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'Maya e os 3 Guerreiros' mostra riqueza cultural da América Latina pela música

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*ARQUIVO* São Paulo, SP, Brasil, 21-08-2019: Still Netflix  (foto Gabriel Cabral/Folhapress)
*ARQUIVO* São Paulo, SP, Brasil, 21-08-2019: Still Netflix (foto Gabriel Cabral/Folhapress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Festas da realeza já foram interrompidas de forma abrupta em animações antes -maldições estragaram do batizado em "A Bela Adormecida" a um casamento em "A Pequena Sereia". Mas em "Maya e os 3 Guerreiros", o baile e a feitiçaria que sai dele são a porta de entrada para uma aventura diferente do que costumamos ver no gênero, mais diversa, que apresenta um caldeirão de culturas latino-americanas ao público hollywoodiano.

Com estreia marcada para sexta, a nova série animada da Netflix narra a jornada de Maya Teca -sim, um aceno para as civilizações maia e azteca-, a herdeira de um poderoso império originário numa América Latina ficcionalizada. No dia de sua coroação, um mensageiro do deus do submundo aparece querendo sacrificá-la por causa de uma profecia, e rapidamente a garota se vê no meio de uma guerra.

Para "Maya e os 3 Guerreiros", uma coprodução entre Estados Unidos e México, o gigante do streaming reuniu um time estrelado. Na direção está Jorge R. Gutiérrez --do longa "Festa no Céu"--, no elenco de vozes original estão Zoe Saldana, Gael García Bernal, Diego Luna, Queen Latifah, Alfred Molina, Rosie Perez e a lendária Rita Moreno, e compondo os temas musicais está o argentino Gustavo Santaolalla, vencedor de duas estatuetas do Oscar.

Ao todo, são nove episódios acompanhados da música criada pelo roqueiro, premiado com o homenzinho dourado por seu trabalho em "O Segredo de Brokeback Mountain", de 2005, e "Babel", dirigido pelo mexicano Alejandro G. Iñárritu no ano seguinte.

"Em 'Maya', todo o universo de Jorge R. Gutiérrez foi expandido. Ele foi de 'O Livro da Vida', centrado no Dia dos Mortos, uma tradição mexicana, para uma história muito mais latino-americana, geograficamente mais ampla", diz Santaolalla. "Isso me deu a chance de experimentar diferentes tipos de música --cúmbia, huapango, marcha camión, rumba. A ideia era estar livre, sem preconceitos para misturar e criar uma nova fusão de ritmos, algo que eu faço desde o começo da minha carreira."

Antes de Hollywood, Santaolalla fundou, no fim dos anos 1960, a banda Arco Iris, pioneira do chamado rock nacional, que adicionou instrumentos, batidas e sons tradicionalmente latinos às guitarras do gênero americano. Ele deixou o grupo em 1975, depois que seus membros adotaram um estilo de vida anti-rock and roll, que bania drogas, álcool e até carne vermelha.

Ele partiu então para Los Angeles, onde seguiu atuando como roqueiro. Suas primeiras aparições no cinema foram por acaso, em filmes que usavam as canções de suas bandas na trilha. Foi no fim dos anos 1990 que o argentino passou a trabalhar diretamente para as telas, compondo e produzindo trilhas para filmes como "Amores Brutos" e "Diários de Motocicleta", do brasileiro Walter Salles.

"Eu tive sorte e fui abençoado por ganhar prêmios como o Oscar e o Globo de Ouro, mas eu nunca me senti, de fato, parte de Hollywood. Eu sou parte da indústria, estou em Hollywood nesse momento e é isso", diz Santalaolla.

Hoje aos 70 anos -40 deles passados nos Estados Unidos-, o compositor diz que tenta levar sua herança cultural a todos os trabalhos que assina, o que é algo "natural e orgânico" mesmo quando a história pouco tem a ver com suas raízes latinas.

"Na trilha de 'Brokeback Mountain', por exemplo, eu adicionei uma guitarra do músico argentino Atahualpa Yupanqui -não que eu esperasse que o público americano fosse perceber isso, mas ao menos eu sei que essa referência está lá."

Para além de Hollywood, Santalaolla também sonorizou a trilha do premiadíssimo game "The Last of Us" e de sua sequência, ambientadas num mundo tomado por zumbis. Ambos os jogos foram premiados por sua música e, no ano que vem, darão origem a uma série da HBO, na qual o argentino também está envolvido.

Assim, aos poucos, ele vai espalhando sua latinidade, às vezes sorrateira e sutilmente, em grandes produções americanas --seja na televisão, no streaming, no cinema ou nos videogames.

No caso de "Maya e os 3 Guerreiros", as referências ficarão mais escancaradas --mas certamente serão percebidas pelo público de formas diferentes, dependendo de suas origens. A série, afinal, é descrita por seu criador e diretor, Jorge R. Gutiérrez, como uma enchilada.

"Minha metáfora é essa. Enchiladas são feitas em todo o México, e fora dele também, e cada um tem sua versão para o prato. Então, em 'Maya', eu estou combinando meus elementos preferidos e cozinhando uma nova história", diz ele.

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