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A maconha natural que regula funções importantes no corpo humano

·6 min de leitura

RIO — Ela está no cérebro durante uma noite de sono reparador e inunda o corpo de bem-estar após um exercício. Flui para controlar a dor e se manifesta em toda parte do corpo que habitamos. É a nossa maconha interior, o sistema de moléculas produzidas pelo próprio organismo humano e batizado pela ciência de endocanabinoide. Ou seja, canabinoides, como os compostos da Cannabis sativa, só que feitos pelas células humanas (endo, de interno).

Agora, uma análise de cientistas brasileiros mostra que é possível regular e potencializar os efeitos da maconha de cada dia por meio de dieta, atividade física e meditação — a tríade do bem-estar que a cada dia se mostra mais poderosa.

O sistema endocanabinoide é um dos mais misteriosos e cruciais mecanismos do corpo humano. Funciona como uma rede de substâncias químicas que conectam o cérebro ao corpo. Ele regula algumas das funções mais essenciais, como aprendizado, memória, controle da dor, da temperatura, do estresse, da inflamação e do apetite.

Essa maconha humana está na base de uma nova medicina e tem sido intensamente estudada por laboratórios farmacêuticos em busca de drogas com aplicações em quase todo tipo de doença, como depressão, obesidade e diabetes.

Hábitos ditam as regras

Porém, não é preciso esperar passivamente que novos medicamentos cheguem às prateleiras das farmácias. A ciência revela que essas pequenas moléculas semelhantes às da maconha que fluem pelo cérebro e estão em nossa carne, vísceras e ossos podem ser moduladas por nossos hábitos.

A maior e mais recente revisão científica sobre o que se sabe dos endocanabinoides mostra que exercícios, meditação e alguns alimentos podem ativar e controlar os níveis de endocanabinoides.

— A força dessa espécie de maconha interior tem o poder de transformar a medicina. Com hábitos saudáveis ajudamos o corpo a ter níveis adequados de endocanabinoides — afirma o neurocientista Ricardo Reis, do Laboratório de Neuroquímica do Instituto de Biofísica Carlos Chagas Filho, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Ele é um dos pioneiros do estudo dos endocanabinoides no Brasil e principal autor do novo artigo, intitulado “Qualidade de vida e uma revisão do sistema endocanabinoide humano” (em tradução livre do inglês). O artigo foi publicado na revista "Frontiers in Neuroscience" e revisa o conhecimento mundial sobre o assunto.

Reis destaca que os endocanabinoides têm funções antioxidantes, antiinflamatórias e em mecanismos de proteção das células, com potencial terapêutico para doenças neurológicas, bem como inflamação e obesidade.

O sistema endocanabinoide é difuso, existe na superfície das células. É composto pelos endocanabinoides em si e por seus receptores. Os canabinoides são dois. O primeiro é a anandamida, cujo nome vem do sânscrito e significa graça ou benção. O segundo é desprovido de sedução no nome. Se chama 2-araquidonoilglicerol ou 2-AG.

O outro braço do sistema fica também na superfície das células e é composto pelos receptores dos canabinoides, sejam endo ou fito. Se chamam apenas CB1 e CB2. O primeiro é o receptor celular mais ativo no cérebro. O segundo está mais ligado ao sistema imunológico.

A anandamida e o 2-AG são moléculas de lipídios, cuja função é mediar sinais de mensagens químicas trocadas pelas células. Ou seja, são gorduras do bem mensageiras, cuja porta de entrada são CB1 e CB2. Sua função primordial é manter corpo e mente em equilíbrio. Por isso, estão em toda parte.

Desigualdade nos nutrientes

O organismo humano, porém, necessita de ajuda externa para produzir e manter o nível dos endocanabinoides na medida certa. Para fabricar essas gorduras, ele precisa dos ácidos graxos ômega 6 e ômega 3. O primeiro é abundante em alimentos, nas gorduras em geral e ingerido normalmente em qualquer dieta. Está, por exemplo, em ovos, óleo de soja, carne vermelha.

