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Medo, ansiedade e apreensão: participantes do Enem temem que tensão atrapalhe desempenho na prova

Anita Efraim
·8 minuto de leitura
BRAZIL - 2020/10/18: In this photo illustration the Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM) logo seen displayed on a smartphone. (Photo Illustration by Rafael Henrique/SOPA Images/LightRocket via Getty Images)
Prova acontecerá nos próximos domingos, 17 e 24 de janeiro (Foto: Rafael Henrique/SOPA Images/LightRocket via Getty Images)

Nos dois próximos domingos, 17 e 24 de janeiros, 5,8 milhões de brasileiros farão o Exame Nacional do Ensino Médio. A prova é a porta de entrada para todas as universidades federais, além de algumas faculdades particulares e ainda ser critério para seleção do Prouni.

Entre os participantes do Enem, apenas 96 mil farão o exame de forma digital, modalidade inédita. Os outros 5,6 milhões terão de se deslocar para ir ao local de prova em meio à pandemia do coronavírus. A situação gera apreensão por parte dos participantes.

É o caso de Brunella França, de 33 anos, moradora de Vitória, Espírito Santo. Jornalista, ela quer fazer o exame para cursar Letras em inglês, mas está com medo da situação que vivenciará nos próximos finais de semana. Brunella relata que está isolada desde março e preferia que o exame fosse adiado.

“Estou respeitando a quarentena desde março e me assusta muito prestar a prova neste momento. Os dados mostram que o número de novos casos e de óbitos está subindo. E a data da prova é justamente quando teremos os novos casos relacionados às aglomerações do Ano Novo. O MEC vai se responsabilizar pelos candidatos que forem contaminados pelo novo coronavírus no dia do ENEM?”, questiona.

Brunella já chegou a pensar em desistir da prova e tem medo de que todo o contexto atrapalhe o desempenho. “Certamente o contexto vai atrapalhar o desempenho. Preocupação com a máscara, higienização das mãos, com idas ao banheiro. Não é possível fazer a prova sem precisar ir ao banheiro, por exemplo. Fora que, como já vimos, o senso de coletividade anda escasso. Eu só posso responder pelas minhas ações, pela minha consciência. Mas não tenho como saber se quem vai fazer a prova na mesma sala que eu, ou mesmo os fiscais e aplicadores, estão se cuidando, respeitando o distanciamento social, cumprindo as medidas sanitárias para evitar a contaminação. Não tem como olhar para as pessoas e não sentir medo, receio. E isso tudo em meio à aplicação de uma prova que vai decidir a entrada na universidade para milhões de pessoas.”

ASPECTOS PSICOLÓGICOS

A psicóloga Joana Singer avalia que, certamente, haverá um impacto geral no desempenho dos alunos no Enem, dadas as circunstâncias. “O medo da contaminação pode competir com o desempenho durante a prova. Os cuidados, os protocolos também exigem uma série de atenções e cuidados que também podem ser concorrentes à concentração”, explica.

A psicóloga pondera que a queda de aproveitamento na prova deve ser geral, já que os concorrentes estão submetidos aos mesmos protocolos. No entanto, aqueles candidatos que são de grupo de risco ou vivem com alguém que seja parte do grupo de risco podem ser mais afetados. “Essa ansiedade e esse medo podem interferir na concentração, com certeza.”

Sobre o uso da máscara, Joana afirma que, para alguns candidatos pode ser mais cansativo. “Com isso, interfere mais na disposição física que, por sua vez, pode interferir na concentração.”

O estudante Gustavo Adamo Marques de Pietro descreveu estar aterrorizado em fazer a prova, especialmente após fazer a prova da Fuvest no último domingo, 10. Morador de Adamantina, interior paulista, ele tem notado o aumento de casos na cidade. “Vou fazer presencialmente e só pela ‘muvuca’ que foi a Fuvest ontem, estou preocupadíssimo sobre como vai ser o ENEM”, relata.

Apesar do medo, ele nem sequer pensou em desistir do exame. “É meu ano de entrar em uma faculdade, a pressão é muito maior. Eu sei que um adiamento é muito difícil e trabalhoso de acontecer, mas é uma pegadinha de mal-gosto fazer isso com a gente”, desabafa.

Na última sexta-feira, 8, a Defensoria Pública da União pediu que a Justiça adiasse a prova do Enem. O documento foi assinado pela União Nacional dos Estudantes (UNE), a União Brasileira dos Estudantes Secundaristas (Ubes), a Campanha Nacional pelo Direito à Educação e a Educafro.

Até o momento, no entanto, não há qualquer sinalização do Ministério da Educação ou do Inep de que a prova pode sofrer uma nova alteração de data. O Enem aconteceria em novembro de 2020, mas foi adiado por causa da pandemia.

Apesar do medo de fazer a prova, Hiliane de Melo, 19 anos, prefere que a prova não seja adiada. “Só irá gerar mais estresse, tanto para quem estudou quanto para quem não estudou também”, opina.

