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O aniversário que a Polícia Militar roubou de uma mãe

Ponte Jornalismo
·9 minuto de leitura
Maria Cristina e Danilo Amílcar, mãe e irmão de Denys Henrique | Foto: Caê Vasconcelos/Ponte Jornalismo
Maria Cristina e Danilo Amílcar, mãe e irmão de Denys Henrique | Foto: Caê Vasconcelos/Ponte Jornalismo

por Caê Vasconcelos

31 de dezembro de 2002. Maria Cristina Quirino Portugal avisa sua irmã: “Seu sobrinho vai nascer”. Como resposta, ela ouve: “Como assim? No último dia do ano?”. E ele veio. Às 15h17 daquela terça-feira, Denys Henrique Quirino da Silva nasceu, para alegrar ainda mais a virada de ano. Hoje, neste 31 de dezembro de 2020, ele festejaria os seus tão sonhados 18 anos. Ou como gostava de dizer: dezoitão.

Mas Denys nunca vai poder comemorar esse aniversário porque uma operação da Polícia Militar de São Paulo provocou a morte dele e outros 8 jovens no baile funk da DZ7 em Paraisópolis, em 1º de dezembro de 2019. Aquele dia ficou marcado como o Massacre de Paraisópolis. Denys tinha 16 anos. Até hoje ninguém foi responsabilizado pela sua morte dos nove jovens.

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No lugar de comemorar um aniversário, coube à Maria Cristina, hoje com 41 anos, lamentar uma perda. Mas não só: ela quis fazer do último dia do ano um dia de luta, por meio de um ato. Tudo foi idealizado por ela. Sozinha, começou a confeccionar cruzes de madeira com os nomes de cada um dos jovens mortos naquela madrugada: Denys Henrique, 16, Marcos Paulo Oliveira dos Santos, 16 anos, Dennys Guilherme dos Santos França, 16, Gustavo Cruz Xavier, 14, Gabriel Rogério de Moraes, 20, Mateus dos Santos Costa, 23, Bruno Gabriel dos Santos, 22, Eduardo Silva, 21, e Luara Victoria de Oliveira, 18.

Manifestantes mostram cruzes com os nomes do jovens mortos | Foto: Caê Vasconcelos/Ponte Jornalismo
Manifestantes mostram cruzes com os nomes do jovens mortos | Foto: Caê Vasconcelos/Ponte Jornalismo

Quando percebeu que não conseguiria terminar tudo até o dia 31, pediu ajuda aos demais familiares dos outros jovens e acionou a Rede de Proteção e Resistência ao Genocídio. Maria Cristina escreveu um texto. Com muita dificuldade, por causa da emoção, conseguiu ler as palavras na tarde desta quinta-feira, durante o protesto realizado no bairro do Limão, na zona norte da cidade de São Paulo, periferia onde Denys cresceu e morou até poucos dias antes de ser morto.

“Era para ser mais um dia de felicidade se ele estivesse aqui entre nós. O meu dever agora é não me calar, é falar da minha indignação de não poder abraçar o meu filho, por não poder ouvir a sua voz falando mamãe. Eu quero deixar aqui registrado que, quando ceifaram a vida do meu filho e dos outros oito jovens, tiraram deles muitos direitos que todos nós temos, como o direito de ir e vir, direito de defesa, mas o principal deles foi o direito à vida”, dizia o texto escrito pela mãe.

O ato foi simples, como definiu Maria Cristina, mas necessário. O horário escolhido foi proposital: marcado para às 14h, para que começasse às 15h, próximo ao horário em que ela deu à luz ao seu terceiro filho.

Protesto ocorreu no Limão, onde Denys cresceu | Foto: Caê Vasconcelos/Ponte Jornalismo
Protesto ocorreu no Limão, onde Denys cresceu | Foto: Caê Vasconcelos/Ponte Jornalismo

Maria queria passar o último dia de 2020 relembrando seu filho ao lado de outras pessoas. Cerca de 30 pessoas estavam no ato, que fechou a rua Capitão José Machado para chamar a atenção dos carros e gritar “presente” para cada um dos jovens mortos na ação da PM. O fechamento durou apenas cinco minutos, mas mesmo assim alguns motoristas, fechados em seus carros, reclamaram buzinando.