Já o ômega 3 é naturalmente mais escasso na natureza e menos ainda na dieta baseada em alimentos industrializados, pobre em gorduras saudáveis. O ômega 3 está presente em óleos de peixes de carne escura, como salmão, atum, cavala, bonito, nas nozes, na linhaça e na chia, por exemplo.

O corpo humano precisa de uma proporção de 4 a 5 moléculas de ômega 6 para cada molécula de ômega 3. Mas a alimentação saturada de gorduras ruins típica da dieta ocidental faz com que essa proporção seja de 20 ômega 6 para apenas um ômega 3.

— Isso é um problema porque todos esses alimentos, que não eram baratos, estão proibitivos. Muitas vezes, a solução é a suplementação, mas mesmo ela é cara. Infelizmente, há desigualdade no acesso de nutrientes que todos precisam — frisa a cientista Isis Trevenzoli, do Laboratório de Endocrinologia Molecular, do mesmo instituto da UFRJ e coautora da revisão geral sobre os endocanabinoides.

A dieta tem influência tão poderosa que seus efeitos são passados de mãe para os filhos. Estudos de Alinny Issac, do mesmo grupo de Ricardo Reis e também coautora da análise, revelaram que filhotes de ratas com uma dieta pobre em ômega 3 e excessiva em ômega 6 nascem com receptores do cérebro alterado e propensão a engordar.

Os endocanabinoides não são o único mecanismo por trás da obesidade, mas são um componente importante, observa Trevenzoli. A obesidade é uma doença com muitas causas, que variam entre os indivíduos, mas os distúrbios no sistema endocanabinoide certamente estão entre elas.

A ação da atividade física era conhecida há mais tempo. Estudos mostraram que exercícios levam à liberação de anandamida. Ela, na verdade, é a responsável pela sensação de êxtase e bem-estar relatada por muitos corredores e ciclistas e conhecida como “runner’s high”, ou “barato do corredor”. Mais do que isso, os exercícios “treinam” o metabolismo para dosar a maconha interior na dose certa.

— Exercícios têm efeitos que poderiam ser classificados como mágicos de tão bons. Porem, são temporários. É preciso fazer sempre — salienta Trevenzoli.

A meditação regular também induz as células do cérebro a liberarem endocanabinoides, associados à sensação de plenitude.

— Pessoas com níveis de endocanabinoides equilibrados são menos vulneráveis, por exemplo, aos efeitos nocivos do estresse — observa Reis.

Boa parte do mistério da maconha interior está em descobrir que concentração é necessária em que parte do organismo. E nisso o corpo humano é terra quase incógnita. Em excesso no hipotálamo, causa fome descontrolada. Não à toa a maconha planta provoca a larica.

Já em outras partes do cérebro, os endocanabinoides produzem efeitos tão variados quanto redução da ansiedade, de depressão e controle da dor. Nos rins, melhoram a filtração.

Ação terapêutica vasta e poderosa

Essa espécie de maconha interior foi descoberta nos anos 90 do século passado, quando cientistas investigavam o potencial terapêutico do canabidiol e do THC, os dois principais dos mais de 400 canabinoides da maconha.

É por isso que o canabidiol e o THC, chamados de fitocanabinoides (de fito, vegetal), têm ação terapêutica tão vasta e poderosa, explica a farmacêutica Luzia Sampaio, também no Laboratório de Neuroquímica.

— Fito e endocanabinoides trabalham juntos e se complementam. O canabidiol, por exemplo, aumenta a concentração da anandamida, um dos endocanabinoides. Essa é a grande vantagem dos fitocanabinoides. Já os canabinoides sintéticos não são tão bons porque competem com os endocanabinoides — diz Sampaio, que assina um outro estudo científico, este sobre o controle da dor e os canabinoides.

Reis acrescenta que os fitocanabinoides se mostram como aliados terapêuticos importantes para potencializar os efeitos dos endocanabinoides em caso de doença, do mal de Alzheimer à obesidade.

— Canabinoides são moléculas maravilhosas. E o que a pesquisa de endocanabinoides tem nos mostrado é a qualidade de vida tem a ver com os hábitos que mantemos e favorecem ou não moléculas que nos proporcionam prazer e bem-estar — enfatiza Reis.

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