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Melhor do mundo no futsal se recupera de câncer no cérebro e retoma carreira

Colaboradores Yahoo Esportes
·8 minuto de leitura
BANGKOK, THAILAND - NOVEMBER 18:  Neto of Brazil poses with the trophies in the locker room after winning the FIFA Futsal World Cup Final at Indoor Stadium Huamark on November 18, 2012 in Bangkok, Thailand.  (Photo by Lars Baron - FIFA/FIFA via Getty Images)
Neto com os troféus de melhor jogador e campeão da Copa do Mundo de Futsal de 2012 (Lars Baron - FIFA/FIFA via Getty Images)

Por Guilherme Faber (@fabergui) e Matheus Brum (@matheustbrum)

Neto é acostumado com grandes desafios e decisões no Futsal. Eleito melhor jogador do mundo pela FIFA na Copa do Mundo de 2012, campeão mundial com a Seleção Brasileira e tetracampeão da Liga Nacional de Futsal (LNF), o atleta enfrentou o maior desafio profissional e, da vida, em 2017, quando descobriu um tumor no cérebro na época que defendia o Kairat, do Cazaquistão.

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“Foi a maior vitória. Agradeço a Deus todo dia por tudo que passei e continuarei sempre lutando com todas as minhas forças para enfrentar qualquer momento de dificuldade. Foi prazeroso de vivenciar e batalhar por tudo aquilo”, contou Neto em entrevista exclusiva ao Yahoo Esportes.

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Três anos depois de descobrir a doença e anunciar a aposentadoria do esporte, Neto retornou as quadras para sua cidade natal: Uberlândia, no Triângulo Mineiro. O fixo lidera o Praia Clube, que conquistou classificação às oitavas de final da Liga Futsal. A equipe enfrenta o Tubarão, de Santa Catarina, neste sábado (14) no jogo de ida. A volta será no dia 22.

Neto concilia também a promoção de palestras com sua rotina de treinos. O intuito é incentivar trabalhadores e empresários com base na experiência de superação. Outro ramo de atuação do salonista é a causa “Juntos por Uberlândia”, que trabalha em prol da população carente. Inclusive, o pagodeiro Alexandre Pires parabenizou os resultados desse engajamento durante sua live promovida na noite de 19 de abril de 2020.

Por telefone, o fixo conversou sobre a luta contra o câncer, carreira, relação com a Confederação Brasileira de Futebol de Salão (CBFS) e futuro do Futsal após a aposentadoria de Falcão.

Primeiramente por que a escolha pelo salão e não o campo? Na sua época de Santos houve ao menos a chance de treinar com a equipe do então técnico Muricy Ramalho?

Sempre fui apaixonado pelo salão. Talvez o fato de tocar mais na bola e tornando em teoria o protagonista me atraiu mais do que propriamente o futebol de campo. Nessa passagem no Santos foi bem curiosa, mesmo. O Muricy vendo alguns jogos nossos acabou falando que me levaria para treinar com a equipe. Infelizmente não deu certo. O Santos estava na época na Libertadores e quando acabou entramos nas finais da Liga Futsal. Isso impossibilitou o período de experiência. Eu queria e gostaria muito de ter vivido essa experiência nem que fosse por pouco tempo para ver como seria.

Dá para almejar o título da LNF com o Praia Clube nesta temporada ou é melhor trabalhar com a intenção em período de longo prazo?

Temos que ser totalmente realistas. Falar de título com a camisa do Praia nesse início de projeto é bem difícil. Um projeto de baixíssimo investimento, de médio e longo prazo. Quando isso [título] acontecer talvez eu não esteja mais nas quadras. Mas, estarei aqui torcendo e ajudando para que isso aconteça de alguma forma. Falar de título nesse princípio é uma coisa praticamente impossível.

Geralmente quando há um post no seu Instagram com a camisa do Corinthians sempre existe algum torcedor que pede seu regresso. Está em aberto a chance de volta ao Parque São Jorge ou a ideia é encerrar a carreira no Praia Clube?

Eu vejo com muita dificuldade e estou com 39 anos. O treinador do Corinthians, André “Bié”, esteve na minha época também. Então, a forma dele de trabalhar é diferente e as ideias talvez sejam. A vida é uma “caixinha de surpresa”, mas vejo com grande dificuldade que isso aconteça. Quero vivenciar esses anos que me restam de Futsal para sempre fazer o meu melhor e desenvolver essa capacidade de superação que sempre tive a cada ano que estiver em quadra.

A luta contra o tumor foi o maior desafio da sua vida? Como que foi essa batalha?

Foi a maior vitória. Agradeço a Deus todo dia por tudo que passei e continuarei sempre lutando com todas as minhas forças para enfrentar qualquer momento de dificuldade. Foi prazeroso de vivenciar e batalhar por tudo aquilo.

Durante esse tempo de recuperação conseguiu reestabelecer laços de amizade, que estavam em baixa, e deu para transformar “inimigos” em amigos?

A transformação é grande. Sempre falo nas minhas palestras que o inimigo vira amigo. Quantas pessoas oraram por mim? A gente acaba deixando tudo de lado e existem tantas outras coisas que pudemos fazer. Aproximação com a família, amigos, outras pessoas que acaba conhecendo e até no próprio hospital com inúmeras vivências de pessoas idosas. Tudo foi feito de forma legal e Deus escreveu realmente por linhas tortas a minha história. Por isso que sempre quando lembro só tenho motivos de agradecimento.

