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Médicos testam implantes cerebrais na luta contra dependência química

Fidel Forato

A luta contra a dependência química vem se arrastando há anos e anos, e, finalmente, parece que a ciência começa a adentrar um território ainda pouco desbravado para acabar com o problema e suas tão temidas recaídas. Para casos extremos, neurocientistas da Universidade Rockefeller, em Nova York, iniciaram os testes, em humanos, para um tipo de tratamento até então inédito, com o uso de implantes cerebrais.

Para o neurocirurgião Ali Rezai, coordenador da iniciativa, esses implantes cerebrais só devem ser cogitados como o último recurso na luta contra o vício. O problema, como pontua o especialista, é que "mais da metade dos pacientes recaem. Precisamos encontrar soluções, porque é uma situação com risco de vida e algo que afeta a família e os entes queridos".

"Este método é para aqueles que falharam em todos os outros tratamentos, sejam medicamentos, terapia comportamental, intervenções sociais", esclarece o médico. Afinal, é um procedimento extremamente invasivo, exige a perfuração do crânio e a instalação de um eletrodo no cérebro. Ao estimular eletricamente a parte do cérebro que regula os impulsos relacionados ao vício, Rezai e sua equipe da Universidade Rockefeller esperam poder ajudar pacientes a controlarem melhor seus desejos por opioides.

Médicos na China já usaram técnicas semelhantes de estimulação cerebral profunda para tratar pessoas viciadas em opioides e metanfetamina, mas este é o primeiro do tipo nos Estados Unidos. E se o procedimento funcionar como o esperado com os quatro primeiros pacientes, um estudo maior pode ser seguido.

Entenda o processo

Antes de tudo, o paciente passa por uma série de exames cerebrais que avaliam sua estruturas neurais. A partir desses resultados, a cirurgia envolve a abertura de um pequeno orifício no crânio para que seja inserido um eletrodo, do tamanho de 1 mm, na área específica do cérebro que regula o autocontrole.

Uma bateria é então inserida, e a atividade cerebral pode ser monitorada, de forma remota, pela equipe de médicos, psicólogos e especialistas em dependência, que irão companhar as repostas do corpo aos desejos por drogas. Espera-se que esse impulso diminua, mas é ainda cedo para confirmar as especulações.

Cérebro de dependentes químicos ganha implante para controle de seus impulsos

O primeiro paciente de Rezai a passar pelo procedimento foi Gerod Buckhalter, de 33 anos, no dia primeiro de novembro deste ano. Em luta contra o vício de opiáceos desde os 18 anos, o voluntário já sobreviveu a duas overdoses. "Tive todo tipo de tratamento que você poderia pensar", revela. Além dele, outros três voluntários passarão pela instalação do implante cerebral.

O procedimento é conhecido por estimulação cerebral profunda (DBS) e foi aprovado pela Food and Drug Administration (FDA) para o tratamento de uma série de condições, incluindo o mal de Parkinson, a epilepsia e o transtorno obsessivo-compulsivo.

Riscos dos impantes cerebrais

Eletrodos no cérebro não são uma grande novidade, já que, atualmente, cerca de 180.000 pessoas em todo o mundo vivem com implantes cerebrais. No início deste ano, a Royal Society, do Reino Unido, alertou para os perigos éticos da fusão de máquinas e seres humanos, como o risco de hackeamentos. Além disso há crescente preocupação com os planos de empresas de tecnologia, como o Facebook e a Neuralink, de Elon Musk, que anunciaram pesquisas para desenvolver esses implantes de maneira comercial.

A Neuralink está inscrita para iniciar testes em humanos, nos Estados Unidos, com eletrodos inseridos no cérebro, a princípio, de pacientes com paralisia. Já o Facebook financia pesquisas que estimulam a criação de um fone de ouvido capaz de transcrever palavras a uma taxa de 100 por minuto, usando apenas o pensamento.

Sobre o tema, o neurocirurgião é cético em relação às empresas de tecnologia que se envolvam nessa área. "Acho que é muito bom para a ciência e precisamos avançar no campo e aprender mais sobre o cérebro", no entanto "esta não é uma tecnologia de consumo".

"Quando se trata de aplicativos, eles precisam ser fortemente regulamentado. Isso não é como tomar uma vacina contra a gripe ou fazer uma tatuagem. A cirurgia tem riscos inerentes e não é trivial. É apenas para aqueles com doenças crônicas que falharam em todos os outros tratamentos e estão sem esperança", conclui.

Fonte: Canaltech

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