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Marcada por transições, Cúpula do Mercosul debate redução da tarifa externa comum

SYLVIA COLOMBO

BENTO GONÇALVES, RS (FOLHAPRESS) - Numa Cúpula do Mercosul marcada por duas transições —será a última dos atuais governos da Argentina e do Uruguai—, a questão que estará em suspense é se o bloco avançará ou não na questão da redução da tarifa externa comum. 

Até aqui, os governos do Brasil e da Argentina vinham concordando no tema. Com a única divergência de que, enquanto o Brasil queria uma redução mais rápida, a Argentina propunha uma redução mais gradual, que durasse mais quatro anos. Isso, porém, contando que Mauricio Macri fosse reeleito, o que não aconteceu.

O evento ocorre nesta quarta-feira (4), com a reunião dos ministros da economia e das relações exteriores, e na quinta (5), com os presidentes.

A ideia inicial dos mandatários da Argentina e do Brasil era terminar finalmente de convencer seus pares do Uruguai e do Paraguai a baixar de modo substancial a tarifa externa comum. A informação foi dada pelo chanceler argentino, Jorge Faurie, na última semana.

"Formamos um grupo de trabalho no começo do ano, e os quatro países concordaram que nossa taxa é muito alta, o que diminui a competitividade das quatro economias. Também concordamos todos que devemos trabalhar sobre isso para dirimir as diferenças", disse Faurie.

A taxa vigente há mais de 20 anos tem média de 12% —em alguns setores, como o automotivo, é de 35%— e é das mais altas do mundo.

Enquanto o chanceler afirma que esse tema será debatido e que se esperam avanços, o ministro da Produção argentino, Dante Sica, sinalizou que será "difícil avançar neste tema a menos de uma semana de deixarmos o governo".

A tarifa externa comum é vista pelo presidente eleito da Argentina, Alberto Fernández, como necessária para proteger os produtores nacionais. Um dos motores de sua campanha foi a promessa de que iria "priorizar a indústria nacional". Isso significa, na prática, voltar a adotar medidas protecionistas, algo que a parceria Bolsonaro-Macri não desejava.

Apesar da vontade do governo Macri em avançar neste tema, o fato de que seu mandato chegará ao fim na semana que vem tende a deixar no ar a questão da tarifa comum. Nem o novo governo da Argentina —que tem início dia 10 de dezembro— e nem o do Uruguai —que começa em março de 2020— quiseram mandar representantes para opinar sobre o tema.

Este será o último compromisso internacional de Macri, que entrega a faixa presidencial a Alberto Fernández no próximo dia 10.

Devido ao tratamento a que se submete por conta de um câncer no pulmão, Tabaré Vázquez, presidente do Uruguai, não estará presente em Bento Gonçalves. Será representado pelo vice-presidente, Lucía Topolansky.

O presidente eleito do Uruguai, Luis Lacalle Pou, já manifestou estar alinhado a Bolsonaro no quesito flexibilização do Mercosul, mas não detalhou ainda sua opinião sobre a tarifa comum. Lacalle Pou sequer escolheu seu próximo ministro da economia.

Ainda nesta 55ª edição da Cúpula do Mercosul, um dos temas a serem debatidos é a situação da Bolívia, que integra o bloco, mas não como membro pleno.

O Brasil convidou a auto-proclamada Jeanine Añez, que não confirmou se participará ou enviará um representante.

Outro tema que deve ser discutido, principalmente entre os ministros responsáveis pela economia, é o anúncio de Donald Trump de restituir impostos para o aço argentino e brasileiro, por conta da desvalorização das moedas desses dois países.

Batizada de Cúpula do Vale dos Vinhedos, o evento em Bento Gonçalves também tem a intenção de impulsionar a indústria local de turismo e de produção de vinho. Espera-se mais de 2,5 mil pessoas na cidade nesses dias e há cartazes em todos os cantos, propagandeando passeios e restaurantes. A Cúpula presidencial ocorrerá no Hotel & Spa do Vinho e no Miolo Wine Group.