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Mbé: 'Não é só porque sou negro e favelado que vou fazer funk e hip-hop'

·4 min de leitura

Para Luan Correia, de 25 anos, nascido e criado na Rocinha, esta e a próxima semanas serão, em suas palavras, “as mais importantes da minha vida profissional”. Na quinta-feira, ele esteve na Bienal de São Paulo apresentando, com Marco Scarassatti, uma improvisação experimental inspirada na palavra iorubá Ìfura (que significa “intuição”). E, nesta segunda, Luan inaugura, na abertura da 11ª edição do festival carioca Novas Frequências, a instalação sonora “Poesia de criolo”, que fica até quinta-feira, das 16h às 21h, no Alalaô Kiosk, em frente à praia do Arpoador. Tudo isso foi fruto de “Rocinha”, álbum de colagens sonoras que ele lançou no streaming no começo do ano, sob a alcunha de Mbé.

— Tem gente que acha que eu saí gravando a Rocinha. O disco conta a história de muita gente, mas também conta um tanto da minha história, de como eu vejo a Rocinha — diz Luan, que na verdade gravou o disco no quarto de sua atual casa, no Rio Comprido, e que resiste bravamente aos papéis destinados na música aos moradores de favela. — Não é só porque eu sou um cara negro e favelado que eu vou fazer funk e hip-hop, ou que eu vou mandar passinho. O disco também é para dizer que não existe só a Rocinha do forró, do pagode e do funk, tem milhares de Rocinhas.

Esse disco, no qual Luan faz um inventário da existência negra no Brasil a partir dos muitos trechos sonoros que coletou, de falas do programa “Provocações” (de Antônio Abujamra) ao canto de Clementina de Jesus (1901-1987) e Juçara Marçal, reflete os caminhos sinuosos da sua própria vida. Seu padrinho, patrão de sua mãe trabalhadora doméstica, o introduziu no mundo do rock e do cinema. O estudo, com bolsa integral, em colégio particular da Zona Sul, abriu caminho para que ele acompanhasse a cena independente do rock em casas como a Audio Rebel, em Botafogo — da qual se tornou um frequentador assíduo e acabou convocado para virar um faz-tudo.

E, na Audio Rebel, fascinaram-lhe as noites de música experimental da Quintavant, organizadas pelo produtor Bernardo Oliveira. Ali, o garoto que tocava bateria e participava do coletivo de rap Justa Causa deu lugar ao produtor eletrônico Mbé (palavra em iorubá que significa “ser e existir”).

— Comecei a samplear e resolvi fazer um trabalho meu. Eu mandava umas coisas para o Bernardo e lembro que uma das primeiras que pegaram ele foi uma que eu fiz com falas, há uns três anos — conta Luan, que entrou então de cabeça nas pesquisas no Soulseek (programa de compartilhamento de arquivos musicais). — Lá, encontrei a área da gravação de campo, a minha maior viagem. Achei gravações no continente africano dos anos 1950 a 1970 e comecei a pirar nelas não só pela música, mas pela ambiência ao fundo. Ficava imaginando os pássaros, a mata, os rios, as danças, era um som muito imagético. Tentei colocar essa ideia na minha música.

— A [Audio] Rebel é uma grande encruzilhada, desde sempre a gente teve uma relação de ouvir música, conversar sobre política, história do Brasil e questões relativas à negritude. E o Luan é um cara muito atento e curioso, foi natural, quando a gente abriu o selo, convidá-lo para participar — recorda-se Bernardo Oliveira, que acompanhou toda a produção de “Rocinha” (cuja capa é a foto da mãe do artista na carteira de trabalho). — Luan usa não só o discurso, mas a sonoridade do discurso. As falas no “Rocinha” são pontuais e até dizem alguma coisa, mas elas têm muito mais uma função musical. O Luan é um artista que tem uma visão, e eu entendo que ele fez algo novo.

Criador e curador do Novas Tendências, Chico Dub acompanhava Luan desde que o garoto trabalhou, algumas vezes, como técnico de som de shows do festival realizados na Audio Rebel.

— É muito bacana ver um menino tão jovem começando de um jeito, resolvendo os pepinos de uma casa, e de repente se tornando um artista, ao lançar esse “Rocinha”, que é uma obra-prima — elogia Chico. — Esse disco é um trabalho com uma autoria muito singular, que só um menino nascido e criado na Rocinha, vivendo esse mundo do experimental, poderia criar. Não tem ninguém fazendo o que ele fez.

Escalado como DJ de abertura do show de Juçara Marçal e Kiko Dinucci em 19 de janeiro, no Circo Voador, Luan Correia celebra o reconhecimento de “Rocinha” — que o levou inclusive a criar a trilha para um desfile do estilista Guto Carvalhoneto:

— O disco era minha última cartada, tinha medo de ele não ser compreendido.

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