Em entrevista à Ponte, a vendedora Maria Cristina definiu 2020 como seu pior ano. “Pela perda, pela injustiça, pela falta de resposta, por ter que estar na luta sem ter psicológico. Foi o pior ano da minha vida.”

Interrompida pelo choro, a matriarca lembra como essa data era esperada pelo filho. “É a data que todo jovem sonho. Eu estou desde ontem imaginando isso: como ele estaria hoje. Se o Denys estivesse aqui ele ia estar agitando, vou falar como ele falaria: ‘vou agitar a minha festa, vou agitar os meus amigos’.”

Manifestantes se reuniram em praça no Limão, bairro em que Denys cresceu | Foto: Caê Vasconcelos/Ponte Jornalismo
Manifestantes se reuniram em praça no Limão, bairro em que Denys cresceu | Foto: Caê Vasconcelos/Ponte Jornalismo

“Ele estava com 16 anos e ansioso pelos 17, e eu falava diariamente: ‘olha, não vejo a hora de você ficar de maior logo para sair do meu lombo’. Nesse um ano eu me torturei com isso, porque eu preferia que ele estivesse aqui no meu lombo. Era só a minha maneira de falar para ele que ele estava muito ansioso pelos 18 anos”, define.

Denys era alegre, extrovertido e muito carinhoso, define Maria Cristina. “Às vezes eu acho que até magoa os meus outros filhos, mas ele era o meu filho mais amoroso. Mas não é mentira. A cada dez passos, dois ele separava para me chamar a atenção, me abraçar, me beijar, me fazer rir. Eu sinto falta de tudo isso, sinto falta das brigas também, porque como mãe a gente repreende.”

No seu último dia, lembra a mãe, Denys foi escondido ao baile da DZ7. “Não foi falta de respeito ele ter ido. Eu também já fui jovem, também saí escondido da minha mãe. Todas as vezes que eu saí escondido, eu sempre saí com a intenção de voltar. Tenho certeza que o meu filho também saiu com a mesma intenção. Sair, curtir um baile, que é a febre do momento, e voltar. No dia seguinte continuar a rotina normal. Mas isso foi impedido. Essa é a pior parte”, lamenta.

Paulo Silva, primo de Denys, carrega cruz com o nome do jovem | Foto: Caê Vasconcelos/Ponte Jornalismo
Paulo Silva, primo de Denys, carrega cruz com o nome do jovem | Foto: Caê Vasconcelos/Ponte Jornalismo

“Os direitos que tiraram dele são tão pesados dos direitos que eles giraram de mim. Eles não têm noção da gravidade disso. Eles acham que matar o filho da gente é simplesmente matar e ficar por isso mesmo. Mas eles esquecem de olhar a outra parte. Meu filho tinha família, meu filho trabalhava, meu filho estudava. Assim como os outros meninos, cada um tinha a sua história. Isso não tem perdão”, completa Maria.

A mãe conta que foi colocada em um lugar de luta por outras pessoas, mas entendeu que ali deve ficar. “Eu vou até o fim para que outros jovens não sejam privados de seus direitos como o meu foi, como foi o filho da Adriana, como foi o filho da dona Graça, como foi o filho da Raquel, como foi a família da Luara, que não tinha mãe, mas tinha o direito”, diz.

Família de Denys Henrique se abraçando durante ato | Foto: Caê Vasconcelos/Ponte Jornalismo
Família de Denys Henrique se abraçando durante ato | Foto: Caê Vasconcelos/Ponte Jornalismo

À Ponte, Danilo Amílcar, 20 anos, irmão de Denys, lamenta o fato de “envelhecer sem a presença dele”. “É terrível. Meu irmão faria 18 anos… é a fase que ele esperava muito, que representa se tornar um adulto. Amanhã se completa um ano e um mês que a gente não tem mais ele. É aterrorizante pensar que meu irmão nunca mais vai voltar para casa”.

“Que ponto nós chegamos em que as vidas não têm mais valor? Que os genocídios e massacres são relativizados pelas instituições? É revoltante e a revolta, para nós, significa luta pela vida do meu irmão”, aponta Danilo.

Foto: Caê Vasconcelos/Ponte Jornalismo
Foto: Caê Vasconcelos/Ponte Jornalismo

O jovem também critica a forma como o governador João Doria (PSDB) tem lidado com o caso. “O governador se recusa a nos receber e saber quais são as nossas reinvindicações. Foi a Polícia Militar do Estado de São Paulo que tirou a vida do meu irmão. Ele morreu por uma ação programada do governo do Estado. Mas continuamos batendo na porta do governador e vamos continuar até que haja resposta e o mínimo de Justiça”.