A estudante só teve aulas para o Enem durante um mês, entre novembro e dezembro. “Sei que não irei sequer competir com quem está há meses estudando em escolas particulares e cursinhos. O medo está sim presente, muito medo. Mas o MEC não vai atrasar esse Enem: não nos ouviram nem qual data preferimos, imagine adiar faltando 7 dias para a prova”, diz. “É mais fácil para mim fazer essa prova e tirar essa ansiedade do peito logo.”

MEDIDAS SANITÁRIAS E RISCOS

O Inep, responsável pela realização do Enem, divulgou nove medidas que devem ser tomadas para tornar a prova mais segura. O primeiro é o uso de máscaras, obrigatório durante a realização do exame e também pelos aplicadores da prova. O candidato poderá levar mais de uma para efetuar a troca e pode tirá-la para comer e ingerir líquidos.

O segundo ponto é a higienização das mãos, que deverá ser feita durante a identificação do participante, antes que ele entre na sala de aplicação da prova. Outro aspecto comtemplado é o lanche, que pode ser levado, desde que respeite “os protocolos de prevenção contra a COVID-19”, segundo o documento divulgado pelo Inep.

De acordo com o Inep, as salas de prova serão higienizadas e organizadas para garantir o distanciamento adequado. Todas devem ter álcool em gel disponível para os candidatos. Quem for do grupo de risco estará em salas diferentes, com apenas 25% da capacidade máxima. O Inep ainda pede para que pessoas com sintomas da covid-19 e de outras doenças infecciosas não realizem o exame.

Ainda assim, a pneumologista e pesquisadora Leticia Kawano Dourado considera que a realização do exame oferece riscos. “A covid-19 está em comportamento acelerado no Brasil, uma subida no número de casos enorme. Isso implica em riscos quando você tem aglomeração”, explica Letícia, que é membro do desenvolvimento de diretrizes em manejo da covid-19 da Organização Mundial da Saúde.

“Quando mais covid a gente tem circulando na comunidade, maior o risco de atividades que implicam em aglomeração. O Enem, em si, é uma atividade de risco quando você tem a covid circulando. Porque ele é aglomeração em lugar fechado por tempo prolongado. A gente sabe que, nesse cenário, só o uso de máscara simples não é o suficiente. Em tese, se forem manter o Enem, precisaria ser [máscara] N95 e PFF2, porque são tipos de máscara que tem capacidade de proteção”, indica.

Segundo Leticia, é uma situação em que, se houver um infectado, especialmente expelindo grande carga viral, muitas pessoas podem ser infectadas. “Desde dentro da sala, mesmo no banheiro e no trajeto de volta para a sala. O tempo todo vai ter aglomeração e é um problema bem sério”, explica.

“Esses jovens voltam para casa, período de incubação é de em torno de cinco dias, e aí, se eles transmitiram dentro de casa, para familiares de grupos de risco, a gente vai começar a ver as consequências do Enem. Em cinco dias, os casos novos e 20 dias após a prova, começamos a ver as hospitalizações, então, é um risco sério”, aponta.

Ana Laura, 17 anos, mora em Porto Alegre, Rio Grande do Sul, faria o Enem 2020 como treineira, ou seja, está no segundo ano do ensino médio e realizaria o exame para conhecer a prova. Pela segurança da família, desistiu de fazer o Enem. “Eu convivo com a minha avó que, é idosa, e com meu pai, que tem diabetes tipo 1 desde criança. Além disso, eu e a minha irmã temos histórico com problemas respiratórios, o que faz com que a doença seja uma ameaça ainda maior no meu círculo familiar”, relata.

Em 2019, Ana Laura fez o Enem no mesmo lugar em que realizaria a prova este ano. Ela relata que, em alguns banheiros, não havia porta ou água e questiona se o local estava pronto para receber os candidatos durante a pandemia.

Mesmo sendo treineira, ela lamenta ter de desistir da prova. “Embora eu seja treineira, não fazer a prova, além de desperdiçar o dinheiro da inscrição, que não é barato no recorte do salário mínimo do ano em questão vai interferir negativamente no desempenho dos treineiros, pois deixa-nos mais despreparados, ansiosos. Tenho sorte de ter feito Enem no ano passado, mas para muitos, que assim como eu não irão esse ano, será um tiro no escuro. Temos que lembrar que não é só uma prova, mas um grande impasse no futuro de uma geração”, declara.

A filha de Felipe Ferreira fez as provas da Unicamp e também da Fuvest como treineira nos últimos finais de semana. Nos próximos domingos, prestará o Enem. Preocupado, o pai tentou entrar em contato com as instituições responsáveis por todas as provas. Questionou porque não foram elaboradas formas alternativas de os exames serem realizados, como uma prova online, pelo menos para os treineiros.

“Expliquei que minha filha (e minha esposa) não saem de casa, desde final fevereiro/começo de março, que estão em isolamento e obtive resposta padrão de rodadas instituições. Que se atentariam aos procedimentos de segurança e saúde. Nada além disso”, relatou.