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Marcius Melhem: quando as grandes empresas vão começa a se posicionar sobre assédio?

Marcela De Mingo
·4 minuto de leitura
Marcius Melhem (Foto: Divulgação / TV Globo)
Marcius Melhem (Foto: Divulgação / TV Globo)

Você conhece Marcius Melhem. Se não pelo trabalho que ele faz há anos na televisão, pela recente polêmica envolvendo assédio sexual. Porém, não é sobre esse problema, em si, que vamos falar hoje. É sobre o posicionamento de grandes empresas diante de casos de assédio.

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A TV Globo já se viu diante de outras questões como essa antes. José Mayer, por exemplo, foi um caso bastante conhecido no país e que gerou muita discussão. O de Marcius não é diferente, só mais alongado. Foram meses entre as denúncias de assédio e a demissão do chefão do humor da emissora. Depois, mais meses se passaram até sabermos, com detalhes, o que de fato acontecia nos bastidores da televisão.

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De lá para cá, pouco se soube do que a emissora pensa sobre o assunto. Pelo contrário, a probabilidade era das acusações serem enterradas muitos pés para baixo da terra, não fosse a coragem da advogada Mayra Cotta, que decidiu falar detalhadamente sobre a conduta do ator e humorista dentro da Globo.

O ponto principal, no entanto, não é a conduta da Globo em si, mas das empresas como um todo. Um filme recente, com um elenco estrelado, chamado 'O Escândalo', mostra bem de perto como essa dinâmica funciona. Nele, Nicole Kidman interpreta uma âncora de televisão de uma das maiores emissoras dos Estados Unidos, a Fox News, que decide fazer uma denúncia formal de assédio sexual contra Roger Ailes, o chefão do canal.

A omissão, o medo e, principalmente, o risco à Gretchen Carlson (uma pessoa real, já que o filme é baseado em uma história verídica) mostram a dificuldade que é enfrentar, sozinha, uma empresa tão poderosa - e, acima de tudo, que controla a mídia. Ao fim, foi a união de uma série de mulheres, mais provas concretas que conseguem tirar Roger da chefia do canal, mas não sem antes gerar polêmicas e a falta de apoio da própria Fox, que negou o assunto por muito tempo.

É possível se comparar, também, à necessidade das empresas não só promoverem como se educarem sobre questões sociais e raciais, além das feministas, que são de extrema importância para o momento que vivemos agora. Basta olhar a crítica que sofreu a Magazine Luiza, de Luiza Helena Trajano, ao lançar um projeto de trainee focado em pessoas pretas - a desinformação e o preconceito fez a marca ser muito criticada por algo que foi juridicamente considerado como reparação histórica.

Não à toa, Luiza se tornou a mulher mais rica do país e, mesmo sendo tão atacada, sua empresa virou uma das mais respeitadas por aqui por conta da conduta também em relação aos funcionários durante o período de pandemia. Não se pode dizer o mesmo, por exemplo, de Junior Durki, fundador da rede de hamburguerias Madero.

O assédio sexual não é um assunto novo, muito menos uma exceção no ambiente profissional. Quando se fala de televisão e do cinema, o movimento #MeToo surgiu como uma afronta ao tratamento que as mulheres recebiam no meio, seja por serem assediadas no começo ou ao longo da carreira, seja por receberem salários menores que os homens, e chamou a atenção para a necessidade dos grandes estúdios tomarem uma posição mais igualitária em relação aos talentos contratados.

Nem precisamos, também, citar o caso mais polêmico de todos, o do produtor cinematográfico Harvey Weinsten, que foi condenado à 25 anos de prisão por assédio sexual e estupro de mulheres ao longo da carreira. Dono de um dos principais estúdios de cinema do mundo, o Miramax, não se enfrenta um homem até então tão poderoso e uma empresa tão grande sozinha. Foram necessárias reportagens com muitas denúncias juntas, de mulheres que topassem colocar os seus nomes na linha, para que o produtor fosse levado à justiça.

No caso da Fox News, quem colocou o prego no caso de Roger foi a também âncora Megyn Kelly, uma das mais importantes da emissora à época. No de Harvey, atrizes como Ashley Judd decidiram vir à público. No de Marcius, Dani Calabresa. São nomes grandes e de peso e reconhecimento no mercado que fizeram com que essas acusações ganhassem relevância.

Mas como é a situação quando se fala de uma mulher em uma posição de bastidores? Uma jornalista, por exemplo. Se levarmos à cabo o que aconteceu quando Mc Biel foi acusado de assédio por uma repórter, vemos o gap no posicionamento das empresas: ele saiu impune e ela foi demitida.

Foi-se o tempo em que evitar uma acusação de assédio por conta da "má publicidade" funcionava no meio corporativo. Demita a mulher e acabe com o problema. Coloque panos quentes e deixe o assunto para lá. Não, agora é a hora de empresas, grandes, pequenas e médias, assumirem que têm um papel perante a sociedade que vai além do mercadológico - e tudo indica que o próprio público não vai mais ser tão condizente com erros como esses.

É o momento de todo mundo baixar a cabeça e ouvir quem precisa falar, aprender com os discursos, estudar e reconhecer como tornar todos os ambientes, inclusive os profissionais, mais seguros para todas as pessoas e não só para um grupo seleto se destacar, ganhar poder e status a ponto de se tornar praticamente um intocável.