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Médicos relatam o susto de se ver como paciente de Covid-19 em plena pandemia

Heloísa Traiano, especial para O GLOBO
·3 minutos de leitura

RIO — Enquanto travava uma guerra diária contra a Covid-19 na emergência de um hospital de Salvador, a médica Moema Quintana viu, em maio, a própria mãe se contaminar pelo coronavírus e desenvolver crises convulsivas, sintomas respiratórios e um quadro neurológico. O pai, os irmãos e ela também acabaram se infectando. O quadro da mãe evoluiu, levando a uma internação de 28 dias em estado grave. Uma tia não resistiu.

Com o susto na família aparentemente controlado e a mãe já em casa, em agosto a cirurgiã de 38 anos voltou a sentir alguns sinais da Covid-19. Só que mais intensos. Vieram os mesmos sintomas de colegas e pacientes: a fadiga, a falta de ar e a perda do paladar, até hoje não recuperado.

Moema, hoje de volta ao trabalho, pode ter sido uma das raras pessoas reinfectadas pelo vírus, e seu caso está sendo estudado em São Paulo.

— Na primeira vez, fiquei tranquila, porque a necessidade de manter a cabeça fria falou mais alto. Mas, na segunda, eu pensava: será que vou ser internada, como minha mãe e meus colegas? Você fica tenso e ansioso. A preocupação é viver apenas aquele dia — relata a médica, cujo marido e filha de apenas 1 ano também se contaminaram quando Moema teve sua aparente segunda infecção. — A gente acaba ficando com medo ao ver os colegas sendo internados e fica assustado com os óbitos na classe.

Assim como a cirurgiã, tantos outros profissionais da saúde pelo mundo sentiram na pele o que era passar à posição de paciente num piscar de olhos. No Brasil, já foram 361.219 casos confirmados e 332 óbitos por Covid-19 em profissionais da saúde, segundo dados do Ministério da Saúde até 10 de outubro — do total, 38.310 contágios e 65 mortes foram em médicos.

Consciência dos riscos

Foi este o caso de Cesar Medeiros, cardiologista intervencionista que atua em três hospitais do Rio de Janeiro. Em abril, ele passou nove dias internado em terapia intensiva.

— Cogitou-se que eu teria que ser sedado e intubado. Meu maior medo era perder o controle que eu achava que tinha. Cheguei a ligar para casa, falei com a família que ficaria um tempo sem dar notícias. Esse momento foi crítico. Mas conseguimos passar aquela noite e, no dia seguinte, comecei a melhorar — relatou Cesar, de 50 anos.

Apenas cinco dias depois de receber alta, o médico cruzava de novo as portas dos hospitais. Mas daquela vez para curar depois de ser curado:

— Comecei a exercer funções que não eram minhas. Voltei a dar plantões, algo que não fazia havia muitos anos. Em uma semana, passei de paciente a trabalhador da saúde.

Para Bruno Bussade, médico da Casa de Saúde São José no Rio, a volta ao trabalho foi um susto. Ele se contaminou logo no início da pandemia no Brasil, quando os conhecimentos sobre o vírus e os casos no país ainda eram mais escassos. Mas, no fim do seu isolamento, as notícias já demonstravam que a explosão de casos ainda estava por vir.

— Durante a doença, pensava que, se acontecesse algo, eu seria tratado por colegas. Teria um porto seguro. Mas eu tinha medo — relata o cardiologista e intensivista de 40 anos. — Quando voltei do isolamento, fiquei assustado, pois pulamos de dois para quase 15 pacientes internados por Covid.

Para José Alexandre Araújo, urologista de 42 anos também infectado no início da pandemia, a consciência de médico sobre os riscos que corria produziu ansiedade. Quando os sintomas de dor de cabeça, febre alta e a perda de cinco quilos não deixavam dúvidas, ele foi ao hospital, pagou as contas e deu suas senhas para a mulher, temendo ser intubado.

Ele pôde, no fim das contas, se recuperar em casa. E, apesar dos meses seguintes terem sido duros ao ver “muita gente morrer”, José conseguiu transformar sua experiência numa ferramenta de cuidado:

— Hoje conto aos pacientes que tive a doença. Você entende quem passou pela falta de ar, pelo cansaço e consumo de energia. Só quem teve sabe.