A cuidadora Carla Magalhães, madrinha do Denys, lembra momentos especiais que passou do lado do afilhado, que sempre a visitava em Francisco Morato (Grande SP). “O Denys não tinha liberdade para brincar onde ele morava, porque a mãe o protegia muito. Todo fim de semana, ele estava na minha casa, férias de meio de ano e férias do fim de ano. Lá é como se fosse interior e tinha essa liberdade. Era um pedacinho do céu.”

“Criança tem que correr atrás de pipa, ralar o joelho andando de bicicleta e em casa ele podia. Ele me deu trabalho, viu? Teve um dia que ele quis pular da laje para a piscina de plástico, ele tinha 8 anos. Os primos incentivando. Eu não sei se eu queria abraçar ele ou bater nele. São memórias assim. Denys era muito imperativo, a gente chamava ele de Denys, o Pestinha”, brinca Carla.

Família de Dennys Henrique, 16, outra vítima do massacre | Foto: Caê Vasconcelos/Ponte Jornalismo
Família de Dennys Henrique, 16, outra vítima do massacre | Foto: Caê Vasconcelos/Ponte Jornalismo

Lembrar do jeito do afilhado é o que mais revolta a cuidadora. “Não dá para entender. Um ser humano, por vestir uma farda, se sinta dono da vida do outro. Eu não consigo entender isso”, lamenta.

“Eu vou ser sincera, a gente sempre pensa que vai acontecer no quintal do vizinho, mas não no seu. Sabe quando você é indiferente? Eu era indiferente. Eu achava que os meninos davam motivo, ou correram, ou xingaram a polícia, ou resistiram. Mas eu vi que não precisa de nada disso: eles determinam quem vive e quem morre”, aponta Carla.

A família de Dennys Guilherme também esteve no ato. Assim como o xará, ele também tinha apenas 16 anos. Adriana Regina dos Santos, mãe de Dennys, compartilha muitas dores com Maria Cristina, mãe de Denys Henrique, principalmente ter comemorado dois aniversários sem o filho caçula.

Adriana Regina dos Santos, mãe de Dennys Guilherme, com a cruz com o nome do filho | Foto: Caê Vasconcelos/Ponte Jornalismo
Adriana Regina dos Santos, mãe de Dennys Guilherme, com a cruz com o nome do filho | Foto: Caê Vasconcelos/Ponte Jornalismo

À Ponte, a supervisora de vendas Fernanda dos Santos Garcia, 27 anos, irmã de Dennys Guilherme, lamenta os dias difíceis que a família tem vivido desde 1 de dezembro de 2019.

“Tem dias que estamos bem, outros nem tanto e em outros péssimos. É muito difícil. Ainda mais quando sabemos que quem faz a gente chorar está livre. Estamos no luto e na luta. Não temos nada, estamos aguardando, esperamos, e não tem um parecer”.

Em fevereiro de 2020, a Corregedoria da PM concluiu o inquérito policial militar que apurava a conduta dos policiais envolvidos no caso e pediu o arquivamento da investigação. A conclusão foi a de que, apesar das mortes, a ação dos policiais foi lícita e que eles agiram em legítima defesa.

De acordo com a Secretaria da Segurança Pública do Estado de São Paulo, em nota enviada quando o massacre completou um ano, “os policiais envolvidos seguem afastados do serviço operacional” e a Polícia Militar “segue realizando ações para evitar a formação dos chamados pancadões em todo o Estado, por meio da Operação Paz e Proteção”.

A reportagem vem solicitando desde então uma entrevista com o governador João Doria para falar sobre o Massacre de Paraisópolis, sem resposta. O governo se limitou a enviou um posicionamento por meio de nota dizendo que ofereceu atendimento psicossocial e jurídico aos sobreviventes e às famílias das vítimas de Paraisópolis.

“O acolhimento se deu por meio de parceria entre o Centro de Referência e Apoio à Vítima, da Secretaria da Justiça e Cidadania, com a Defensoria Pública do Estado e a Secretaria Estadual de Desenvolvimento Social”, afirma o texto.