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Múltiplos estratosféricos podem criar bolha em fundos ESG

Ksenia Galouchko e Lucca de Paoli
·3 minuto de leitura

(Bloomberg) -- Chegou a hora da verdade para os fundos ESG.

Fundos negociados em bolsa (exchange-traded funds ou ETFs) que investem em empresas com práticas de responsabilidade ambiental, social e governança corporativa (ESG, na sigla em inglês) atraíram um volume recorde de US$ 85 bilhões nos EUA e Europa em 2020. O dinheiro continua entrando. Embaladas pelos fluxos, as ações em muitos desses fundos estão sendo negociadas por razões entre preço e lucro que estão cada vez mais difíceis de justificar. Um exemplo é o da fabricante de células de combustível Plug Power, dos EUA. O avanço de mais de 2.000% desde o início de 2020 na ação desta companhia que não dá lucro supera até o salto do papel da Tesla.

“Existe risco de que os ativos que compõem os fundos ESG tenham ficado supervalorizados”, disse Chris Dyer, diretor global de renda variável da Eaton Vance. “Os investidores — tanto os de perfil ativo quanto passivo — estão intensificando a busca por esses temas e impulsionando os múltiplos para níveis desconfortáveis em alguns casos. Esse tipo de investimento ingênuo costuma terminar mal.”

Com o índice Nasdaq 100 negociado por múltiplos próximos ao pico observado na era das ponto-com, no início da década de 2000, Bank of America e outras instituições de peso estão fazendo alertas. Após os ganhos astronômicos nas ações ligadas a energias renováveis — carro-chefe dos investimentos ESG —, firmas como JPMorgan Chase defendem maior seletividade para evitar um recuo repentino.

O índice de energia renovável Indxx é negociado por 42 vezes o lucro, o dobro do múltiplo observado para o MSCI World Index. Tanto o MSCI Global Environment Index quanto o MSCI World ESG Leaders Index são negociados em taxas recordes.

Os fundos ESG podem apresentar desempenho inferior se os investidores se afastarem de ações supervalorizadas, principalmente dos papéis de tecnologia e energia limpa que impulsionaram o salto visto em 2020. Seu desempenho relativo também pode decepcionar com a volta dos ganhos das grandes petrolíferas, alvo de aversão dos investidores com prioridades éticas.

No ano passado, entraram quantias recordes de US$32,8 bilhões em ETFs ESG dos EUA e 43 bilhões de euros (US$ 52 bilhões) em fundos europeus, de acordo com dados da Bloomberg Intelligence. Cerca de metade dos novos ETFs lançados na Europa em 2020 tem foco em ESG, segundo o Citigroup. No final de setembro, os ativos totais aplicados em fundos sustentáveis atingiram um recorde de mais de US$ 1,2 trilhão, de acordo com dados da Morningstar.

Embora os temas estejam agrupados, é principalmente a letra E (environment ou meio ambiente) que atrai o interesse dos investidores ESG. O MSCI Global Environment Index bateu recorde no início de janeiro, após um avanço de 93% em 2020. O iShares Global Clean Energy ETF subiu 140% no ano passado, porém alguns fundos temáticos voltados para água e igualdade de gênero não foram tão bem, afirmou Kenneth Lamont, analista da Morningstar.

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