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Megainvestidor monta carteira para cenários de fim de mundo

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Ray Dalio utiliza 22 das mais de 550 páginas do seu novo livro para descrever sua estratégia de investimentos, mas poderia tê-lo feito apenas com o testemunho que reservou para as folhas finais: ele possui uma carteira diversificada o suficiente para "cenários de fim de mundo".

Não é necessariamente uma surpresa que o fundador do maior fundo de hedge do mundo, o Bridgewater Associates, procure ativos tão diferentes entre si que o permitam lucrar até mesmo com o armagedom. Essa é basicamente a lógica de um fundo de cobertura.

O que Dalio mira em "Princípios para a ordem mundial em transformação" é mostrar ao leitor como perceber a chegada do próximo apocalipse financeiro, que será marcado pela reconstrução da ordem mundial com a China tomando o posto dos Estados Unidos.

Embasam essa visão detalhadas análises dos padrões dos ciclos de crédito e do dinheiro durante ascensões e quedas das potências econômicas nos últimos cinco séculos.

No jogo de poder da geopolítica, o crédito tem papel central. Impérios ascenderam e caíram em ciclos cujo auge está associado à detenção de uma moeda de reserva forte e, o declínio, à desvalorização dessa moeda devido ao alto endividamento. O fim ocorre quando credores perdem a fé e passam a buscar outro ativo (outra moeda forte de reserva ou algo que a possa substituir, como commodities).

No modelo de Dalio, esse período de hegemonia dura até um século, embora exista certa imprecisão na conta. O atual teve início em 1945, no pós-guerra, quando os Estados Unidos tomaram definitivamente o posto do Reino Unido.

Se a disputa fosse entre alpinistas, a elevação do dólar ao status de principal moeda de reserva global significaria que os americanos chegaram ao cume após terem superado as outras barreiras determinantes para riqueza e poder de uma nação, que são: educação, competitividade, inovação tecnológica, produção econômica, ampla participação no comércio, poderio militar e o seu fortalecimento como centro financeiro.

Essa ascensão, por óbvio, teve início muito antes da Segunda Guerra Mundial. Dalio pontua a partida para a conquista das "determinantes-chave" citadas acima dois séculos e meio antes, em período ainda anterior à Guerra da Independência.

E por qual motivo esse reinado estaria chegando ao fim? A resposta exige um rápido resumo da história da economia americana nas últimas décadas.

Dentro de um grande ciclo de ascensão de uma nação, cujo auge é alcançado após algum tipo de revolução capaz de estabelecer uma nova ordem, há também um ciclo de endividamento de longo prazo composto por até uma dezena de estágios de dívida de curto prazo.

Como ocorreu em outros momentos de reestruturação, o pós-guerra foi um período de prosperidade e explosão dos mercados de capitais, cuja essência é a negociação de promessas de pagamento.

O endividamento em larga escala é o que fez a engrenagem da economia americana girar depressa no pós-guerra, proporcionando um boom imobiliário e espalhando benefícios por toda a sociedade, um movimento que Dalio destrincha ao narrar a ascensão e o que ele considera ser a queda do grande ciclo dos Estados Unidos.

A festa do crédito farto costuma acabar quando a inflação bate à porta. Crises que possuem altas de preços no olho do furacão marcam os ciclos de endividamento de curto prazo.

Um desses marcos ocorreu em 1971, quando o volume de dívidas em dólar passou a ser notavelmente superior às reservas em ouro às quais a moeda americana estava vinculada, conforme estabelecido em 1944 com a criação do sistema monetário de Bretton Woods.

Nenhuma taxa de juros impediria titulares de dívida de tentar exercer seu direito de conversão de papel-moeda em ouro e isso levou os Estados Unidos a darem um calote na promessa de pagamento em metal.

A moeda desancorada poderia ser impressa sem controle e, claro, foi amplamente desvalorizada. Inflação e estagnação econômica se arrastaram pela década de 1970.