Como avalia o futsal em si após a aposentadoria do Falcão?

O nosso esporte parece que sempre foi de ídolo único. Época do Manoel Tobias e depois veio a do Falcão. Agora com a aposentadoria dele ainda a gente sofre, mas por ele estar tão ligado ao esporte talvez isso amenize um pouco. O momento não é só de ídolo único e temos que fazer vários outros até porque em questão de matéria-prima somos o país que mais desenvolve. Então tem muita gente boa aí que podemos tratar como ídolo e colocá-los em um patamar bem elevado para que eles possam fomentar nosso esporte.

Qual jogador tanto brasileiro ou estrangeiro você enxerga como possível sucessor do camisa 12? Seja em retorno técnico, mídia e marketing.

O único jogador capaz hoje em dia de aliar tudo isso sem dúvida é o Ricardinho, da seleção de Portugal e Acces, da França. Até porque vive em um país infinitamente menor que o nosso e se torna um ídolo que consegue atingir um patamar elevadíssimo. Um jogador vitorioso e isso que é o mais importante. Só ele é capaz de movimentar tudo isso, mas gostaria de ver um brasileiro movimentando esse esporte para que as pessoas vejam com olhos diferentes.

Neto durante partida da Liga Futsal pelo Praia Clube (Guilherme Mansueto/Magnus Futsal)
Neto durante partida da Liga Futsal pelo Praia Clube (Guilherme Mansueto/Magnus Futsal)

A série “Vai pra cima, Fred!” promovida pelo canal “Desimpedidos” alcançou mais de um milhão de acessos, mas recebeu algumas críticas de usuários nas redes sociais. Na sua visão, foi válida a iniciativa de promover a modalidade?

Essa série foi muito bacana. Você vê uma pessoa totalmente fora do esporte, mas com um sonho e capacidade de se tornar um esportista passando por todas as dificuldades. Foi muito proveitoso e a imagem do futsal só cresceu com essa série do Fred. Que a gente veja por esse lado, outras equipes e a própria confederação (risos) sintam quanto isso foi atrativo. Realmente façam mais séries como essas para que o nosso esporte cresça. Dependemos de outras pessoas para fomentar nossa modalidade. A cada erro, desvio, caso de corrupção, dificuldade que a gente enfrenta na confederação acabam estragando de uma forma o esporte. A gente tem sempre que recuperá-lo para que o Futsal não se torne cada vez mais esquecido.

Por falar nisso, atualmente a Confederação Brasileira de Futebol de Salão (CBFS) contabiliza dívida de R$ 6,5 milhões e entre mudanças de gestores não houve nenhum sinal de alívio financeiro. O trabalho da CBF torna-se a única solução?

Falar de CBFS é um tema que gera essa discussão há bastante tempo. Eu nunca fui partidário a ter federação única de futsal, porque todos os países são geridos pela confederação de futebol. O poder econômico com certeza seria muito maior com a entrada da CBF. Porém ninguém quer assumir uma dívida contraída de uma confederação em teoria “falida”, que sempre foi tema de muitos problemas e casos de corrupção. Hoje em dia seria a única saída a CBF pegar o futsal para fazer esse comando novamente e possamos ter uma comissão técnica prioritária para uma seleção. Falando de CBFS, poderia falar inúmeras coisas, mas não vem ao caso e o certo seria o nosso esporte mudar de “mãos” para quem sabe entrar pessoas para fazer o diferente, que é o principal.

No seu encontro com a ex-jogadora de vôlei Leila, você cobrou que o poder público de Uberlândia indique alguém capacitado na Secretaria de Esportes. Dá para acreditar em breve o Neto nessa pasta ou como legislador?

Isso sempre será uma “briga” minha. Infelizmente isso não acontece e sempre vemos políticos ocupando esse cargo. Isso acaba atrapalhando de alguma forma em difundir o esporte em todas as esferas. Gostaria muito de ver uma pessoa capacitada para que a gente pudesse fazer o esporte uberlandense crescer. Se algum dia eu estiver capacitado e as pessoas acharem, sem dúvida nenhuma aceitaria o convite.

Olhando para a sua carreira, há algo que se arrependa, ainda tenha vontade de fazer ou realizou todos os seus sonhos?

Em relação na minha carreira não tem nada. Não queria voltar em momento algum. A gente erra e acerta e isso faz parte de uma carreira do desportista. Então, tudo aconteceu como deveria ser. Lógico que se houvesse um amadurecimento cedo algumas encrencas seriam evitadas. O legal depois de tudo que aconteceu que resolvi pedir desculpas para todas essas pessoas que eu achei que fui contrariado ou que tenha contrariado.

Nesta fase de pandemia, sem dúvida a população mundial conseguiu tempo suficiente para rever vários pensamentos e atitudes. Por gentileza, transmita uma mensagem de otimismo.

Esta pandemia veio por algum motivo e cada pessoa deve olhar para dentro de si. Muitas pessoas falam que isso aconteceu para que a gente pudesse melhorar, mas não aconteceu por isso. Esse “melhorar” é individual. Que isso sirva de aprendizado e seguir a nossa vida daqui para frente de uma forma menos consumista. Com certeza esse é um legado que a pandemia vai deixar.

Em caso de interesse por palestras com Neto, envie e-mail para marketing@tk1sports.com ou ligue para 34-99690-3300

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