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Meme do papel higiênico: neurocientista explica que humanizar objetos faz mais sentido do que parece

O meme do papel higiênico (Foto: Reprodução/@soueunavida)

Por Vladimir Maluf (@vladmaluf)

Com o isolamento social recomendado pela Organização Mundial da Saúde (OMS), por causa da pandemia do coronavírus, choveram memes nas redes sociais relacionados à solidão. Um deles mostra um rolo de papel higiênico com um rosto desenhado, acompanhado da legenda: "Agora vou te chamar de Wilson". A piada humanizando um rolo de papel, porém, não é uma ideia tão maluca quanto parece. A neurocientista Gabriela Ioshimoto, doutora em Neurociências pela USP e pós-doutora em Psicologia Experimental, também pela USP, explica o motivo.

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Para começar, ela observa que o meme mistura dois pontos interessantes: "Primeiro, faz uma sátira com a classe média, que correu aos supermercados para estocar papel higiênico no mundo todo. O segundo ponto é que o meme reproduz o comportamento do personagem de Tom Hanks, no filme 'O Náufrago', quando ele faz de uma bola de vôlei o seu amigo imaginário, também chamada Wilson, para ajudá-lo a sobreviver à solidão na ilha."

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Antropomorfismo?

No filme, diferentemente do meme, Wilson não é uma piada -- e ajuda o público a compreender a solidão do personagem. E faz sentido. Gabriela explica que, ao criarmos um amigo imaginário, estamos atribuindo características e comportamentos humanos a objetos ou animais, e isso tem nome: antropomorfismo. "O recurso acaba sendo uma espécie de truque para manter nossa natureza social. Viver em sociedade não é uma opção, mas uma questão de sobrevivência para a espécie humana."

Não há necessidade de desenhar um rosto em um rolo de papel higiênico, como no meme ou na bola do personagem náufrago, mas Gabriela explica que o comportamento se assemelha a muitos outros que são comuns a todo mundo, como conversar com a TV, plantas, gatos, cachorros ou objetos, como um urso de pelúcia. "Essa pode ser, sim, uma ferramenta para ficarmos 'menos malucos' com a necessidade de isolamento e nos ajuda a manter a saúde mental."

Pensar que o isolamento é a melhor alternativa até o momento -- e isso é baseado em pesquisas científicas -- também ajuda aceitar que a situação atual é necessária. "Cientistas de todo o mundo estão descrevendo -- em tempo recorde -- a evolução do coronavírus e seus efeitos. A partir disso, o isolamento social ainda é considerado a solução mais eficaz. Não é achismo. Uma decisão tomada sem base científica pode ser um tiro no pé."

Maria Eugênia, a boneca de BamBam no BBB

Um exemplo desse comportamento já foi testemunhado na TV. Quem assistiu à primeira edição do 'BBB’ (2002), na Rede Globo, deve se lembrar do campeão, Kleber BamBam. Ele construiu uma boneca com uma vassoura e sucata -- batizada por ele de Maria Eugênia -- e a tratava como uma amiga durante o confinamento. No meio do programa, a produção retirou o objeto da casa, com quem Kleber conversava, e o participante teve uma séria crise nervosa. "É exatamente disso que o meme se trata. Ele reagiu daquela forma por que a pessoa acaba criando um vínculo com o objeto. É um porto seguro no meio do caos e da solidão."

Dá para dizer que humanizar um objeto ou animal é um comportamento saudável, mas, também, pode ser perigoso. Gabriela afirma que é preciso ter um meio termo. "Conversar com plantas e animais pode ser saudável, sim. Manter os cuidados com o jardim e criar um bichinho ajuda a nos distrairmos um pouco da chuva de mensagens e de informações que recebemos, principalmente durante um momento crítico, como a pandemia do coronavírus." 

Quarentena com menos sofrência

A neurocientista explica que ainda mais prejudicial para a saúde mental é a quantidade de informações que recebemos. "Essa chuva de mensagens nos grupos de Whatsapp e da TV, contabilizando o número de mortos, aumenta nossa ansiedade", diz Gabriela. A cientista é criadora do projeto Ciências Fora da Casinha, que tem o objetivo de simplificar temas complexos para uma linguagem mais acessível. Ela reuniu dicas para que o isolamento não seja tão sofrido, listados a seguir:

  1. Faça uma reunião virtual com amigos e parentes para não se sentir tão só. Ouvir a voz e ver pessoas na câmera é reconfortante, pois o isolamento se torna apenas físico, não social. Lembre-se sempre de falar com pessoas que moram sozinhas. Elas estarão sentindo ainda mais a o isolamento; 

  1. Crie um cronograma de atividades. Ter uma rotina traz conforto e segurança. Tente manter os horários habituais de dormir, acordar, fazer refeições -- principalmente, se há crianças em casa. E tenha cuidado para não tentar aplacar a ansiedade com excesso de bebidas alcoólicas e comida;

  1. Não seja tão exigente com você mesmo nem com os outros. Respeite suas limitações e das pessoas que estão com você nessa quarentena; 

  1. A rotina ajuda, mas não deixe que ela escravize você. Evite se sentir frustrado, caso não consiga realizar tudo o que gostaria. Todos estamos em um momento de adaptação e o essencial é tentar se sentir bem;

  1. Confie na Ciência e apoie a pesquisa. O conhecimento científico é a base dos tratamentos, vacinas e estratégias para lidar com a pandemia do coronavírus.