano e 3,50% para o próximo ano. A taxa básica está em 2% ao ano desde agosto do ano passado.