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Medo do coronavírus gera cautela no Ibovespa; dólar varia pouco

Ana Carolina Neira, Marcelo Osakabe e Victor Rezende

Coronavírus já matou 17 pessoas na China e infectou mais 600, apesar dos esforços dos agentes de saúde para conter o problema O clima de cautela visto nos mercados globais também contamina o Ibovespa neste pregão, com investidores buscando ativos mais seguros no mundo todo. O que alimenta o movimento é a disseminação do coronavírus, que já matou 17 pessoas na China e infectou mais 600, apesar dos esforços dos agentes de saúde para conter o problema.

Após alguma tranquilidade ontem, agora os analistas avaliam quais seriam os impactos econômicos de disseminação do vírus. A preocupação é redobrada porque a partir de amanhã começa o Ano Novo Lunar chinês, responsável por atrair muitos turistas ao país asiático e também um período em que a população local aproveita para viajar. Assim, os riscos de contágio são muito maiores, até porque é um feriado longo, que dura uma semana.

Diante do risco externo, os papéis ligados às commodities exercem maior pressão sobre o Ibovespa. Às 13h44, o índice recuava 0,44%, aos 117.875 pontos e um forte giro financeiro, que soma R$ 5,9 bilhões. Nas mínimas do dia, chegou aos 116.906 pontos.

Vale ON (-2,42%), Petrobras (-1,32% a ON e -0,24% a PN), Bradespar PN (-2,72%) e Suzano ON (-2,50%) recuavam no mesmo horário. A Vale também é o segundo ativo mais negociado de todo o mercado à vista, enquanto as ações preferenciais da estatal ocupam o terceiro lugar.

A petroleira cai devido ao recuo visto nos preços internacionais do petróleo: o Brent cede 2,67%, enquanto o WTI recua 2,93%, nas mínimas do dia. O maior receio dos agentes é de que a disseminação do vírus gere efeitos negativos na economia asiática, o que poderia afetar a demanda por produtos derivados do petróleo.

Já a Vale, além de um movimento de correção, também recua refletindo a queda de 3,35% no preço do minério de ferro na China.

Entre as poucas ações que conseguem subir nesta sessão estão Carrefour Brasil ON (2,79%), Braskem PNA (4,62%) e Banco do Brasil ON (2,77%).

No caso da varejista, a demanda pelos papéis vem de um resultado operacional acima do esperado no quarto trimestre de 2019. As vendas do Carrefour subiram 11,4% no período, para R$ 16,8 bilhões, na comparação com o mesmo período do ano passado. Com as vendas de gasolina, o faturamento soma R$ 17,64 bilhões, alta de 11,5%. A rede de atacarejo Atacadão cresceu 10,8% de outubro a dezembro, para R$ 11,8 bilhões.

“Esse desempenho forte parece ser resultado de diversas iniciativas implementadas nos trimestres anteriores, como melhor assertividade dos estoques, melhor execução logística e reposição de preços”, afirma o Credit Suisse em relatório.

Já Banco do Brasil sobe 2,61%, reagindo à notícia divulgada pelo Valor de que a gestora de fundos da instituição, a BB DTVM, deve ser privatizada até junho. A previsão é de que o parceiro seja estrangeiro, possibilitando que os produtos do banco alcancem um público maior.

Por fim, a Braskem, que já vem de um período de valorização após fechar um acordo de R$ 2,7 bilhões para ajudar e compensar moradores afetados pelas atividades da empresa em Maceió, está de volta ao radar dos investidores diante de comentários sobre a retomada do processo de venda da companhia.

Ralph Orlowski/Bloomberg

Dólar

O dólar comercial opera em leve queda nesta quinta-feira, com emissões de empresas brasileiras no exterior alimentando a expectativa pela entrada de fluxo e reduzindo o ambiente mais arisco a ativos de risco no exterior por causa do surto de coronavírus na China. Por volta das 13h46, a moeda americana cedia 0,05%, aos R$ 4,1732. Mais cedo, tocou mínima intradiária de R$ 4,1569.

O real é uma seis divisas que ganham terreno contra o dólar, em um dia de aversão ao risco mais pronunciado por causa da situação na China. A lista de maiores valorizações é encabeçada pelo iene japonês (0,43%), moeda que se beneficia de momentos de tensão global.

