Mercado fechado

Megafusão entre Localiza e Unidas deve enfrentar resistência no Cade

JULIO WIZIACK
·5 minutos de leitura

A intenção de juntar forças das duas maiores empresas de locação de veículos fez disparar o preço das ações de Localiza e Unidas. O negócio, no entanto, deve sofrer restrições no Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica).

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Embora o acordo anunciado nesta quarta-feira (23) ainda não tenha sido protocolado no órgão de defesa da concorrência, nos bastidores técnicos têm a avaliação de que será difícil uma aprovação rápida porque se trata de um caso complexo, com impacto em todo o mercado.

A fusão criará uma gigante avaliada em R$ 48 bilhões, com previsão de faturamento anual de R$ 15 bilhões. A operação combinada criará uma frota de 468 mil veículos em circulação por 404 cidades.

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A nova companhia também estará presente na Argentina, no Chile, na Colômbia, no Equador, no Paraguai e no Uruguai, países em que a Localiza já está presente.

A Unidas não tem filiais fora do país, mas, no exterior, opera em parceria com a Enterprise, dona de redes como Alamo e National.

Dados divulgados pela empresas indicam que ambas concentraram 33,6% das receitas do setor no ano passado, incluindo todas as linhas de negócio, particularmente aluguel de veículos e gestão de frota (terceirização).

O maior problema no Cade será a elevada concentração no segmento de aluguel de veículos. A nova empresa será detentora de 65% das receitas desse ramo. Sozinha, a Localiza já detém 51% de participação, segundo informações divulgadas pela empresa para analistas de mercado.

Para técnicos do Cade, a Movida, segunda com maior participação (17%), poderá enfrentar nos próximos anos um problema de escala na competição. Isso afetará seu desempenho e sua perspectiva de crescimento.

Para eles, em um primeiro momento, a Movida poderia se beneficiar de um esperado aumento do preço das locações por causa da fusão.

Quando a Avianca mergulhou em recuperação judicial e deixou de realizar voos, os preços das passagens sofreram alta.

Nesse aspecto, há diversas variáveis que terão de ser consideradas na análise do Cade. Um exemplo: se as montadoras darão melhores condições para a Movida adquirir veículos como prazos maiores --algo que poderia compensar os efeitos da concentração.

Na gestão de veículos (que inclui terceirização de frota), a Unidas é a líder, com 16% de participação. Esse mercado é mais pulverizado, com empresas de menor porte dividindo 63% das receitas.

Nesse ramo, a empresa fundida ficaria com 21% de participação, um ponto percentual acima do patamar de concentração considerado aceitável pelo Cade.

A previsão é que o caso só chegue ao conselho no segundo trimestre de 2021. A expectativa no mercado é que a operação seja aprovada com remédios --condicionantes impostas pelo conselho como fechamento de lojas ou venda de ativos.

As empresas não podem implementar a fusão sem aval preliminar do Cade. Os acionistas também precisam aprovar o acordo em assembleia-geral.

Nessa frente, não deverá haver resistência porque o anúncio fez as ações das duas empresas na Bolsa registrarem alta. Os papéis da Unidas subiram 17,27%, fechando a R$ 24,85. A Localiza avançou 13,97%, para R$ 58,97.

Caso o negócio seja efetivado, a Localiza passará a deter o total de ações da Unidas, e os acionistas desta receberão papéis da primeira na relação de troca. No final da transação, 76,85% da nova companhia ficará sob controle da Localiza e 23,15% com a Unidas.

Luís Fernando Porto, presidente-executivo da Unidas, disse em nota que a "união das duas companhias contribuirá para a criação de uma operação mais robusta".

Já o presidente da Localiza, Eugênio Mattar, afirmou que a nova empresa irá trazer mais investimentos em inovação tecnológica, desenvolvimento de plataformas e diversificação do portifólio da nova marca.

O negócio foi fechado no momento em que a pandemia da Covid-19 provoca uma das mais agudas crises financeiras no país.

Mesmo assim, o aluguel de frota deu fôlego ao setor nesse período, fazendo com que as empresas se mantivessem no azul no segundo trimestre.

Também ocorre pouco depois da saída de Salim Mattar, um dos fundadores da Localiza, da Secretaria Especial de Desestatização e Privatizações do Ministério da Economia.

Salim não retornou para a empresa e, atualmente, dedica-se à difusão dos benefícios de uma economia liberal. Ele ministra palestras por meio do IFL (Instituto de Formação de Líderes).

Para o mercado financeiro, a presença de Salim no governo poderia sinalizar um conflito de interesses na análise do Cade, o que teria contribuído para sua decisão de deixar a equipe do ministro Paulo Guedes (Economia).

Segundo a Localiza, Salim se desligou da administração da companhia em dezembro de 2018.

Cerca de duas semanas após a saída de Salim do governo, a possível combinação de Localiza e Unidas passou a ser discutida por investidores. Na segunda (21), passou a circular a apresentação com os detalhes da fusão, publicado nesta quarta pela Localiza em seu site de relações com investidores.

Segundo a CVM (Comissão de Valores Mobiliários), a divulgação de fato relevante deve ser feita a todo o mercado simultaneamente à veiculação da informação por qualquer meio de comunicação, inclusive em reuniões de entidades de classe, investidores, analistas ou com público selecionado, no país ou no exterior.

Por meio de sua assessoria de imprensa, a Localiza afirma que tratou a operação de modo sigiloso, "dentro dos padrões éticos, legais e de governança exigidos para um acordo como este", e que não foram identificadas movimentações atípicas nas ações nos pregões que antecederam a divulgação. "A alta no preço do papel somente depois do anúncio indica que não houve vazamento."

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