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Meirelles defende meta de inflação de 3% para 2024 para ancorar expectativas

·4 minuto de leitura
O secretário de Fazenda do Estado de São Paulo, Henrique Meirelles.. 21/02/2019. REUTERS/Amanda Perobelli.

Por Isabel Versiani

BRASÍLIA (Reuters) - A inflação elevada que o país enfrenta neste período de retomada do crescimento está relacionada principalmente a choques de oferta e de demanda ligados à pandemia que tendem a ser passageiros e, para ancorar as expectativas, o governo deveria seguir reduzindo a meta de inflação do país.

A avaliação é do ex-presidente do Banco Central, ex-ministro da Fazenda e atual secretário de Fazenda do Estado de São Paulo, Henrique Meirelles. Em entrevista à Reuters, ele afirmou que, caso ainda fizesse parte do Conselho Monetário Nacional (CMN), votaria nesta semana pela fixação de uma meta de 3% para a inflação em 2024.

A meta de inflação para este ano é de 3,75%, e a expectativa do mercado é descumprimento do objetivo, mesmo considerando a margem de tolerância de 1,5 ponto percentual para mais ou para menos. Para 2022, as expectativas estão já um pouco acima da meta central de 3,5%. A meta de 2023 é de 3,25%, e a de 2024 será definida pelo CMN neste mês, em reunião prevista para a próxima quinta-feira.

Meirelles destaca que os preços têm sido afetados, entre outros fatores, por disrupções nas cadeias de produção geradas por problemas relacionados à pandemia.

"O Banco Central tem que tomar as medidas, e está tomando, agora a tendência é de melhora, na medida em que as empresas forem retomando", afirmou. Ele destacou a importância de, nesse contexto, o governo manter o curso previsto e direcionar as expectativas, levando a meta para 3%, patamar que diz considerar "normal" para economias emergentes.

"Se eu estivesse lá eu votaria a favor, sim, de continuar nessa linha para 2024", afirmou.

Questionado se a inflação mais elevada neste ano irá enfraquecer o mecanismo do teto de gastos como âncora fiscal para 2022, na medida em que permitirá que o governo gaste mais sem descumprir a regra, Meirelles pontuou que o fato de o teto variar de acordo com a inflação é uma vantagem.

"Acho que nesse momento inclusive permite que o governo obedeça ao teto de gastos, na medida em que dá um pouco mais de margem", afirmou Meirelles. "Permite ter um pouco mais de confiança de que é possível seguir o teto (sabendo) que, em um ano que a inflação cai, o teto vai para baixo."

CRISE HÍDRICA

A equipe de Meirelles aumentou para cerca de 7,5% as projeções para o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) de São Paulo em 2021 após o governador João Doria (PSDB) anunciar uma antecipação do cronograma de vacinação do Estado, agora previsto para abarcar todos os adultos até setembro.

Esse desempenho coloca o Estado, que fechou o ano passado com um ligeiro crescimento, bem acima da média do país --a expectativa do mercado é que o Brasil cresça 5% neste ano, após queda de 4,1% em 2020.

Meirelles admite que a crise hídrica é um risco negativo para a projeção, mas pondera que o aprendizado que as empresas adquiriram na pandemia, aliado a uma avaliação de que comércio e indústria tendem a ser relativamente poupados de eventuais falhas que venham a ocorrer nos horários de pico de consumo da população, minimiza as preocupações.

"Vamos evidentemente monitorar de perto aí a evolução de toda essa situação, não só dessa questão hídrica, mas mais ainda da evolução da vacinação, da questão da saúde e essas novas variantes de Covid-19. Tem muita coisa influenciando esse processo (da atividade)", afirmou o secretário.

Ao chamar a atenção para a importância dos investimentos privados no setor de energia, ele disse considerar "extremamente positiva" a aprovação, no Congresso Nacional, da medida provisória que abre espaço para a privatização da Eletrobras. A votação foi concluída na noite de terça-feira e segue para a sanção do presidente Jair Bolsonaro.

A MP prevê a diluição da participação do governo na Eletrobras por meio da venda de ações. Mas emendas ao texto que não têm relação com a desestatização ou com a elétrica levantaram uma série de questionamentos de especialistas sobre o custo mais alto da energia térmica compulsória decorrente da contratação de 8 gigawatts estabelecida na proposta.

Para Meirelles --que comandava o então Ministério da Fazenda quando o governo Michel Temer apresentou um primeiro projeto de pulverização da participação do governo na estatal--, os "jabutis" incorporados pelo Congresso à nova MP denunciam dificuldades de coordenação do governo e são criticáveis, mas não tiram o mérito do plano de privatização.

"Acho extremamente positivo que isso finalmente esteja saindo", disse Meirelles.

Questionado sobre seus projetos políticos, Meirelles, que tem sido cogitado para ser candidato ao Senado ou mesmo à vice-presidência numa eventual chapa de Luiz Inácio Lula da Silva, afirma que por ora está focado na secretaria estadual.

"O importante para mim agora é realmente fazer, concluir um bom trabalho aqui em São Paulo, este ano e o próximo tempo em que eu estou aqui. Depois, no devido tempo, vamos olhar", afirmou, lembrando que o prazo para candidatos se descompatibilizarem de cargos públicos termina em abril do próximo ano.

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