“A preocupação com a China persiste, mas a desvalorização acima da média do real nos últimos dias e o sucesso de emissões lá fora de Bradesco e Eletrobras projeta uma demanda maior do investidor estrangeiro pelas empresas brasileiras”, diz Jefferson Lima, responsável pela mesa de câmbio e juros da CM Capital. “A expectativa é que, quando uma companhia brasileira faz sucesso, grandes empresas tendem a emitir também.”

A expectativa com novas emissões pode ajudar o fluxo cambial a não repetir o rombo recorde de 2019, quando ficou negativo em mais de US$ 44 bilhões. Na semana passada, houve saída líquida de US$ 874 milhões, segundo informações do Banco Central. Assim, o saldo acumulado de 2020 ficou em apenas US$ 654 milhões.

“Para 2020, esperamos uma melhora do fluxo, influenciado principalmente pela demanda doméstica mais forte e progressos na agenda reformista e de privatizações”, diz o BTG em relatório. “Por outro lado, juros ainda baixos devem manter o fluxo em território negativo.”

Com a maior parte do mercado apostando em novo corte da Selic em fevereiro, a divulgação de um IPCA-15 ligeiramente acima do esperado fez recuar a confiança em tal movimento. Segundo o IBGE, o indicador desacelerou de 1,05% em dezembro para 0,71% em janeiro, praticamente em linha com a mediana das projeções de analistas colhida pelo Valor Data, de 0,70%.

Juros

A sala de espera para os números oficiais de inflação era grande e, após sucessivos dias de queda, os juros futuros se ajustaram em alta ao IPCA-15 de janeiro, que ficou em 0,71%, apenas 0,01 ponto percentual acima do consenso do mercado. A possibilidade de novos cortes nas taxas de juros neste ano, contudo, se manteve sobre a mesa diante do comportamento benigno dos núcleos de inflação e da perspectiva de desaceleração do IPCA em 2020.

A taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2021 subia de 4,34% no ajuste anterior para 4,40%; a do DI para janeiro de 2022 avançava de 4,95% para 5,03%; a do contrato para janeiro de 2023 ia de 5,54% para 5,62%; e a do DI para janeiro de 2025 passava de 6,30% para 6,34%.

“Tivemos uma inflação média em torno de 0,3% de janeiro a novembro do ano passado. Uma vez que a pressão das carnes for absorvida e acomodada, os índices de inflação devem voltar à normalidade”, afirma Tatiana Pinheiro, economista-chefe da BNP Paribas Asset Management. Para ela, os dados mostram que o choque de carnes foi primário, “com quase nenhum efeito secundário”, dando permissão à autoridade monetária para dar prosseguimento ao ciclo de afrouxamento monetário.

Assim, a gestora espera duas reduções adicionais de 0,25 ponto percentual no juro básico em fevereiro e em março, o que levaria a Selic a 4% no fim do primeiro trimestre. Uma normalização monetária, no cenário base da BNP Asset, teria início no fim deste ano e levaria a taxa de juros a 6,5% em 2021.

Em relatório enviado a clientes, o chefe de pesquisa macroeconômica para América Latina do Goldman Sachs, Alberto Ramos, escreve que tanto o índice “cheio” quanto os núcleos “permanecem um pouco confortáveis”. Ele, contudo, nota que apesar de uma reversão parcial esperada nos próximos meses, existem sinais de fôlego adicional tanto nos núcleos de inflação quanto nos serviços, “principalmente pelo impacto nos alimentos consumidos fora de casa”. A média de sete núcleos de inflação subiu de 3,14% em dezembro para 3,20% agora, segundo o IPCA-15.

Analista econômico da CM Capital Markets, Alexandre Almeida também aponta que os núcleos permanecem em níveis confortáveis, o que permitiria ao BC cortar o juro básico uma vez mais, levando a Selic a 4,25% na primeira semana de fevereiro.

“Na última decisão, o BC deixou bem claro que o cenário exige cautela e depende tanto da evolução do nível de atividade econômica quanto das expectativas de inflação. Quando observamos os núcleos, que têm correlação muito forte com os dados de atividade, ainda vemos os números muito baixos e pouco reativos”, afirma Almeida. Assim, para ele, com os dados de novembro abaixo do esperado pelo mercado, um novo corte na Selic deve ser efetuado mês que vem.