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Machismo é velado (e presente) até em empresas que dizem não haver, avaliam especialistas

Colaboradores Yahoo Vida e Estilo
·5 minuto de leitura
O mundo está preparado para se livrar da masculinidade tóxica (Arte: Thiago Limón/Yahoo)
O mundo está preparado para se livrar da masculinidade tóxica (Arte: Thiago Limón/Yahoo)

Por Lucas Veloso

A assistente administrativa Carolina Silveira trabalha em um escritório no centro da capital paulista. Ela diz que já se acostumou com comentários machistas, como ‘tinha que ser mulher’ ou ‘isso não é lugar para uma mulher de respeito’, além das frases, piadas e atitudes dos colegas a incomodam. “Tem dia que o ambiente beira o insuportável. E pior, a gente está em menor número, o que dificulta o debate”, pontua.

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Diariamente, Carolina atende clientes ao lado de, ao menos, 20 homens. Na empresa, com cerca de 50 funcionários, as mulheres ocupam seis postos de trabalho. Na rotina, a assistente também conta que, por diversas vezes já foi assediada. Apesar de reconhecer os abusos no escritório, afirma que não tem a quem recorrer. “Tudo é levado na brincadeira. Minha chefe não percebe e nem adverte”.

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No ambiente de trabalho, sobretudo, onde os homens são maioria, relatos como o de Carolina se proliferam. Segundo especialistas, um dos motivos para corporações prejudiciais às mulheres é o machismo estrutural no País.

Para Silmara Conchão, socióloga e professora universitária da faculdade de medicina do ABC, a chegada das mulheres nas empresas não fez evoluir o comportamento dos homens na relação de trabalho.

A representatividade vem aumentando ao longo dos anos, mas as dificuldades ainda persistem. A gente ainda tem que provar nossa competência e lidamos com o preconceito de gênero diariamente

Silmara cita uma lei carioca que garante vagão exclusivo para mulheres nos trens e metrôs do Rio de Janeiro para dizer que a presença delas não muda o contexto de um país machista.

O professor de Gestão Pública da FGV (Fundação Getúlio Vargas) Rafael Alcadipani, afirma que chegada das mulheres provocou algumas reflexões, mas poucas mudanças na prática. “Se por um lado fez os homens pensarem uma série de ações e atitudes, por outro, eles se uniram e se protegem”, pontua.

Para ele, existe uma solidariedade masculina e isso ajuda a excluir mulheres, bem como outras minorias nas empresas, além da dificuldade dos homens em abrir mão de privilégios. “É um desafio abrir mão do comando e do poder que sempre tiveram nestes ambientes”.

Assédio sexual é uma realidade cruel

Divulgado em outubro deste ano, um estudo realizado pela consultoria de inovação social Think Eva junto com o LinkedIn mostrou como o assédio sexual no trabalho impacta negativamente a carreira das mulheres.

De acordo com a pesquisa, quase metade das brasileiras (47%) afirma que já foi vítima de assédio sexual em algum momento no ambiente profissional. A maioria das vítimas são mulheres negras (52%) e aquelas que recebem entre dois e seis salários mínimos (49%).

O levantamento também mostrou que somente 15% das mulheres que presenciaram uma situação de violência afirmaram ter auxiliado diretamente a vítima, sendo que 10% não fizeram nada e 4,3% disseram ter avisado o departamento de Recursos Humanos. A maioria das vítimas (78,4%) acredita que nada de fato acontecerá se denunciarem o crime dentro da empresa.

Para Alcadipani, nos ambientes em que são maioria, os homens se sentem mais livres para comentários, piadas e a atitudes machistas, mas isso também ocorre nas organizações que pregam outros valores. “A gente tem poucas empresas em que a cultura machista não é dominante. Até onde se diz não haver tem algo velado que atinge as mulheres”, resume.

Silmara acrescenta que as empresas, quando pagam menos às mulheres pelas mesmas funções executadas por homens, também colaboram para a manutenção da estrutura machista, pois dizem que elas valem menos que os colegas “Essas desigualdades, nas instituições públicas e privadas, são cruéis e injustas”.

Um estudo feito pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), divulgado em março de 2019, mostrou que as mulheres ganham menos do que os homens em todas as ocupações selecionadas na pesquisa. No Brasil, as trabalhadoras ganham, em média, 20,5% menos que os homens.

“A diferença salarial entre os gêneros é um grande desafio, já que persiste, apesar da entrada das mulheres no mercado de trabalho”, diz Silmara.

Para o professor da FGV, os homens precisam fazer uma autorreflexão sobre suas atitudes, já que a sociedade não permite mais certos comportamentos. “Isso requer treinamento para que haja mudança de pensamento. É uma realidade social ampla e que pode melhorar no decorrer das próximas gerações, já que o machismo foi naturalizado”.

O especialista indica que os homens foram educados na lógica machista e aliado a isso, o cinismo ajuda a perpetuar a forma de poder. “Muitos dizem que apoiam o discurso e que estão juntos, mas na prática, não é isso que acontece e acabam reproduzindo”. Neste sentido, ele indica que as empresas são responsáveis pela promoção de novos valores, mas que depende dos homens a disponibilidade à reflexão do tema.

Na mesma linha dele, Silmara é favorável a políticas públicas em prol de mudanças, que seriam boas tanto para homens como para mulheres. “A maneira patriarcal com quem enxergamos a sociedade impõe certas condições aos homens, que não podem ser quem ele são. Devem ser destemidos, mostrar força e coragem. Isso é uma prisão para eles enquanto nos coloca no lugar de extrema vulnerabilidade pelo simples fato de sermos mulher”.

Para a socióloga, é importante que a sociedade reveja os valores e eduque os meninos para não serem reprodutores da cultura machista. Ela também diz que o processo de reconstrução ideal une homens e mulheres em prol da igualdade de gênero.

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**Concepção e Coordenação de Amauri Terto e Diego Iraheta