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Barbosa vê do Céu o jogo sem respeito e sem vida no Maracanã

Vista aérea do Maracanã sem torcedores antes de Flamengo x Bangu. Foto: Thiago Ribeiro/AGIF

Deus costuma dar lá no Céu muita bola a Barbosa. Não pelo que ele fez aqui na terra ou teria deixado de fazer em um chute na final da Copa de 1950. Mas pelo que fizeram ao desterrá-lo desde o Maracanazo.

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O todo-poderoso incumbiu Barbosa para receber muita gente que está chegando lá em cima por esses tantos 16 de julhos de 1950 que se repetem a cada dia desde março. Nesta quinta-feira, Deus resolveu dar um descanso a Barbosa. Mas o goleiro da Copa de 1950 fez questão de abrir as portas celestiais a duas pessoas que chegaram.

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"Bem-vindos à eternidade", falou o goleiro que disse que apenas ele purgou uma pena por mais de 30 anos no Brasil por causa do gol da virada do Uruguai em 1950.

Os dois novos moradores tinham partido deste mundo na quinta-feira, no hospital de campanha do Maracanã. No mesmo dia em que ali do lado, o Bangu perdeu para o Flamengo por qualquer placar que aqui não interessa, pela Taça Rio.

E menos ainda no Céu.

Barbosa fez questão de mostrar a eternidade para quem chegou deixando saudade aqui embaixo. Um dos que chegaram sabia quem ele era. Ouvia histórias a respeito. E perguntou como tinha sido sofrer até 7 de abril de 2000 com cobranças absurdas neste plano da terra cada vez mais plana.

"Meu anjo, foram 50 anos difíceis. Mas nunca nesse tempo todo eu perdi a esperança nos homens e a confiança em mim. Estou há 20 anos aqui no Céu. Já vi e revivi muita coisa lá de baixo. Mas o que eu vi nesta noite lá no Rio eu confesso que não imaginaria nem se estivesse no plano inferior. Era para ter 1.300 leitos no hospital ali do Mário Filho, na área do estacionamento do Célio de Barros. Tem só 400. Aqui em cima a gente sabe de tudo isso. Mas parece que ninguém lá em baixo quer saber de nada. Ou nega tudo que a ciência pede... Não adianta botar no telão homenagem pro querido massagista Jorginho do Flamengo. Não adianta botar homenagem pro grande ponta Marinho do Bangu. Ninguém ali dentro, ou pior, ninguém lá das tribunas ditas de honra parecia dar a menor bola pras vítimas e famílias delas. Elas estavam mais sozinhas do que eu por 50 anos. Elas estavam isoladas não como tinham que estar pela pandemia. Estavam isoladas por gente que manda na bola e nas boladas ser mesquinha. Individualista. Esquecem que futebol é coletivo. Estamos todos no mesmo time. Na mesma torcida. Mas cada um separado para ficar mais juntos... Na mesma hora em que tinham 22 jogadores correndo atrás da bola e do salário, 26 pessoas estavam na UTI de uma cidade e de um país que precisa de mais Unidade. E de Terapia mesmo. Mas não só Intensiva. Também de Inteligência....".

Barbosa abriu os braços seguros de grande goleiro que foi: "sejam bem-vindos ao Paraíso, meus anjos. Eu vou continuar aqui na vigilância de mais gente que infelizmente vai chegar. Eu não preciso que ninguém me reconheça agora como vocês. Só quero o que faltou pra mim por 50 anos lá embaixo. E o que faltou ontem como nunca em 70 anos de Maracanã: respeito".

Barbosa em ação contra a Iugoslávia em 1950. Foto: dpa/picture alliance via Getty Images

Um dos que chegaram então abraçou Barbosa. "Aqui eu posso fazer isso"... O goleiro crucificado no Maracanã o abraçou. "Eu sempre quis voltar àquela tarde de 1950 pra jogar de novo e pegar aquela bola do Ghigghia. Mas hoje eu trocaria uma nova partida para não ter o jogo que teve esta noite no Maracanã. Não era pra ter futebol em lugar nenhum. Ainda menos lá. Acho que o Redentor estava de braços ainda mais abertos sinalizando: 'mas o que é isso'? Se queriam jogar, que jogassem em qualquer lugar. Não ao lado de onde vocês dois acabaram de partir... Ao lado de médicos e enfermeiros que dão a vida para salvar outras. Não conseguiram com vocês. Mas já ajudaram muita gente. Vão continuar ajudando. Mas agora tendo que tomar cuidado para não levarem bolada dos jogos da Taça Rio".

Os dois recém chegados se abraçaram. Agradeceram as palavras de Barbosa. E perguntaram: "o que vamos fazer agora?"

O goleiro de 1950 olhou lá do Céu para os holofotes do Maracanã ainda ligados. Os olhos se encheram de lágrimas. Mas ele não perdeu o tom.

"O que vamos fazer.... Rezar. Torcer... É o que sempre fizemos. Aqui em cima é mais fácil. A gente enxerga o que lá embaixo não queremos ver. Mas eu confesso que nunca não quis aqui de cima ver alguma coisa como agora só me resta chorar mais do que em 16 de julho há 70 anos".

Barbosa segue olhando para o lindo estádio de espírito do Maracanã. Até as luzes se apagarem. Justo as que não eram para terem sido acesas.

"A maior tristeza do Maracanã não foi para 200 mil pessoas na Copa de 1950. A maior vergonha foi o dia com futebol e sem público e respeito em 2020".

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