A partir de 1979, a gestão Jimmy Carter optou por um forte aperto monetário. O crescimento da oferta de dinheiro passou a ser limitada. Os juros foram às nuvens. Devedores quebraram, mas os bancos não, pois o Fed (Federal Reserve, o banco central americano) garantiu fluxo de caixa às instituições bancárias que sofriam com a inadimplência.

O arrocho garantiu a valorização do dólar e, a partir de 1990, a grande potência econômica dos nossos tempos estava pronta para voltar a baixar juros para reaquecer a economia e assim o fez seguidas vezes até 2008, quando o endividamento levou ao estouro da bolha.

Dalio pontua especialmente a crise de 2008 como algo que pode ser entendido como o fim do ciclo de endividamento de longo prazo dos EUA. Pela primeira vez desde a Grande Depressão, o Fed precisou zerar os juros e, além disso, imprimir dinheiro e comprar ativos em larga escala, utilizando praticamente todas as ferramentas monetárias disponíveis para salvar a economia. Algo que se repetiria no início da pandemia de Covid.

Um dos problemas da injeção artificial de dinheiro e crédito gratuito na economia é que a distribuição chega em maior proporção aos ricos. Como o autor conta ter aprendido com o fim do sistema Bretton Woods, medidas que produzem desvalorização da moeda geram valorização de ativos financeiros e isso beneficia quem os possui em maior quantidade.

É quando bolhas estouram que os alicerces ideológicos sobre os quais um império foi construído são mais solapados pelas perturbações sociais provocadas pela desigualdade.

Conflitos mais acirrados entre classes e a polarização política favorecem a tomada do poder por populistas, sejam eles de esquerda ou de direita.

Para Dalio, 70% do quebra-cabeças cujas peças formam a fotografia da derrocada do grande ciclo dominado pelos EUA está montado, restando apenas um grande evento de ruptura (algo como uma guerra civil, por exemplo) para o fim.

Ao mesmo tempo, a China avança rapidamente na conquista dos predicados que a permitiriam tomar o posto de liderança global, algo que a Rússia, mesmo nos tempos da União Soviética, jamais esteve perto de fazer devido à enorme desvantagem financeira que sempre possuiu em relação aos Estados Unidos.

Ao aplicar com sucesso uma mescla de comunismo e capitalismo que reduziu significativamente a pobreza da população e gerou um período de estabilidade e desenvolvimento (financeiro, educacional e tecnológico, entre outros), Pequim abocanhou a segunda maior fatia do comércio mundial e construiu as bases para dar as cartas quando a nova ordem mundial se instalar.

Embora o renminbi esteja longe de fazer frente ao dólar como moeda de reserva -a moeda chinesa representa só 2% das reservas e, a americana, mais de 50%-, esse cenário poderia ser rapidamente alterado em uma crise de fé dos credores quanto à economia dos EUA.

Raymond Thomas Dalio, um nova-iorquino que começou a investir aos 12 anos e que ficou bilionário ao aproveitar as oportunidades oferecidas pela América, conta ser capaz de reconhecer os méritos do gigante asiático porque ao longo de décadas de negócios e visitas frequentes ao país aprendeu a se distanciar dos preconceitos que embaralham a vista de muitos investidores quanto aos chineses.

Para que fique claro o quão a sério ele leva o país, em 1995, mandou seu filho Matt, de 11 anos, para morar na China e frequentar uma escola local para que pudesse aprender o idioma por imersão.

Em seu livro, Dalio não se propõe a fazer um manual sobre como investir nos tempos vindouros. O que ele apresenta é uma detalhada pesquisa sobre como a transição entre impérios econômicos muda o jogo dos investimentos, algo que invariavelmente traz períodos de grande sofrimento coletivo até a retomada da estabilidade.

Concordando ou não com ele, é difícil permanecer impávido às reflexões do autor. Entender o passado para se preparar para o futuro, por mais desafiador que isso possa parecer, soa como uma urgência após a leitura.

PRINCÍPIOS PARA A ORDEM MUNDIAL EM TRANSFORMAÇÃO

Preço R$ 129,90 (livro) e R$ 89,90 (ebook)

Autor Ray Dalio

Editora Intrínseca

Avaliação Muito bom

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