Mercado fechará em 6 h 12 min

Como a luta contra o racismo ganhou as ruas nos atos anti-Bolsonaro

Manifestante participa de ato contra o governo do último domingo (7) em SP. Foto: Marcello Zambrana/Anadolu Agency (via Getty Images)

O que começou com uma mobilização das alas anti-fascistas de torcidas organizadas se transformou, uma semana depois, em um grande grito contra o racismo no país onde pessoas negras são as vítimas principais do deboche que marca o enfrentamento da pandemia do novo coronavírus pelo governo Bolsonaro -- o alvo que unificou os discursos nos atos do último domingo (7).

E nos siga no Google News:

Yahoo Notícias | Yahoo Finanças | Yahoo Esportes | Yahoo Vida e Estilo

Em consonância com os movimentos que eclodem nos EUA e na Europa (com direito à remoção da estátua de um traficante de escravos em Bristol, na Inglaterra), a revolta no Brasil ganhou o reforço de movimentos sociais, personalidades e profissionais da saúde em pelo menos 20 capitais e algumas cidades do interior, como Campinas. A maioria usava máscaras e carregava faixas e bandeiras em defesa da democracia e pelo respeito às vítimas da Covid-19, em contraste com atos minoritários e (agora) desencorajados por Jair Bolsonaro que seguem pedindo a prisão de ministros do STF e parlamentares.

Leia também

Em São Paulo, cerca de 3 mil pessoas foram às ruas. A manifestação transcorreu de maneira pacífica em boa parte do tempo, segundo o porta-voz da PM. Já no fim do ato, um princípio de confusão resultou em confronto com a polícia, e foi devidamente usado por gente do governo federal para deslegitimar a mensagem que o presidente se recusa a ouvir.

A luta contra o racismo tem tudo a ver com a bronca em relação ao papel do governo nesta pandemia. Pessoas negras e pardas, afinal, compõem a maioria das pessoas mortas por Covid-19 no Brasil: 54,8%.

Parte das vítimas não é sequer hospitalizada.

Os dados, de maio, são do Ministério da Saúde. O mesmo ministério onde a intervenção militar pedida por uma minoria barulhenta, com direito a atrasos e omissão de dados, já está em franca operação.

São também negros os rostos das vítimas da violência policial que não cessou na pandemia. O jovem João Pedro, que brincava no quintal de casa, no Rio, quando foi baleado, é símbolo dessa asfixia à brasileira, como é George Floyd nos EUA.

O governo que queria aproveitar as atenções da imprensa na doença para “passar a boiada” em outros assuntos, como a proteção ambiental, quis também usar a pandemia e o momento de fragilidade e ausência de mobilização popular, de rua, para trucar em cima de governos estaduais e outros Poderes, criar um clima de tensão permanente, armar seus apoiadores e sair da crise mais forte.

O resultado é que o governo que hoje perde aliados e precisa recorrer ao centrão para sobreviver nunca esteve tão enfraquecido.

Prova disso é que até o futuro secretário sem experiência na área da saúde e que prometia levar magia onde deveria prevalecer a realidade percebeu que se unir a um governo tóxico era prejudicial até mesmo para os seus negócios. E, diante da tarefa vergonhosa, pulou fora antes de entrar no barco.

A pandemia apenas escancarou que um governo em módulo de beligerância permanente não tem a menor chance de dar certo -- inclusive no terreno econômico. É o que as ruas estão dizendo.

Sem ministro da Saúde com currículo na área há quase um mês, os gestores federais conseguiram transformar o Brasil em pária internacional, sendo citado como anti-exemplo do que fazer até mesmo por Donald Trump.

Das janelas, boa parte da população gritou como pôde ao ver a tragédia ganhar forma. Uma tragédia que se anunciava quando o primeiro ministro da Saúde, Henrique Mandetta, começou a ser fritado em público pelo presidente que negava a gravidade do problema, proporcional apenas à mesquinharia que pautava as suas decisões enquanto perguntava “e daí” diante dos números.

Diante da vergonhosa tentativa de atrasar a divulgação dos dados oficiais, para não sair no Jornal Nacional, com direito a apagão estatístico e promessa de revisão de casos para sair melhor na foto, parte dos manifestantes mostra que cansou de esperar sentada.

Chamados de “escória” por um representante do governo, os movimentos negros são hoje a frente principal da resistência contra um governo que alimenta, direta ou indiretamente, os delírios supremacistas escancarados nas bandeiras de seus apoiadores.

Durante a semana, os atos foram desencorajados pelos partidos políticos que articulam a frente anti-Bolsonaro. Foram chamados de irresponsáveis pelo governador João Doria (PSDB). E ainda não englobaram as lideranças de oposição à direita do espectro político.

Ainda assim, eles ocorreram. E devem continuar a ocorrer.

Enquanto o isolamento é flexibilizado nas grandes cidades e os números de vítimas só sobem, as vítimas preferenciais do coronavírus mostram que já não veem a luta contra a pandemia, que pede quarentena, e a oposição ao governo como posições de estratégias conflitantes. Percebem que os estragos da pandemia não terão fim enquanto o governo seguir à vontade para fazer o que quiser na crise, inclusive com os números.

“Se a gente ficar esperando para não dar motivo, eles vão continuar com a marcha deles e não tem quem os pare. O objetivo em sair às ruas é fazer com que tenha um bloqueio [do fascismo]”, afirmou Guilherme Boulos em entrevista ao site Brasil 247.

No domingo, Boulos foi um dos únicos políticos que engrossaram a marcha.

Com a presença de personalidades como Tchê Tchê, do São Paulo, e Mano Brown, os atos das ruas ganharam rosto neste domingo e apontam para uma mobilização ainda maior que o da semana passada. Esses rostos são hoje a fração mais visível da revolta que aos poucos fecha o cerco sobre um governo que grita para não ouvir a mensagem.