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Menor isolamento de negros facilita queda da disparidade no Centro-Oeste

·3 minuto de leitura

SÃO PAULO, SP, E MANAUS, AM (FOLHAPRESS) - Não há um único estado em que brasileiros pardos e pretos tenham uma presença no topo da distribuição de renda próxima de seu peso na população.

Mas há diferenças significativas no nível de exclusão pelo país, registrados pelo Ifer (Índice Folha de Equilíbrio Racial). A disparidade entre negros e brancos no componente de renda do indicador no Amazonas e em São Paulo, campeões da desigualdade racial, é mais do que o dobro da registrada em Goiás, por exemplo.

É difícil decompor e quantificar as causas dessas diferenças. Estudo dos sociólogos Rafael Osório e Pedro Ferreira de Souza, do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), mostra que, em 2008, um terço da distância entre a renda per capita de brancos e negros do Brasil se devia, unicamente, à desigualdade econômica e à composição populacional por raça de 63 regiões em que o país foi dividido para a análise.

"Mesmo que não houvesse diferenças causadas pelo racismo e por outros fatores, ainda haveria desigualdade racial entre as distintas regiões do país", diz Osório.

Ao jogar luz nas diferenças entre estados e regiões e em sua evolução, o Ifer busca ajudar a identificar aspectos que explicam os dois terços restantes da desigualdade e que, portanto, são modificáveis.

O isolamento espacial de pardos e pretos em periferias ou cidades com economias menos dinâmicas pode ser um desses aspectos. Exemplos do que ocorre no Amazonas e em outras partes do país reforçam a hipótese.

Atraída pelos benefícios fiscais da Zona Franca de Manaus, a fabricante de motos norte-americana Harley-Davidson abriu uma montadora em área nobre do bairro Tarumã. A 12 km em linha reta dali, à beira do rio Negro e só acessível de barco, está a comunidade Nossa Senhora do Livramento, que vive da agricultura, da pesca e do turismo.

Implantado há pouco mais de meio século, o Polo Industrial de Manaus (PIM) abriga grandes multinacionais e emprega cerca de 100 mil trabalhadores. Essa concentração de investimentos na capital do Amazonas contribui para que o estado registre uma desigualdade acentuada, segundo o economista manauara Guilherme Jacob, doutorando da Escola Nacional de Ciências Estatísticas do IBGE.

"A atividade da Zona Franca de Manaus é muito diferente da atividade do interior e até mesmo da região metropolitana", diz Jacob. "O que mantém o interior é atividade estatal e o extrativismo. Isso gera uma diferença de renda, porque a atividade industrial exige qualificação, e esses trabalhos vão todos para a capital."

Os negros são oito em cada dez habitantes de 30 anos ou mais do Amazonas, mas apenas seis em cada dez entre os 10% mais ricos no mesmo recorte etário. O desequilíbrio racial em renda no Amazonas é bem maior do que nos outros estados da região.

Uma ressalva sobre a disparidade racial é como entender a categoria "pardo" no Norte, onde, com frequência, se trata de pessoas de origem indígena, mas que não se autodenominam dessa forma.

Ainda que esse fator também afete a disparidade e seja de difícil mensuração, a hipótese de que o afastamento dos não brancos das áreas econômicas dinâmicas impacta o equilíbrio racial parece coerente com o que ocorre em outras partes do país.

A maior integração de negros nos centros urbanos do Cen- tro-Oeste, que crescem impulsionados pelo agronegócio, é uma das possíveis explicações para o recuo da sua disparidade racial. "Aqui, não há uma periferização massiva da população negra como no Sul e no Sudeste", diz Claudia Cristina Carvalho, coordenadora do Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros da Universidade Federal da Grande Dourados.

Janira Sodré Miranda, professora de história do Instituto Federal de Goiás, ressalta que a ascensão dos negros na região ocorre, sobretudo, via inserção nos serviços e no setor público. Ela ressalta que, embora mais pretos e pardos atinjam a renda que separa os brancos 10% mais ricos dos demais 90%, eles encontram barreiras para alcançar um nível maior de riqueza e posições de poder.

Por isso, Miranda e Carvalho dizem que o Centro-Oeste está longe do ideal de equilíbrio racial, que, segundo elas, tem caído também devido à forte atuação do movimento negro.

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