Mercado fechado

Medo de automação faz com que britânicos desistam de ter filhos

O ‘trauma provocado pela defasagem tecnológica’ está afetando a saúde mental, a produtividade e o desejo de ter filhos dos britânicos. Foto: Aditya Romansa/Unsplash

Mais de um quarto (28%) dos trabalhadores do Reino Unido têm tanto medo de serem substituídos pela tecnologia no ambiente de trabalho que estão adiando o momento de ter filhos, diz um novo estudo.

SIGA O YAHOO FINANÇAS NO INSTAGRAM

BAIXE O APP DO YAHOO FINANÇAS (ANDROID / iOS)

O The Returnship Report da CWJobs investigou os desafios enfrentados pelos empresários quando os funcionários voltam ao trabalho após uma ausência prolongada, como uma licença maternidade ou paternidade.

As descobertas indicam que, embora a capacidade da tecnologia de facilitar a vida profissional das pessoas seja inegável, ela também contribui para aumentar o estresse, a ansiedade, e pode influenciar o planejamento familiar, já que muitos trabalhadores se preocupam com a “defasagem tecnológica” e a possibilidade de serem “deixados para trás” enquanto a tecnologia continua evoluindo na sua ausência.

Leia também

O relatório analisou 2 mil trabalhadores que tiraram licença de mais de 3 meses do trabalho, nos últimos 10 anos. Entre os que voltaram a trabalhar, quase metade (45%) relataram que a tecnologia do ambiente de trabalho havia mudado ou foi completamente revisada, criando uma infinidade de problemas emocionais para os funcionários britânicos.

Dois em cada cinco trabalhadores confessaram ter se sentido “deixados para trás” quando voltaram ao trabalho; 57% afirmaram que a sensação no dia do retorno foi semelhante à do primeiro dia na empresa; e 36% tiveram dificuldade para lidar com as novas tecnologias que haviam surgido na sua ausência.

O impacto do trauma provocado pela defasagem tecnológica é tão intenso que este aspecto está prejudicando muito a saúde mental da população do Reino Unido, a produtividade e até o desejo de ter filhos. Quase dois em cada cinco britânicos (38%) afirmaram que o retorno ao trabalho foi tão estressante que eles se sentem nervosos ou ansiosos só de pensar em outra licença; para 28%, a experiência do retorno foi tão negativa que fez com que eles desistissem de ter filhos.

O custo empresarial

A rápida evolução da tecnologia no ambiente profissional não afeta apenas as emoções da força de trabalho, mas também a produtividade. Em média, os trabalhadores britânicos demoraram cerca de um mês – 4,4 semanas – para sentir que recuperaram a produtividade que tinham antes da ausência, com os avanços tecnológicos sendo citados como um dos obstáculos mais difíceis de superar.

Um terço dos participantes da pesquisa disse que levou de um a seis meses para se acostumarem completamente com as novas tecnologias adotadas enquanto estavam de licença, além dos 38% que admitiram ter enfrentado dificuldades para lidar com processos do dia a dia e tarefas que haviam sido alteradas pela introdução das novas tecnologias.

Reduzindo o impacto

Considerando os custos humanos e empresariais associados ao trauma decorrente da defasagem tecnológica, há uma clara necessidade de que os empresários criem ações para garantir que o período de retorno ao trabalho seja mais fácil para seus funcionários.

Infelizmente, a demanda por um apoio extra para ajudar os funcionários a voltar ao trabalho parece ser significativamente superada pela disponibilidade deste tipo de apoio. Quase quatro em cada cinco britânicos (79%) afirmaram ter solicitado algum tipo de treinamento tecnológico ao retornar ao trabalho, mas apenas 31% receberam o treinamento completo.

Um quinto não recebeu nenhum tipo de treinamento. Como resultado, 38% se sentiram deixados para trás por seus empregadores, e não tiveram o apoio necessário para voltar ao ritmo anterior.

Entre os entrevistados, apenas 21% já haviam ouvido falar sobre “returnships”, uma espécie de “estágio” para cargos de alto nível que funciona como uma ponte para o retorno ao trabalho. Ao entenderem do que se tratava, 57% afirmaram que teriam se beneficiado deste tipo de programa.

Belinda Parmar, CEO do The Empathy Business e antiga fundadora do Lady Geek, disse: “[O estudo] é muito necessário, já que destaca o quão desafiador o retorno ao trabalho pode ser para muitos de nós. Isso não é aceitável”.

“Passamos mais de 50 anos das nossas vidas no trabalho – isso é mais tempo do que passamos com as nossas famílias. Precisamos que as empresas criem programas que ajudem os funcionários a se integrar com facilidade ao ambiente de trabalho e a sentir que pertencem àquele lugar novamente”.

“Eu lembro que me senti perdida quando voltei ao trabalho. Eu segui em frente nas minhas experiências de vida, mas senti que o escritório havia mudado sem mim. Precisamos preencher esta lacuna. O conceito de ‘dias para manter contato’ é uma boa ideia, mas essas iniciativas costumam envolver poucos dias e pouco esforço direcionado para a defasagem das habilidades. Precisamos de intervenções mais empáticas e de um foco muito maior se queremos criar o ambiente de trabalho do futuro”.

Abigail Fenton